Coluna Paulo Timm  2020

 

 


DEMOCRACIA NA CORDA BAMBA

Às vésperas da primavera debaixo do Equador, à espreita de dias mais longos e luminosos, celebramos, no último dia 15 (set), o DIA INTERNACIONAL DA DEMOCRACIA. Muitos se perguntaram, na ocasião, se teríamos mesmo algo a celebrar, seja no Brasil, seja no mundo. Nas respostas, polarizam-se pessimistas versus otimistas. Para estes, a democracia avançou no século XX com a disseminação de regimes constitucionais eleitos, generalizando-se como forma de governo melhor do que as autocracias absolutistas. Ela melhorou as condições de vida em vastas áreas do globo e ampliou os marcos das liberdades públicas e pessoais. Dão como prova o tão incrível quanto inédito crescimento da população de 1,2 bilhão em 1900 para 7 bilhões no ano 2000. Apontam como responsáveis por este êxito o aperfeiçoamento das duas instituições básicas da modernidade democrática: O Estado, como habitat da Lei e lugar de fermentação de ideais humanitários e o Mercado, como centro de produção de bens e serviços e lugar de incorporação da eficiência com base na livre iniciativa.

Já os pessimistas, céticos, nada veem nisso tudo, senão a perpetuação da grande miséria humana, medida em corpos suplicantes, sempre distante dos centros de poder e de consumo. Sustentam que a democracia não passou de um invólucro enganador, embora não se furtem, quando possível, ao jogo eleitoral como forma de acumulação de forças rumo à novas experiências sociais. E aí, não raro, descobrem dividendos positivos nesta convivência, presentes na abertura do espaço público à maior participação popular e, consequentemente, à ampliação da caixa de ferramentas estatais ao campo das Políticas Sociais de gosto popular. Acabam, inevitavelmente, se dividindo. Faz parte de sua própria história.

Ultimamente, porém, todos, ou quase todos, se mostram preocupados com a erosão da democracia, reeditando um estado de espírito já vivido nos anos 1920/30. Vários livros tratam disso. Parece haver um descrédito nas possibilidades deste regime em oferecer alternativas concretas para a reorganização, tanto de um Estado desgastado pelos sintomas da decadência do homem público a serviço de terceiros, quanto pelo corporativismo de seus quadros em benefício próprio, além de um Mercado crescentemente dominado por oligopólios financeiros, incapazes de redinamizar a capacidade concorrencial das empresas. Naquela época, a crise da democracia desembocou na radicalização acima apontada, alimentando, pela direita o nazi-fascismo de Mussolini e Hitler e, pela esquerda, os ideias revolucionários que desembocariam nas explosões de1917, na Russia, 1949 na China e em 1959 em Cuba. Agora, diante de uma verdadeira pulverização da esquerda depois da queda da União Soviética, segmentada, ainda, pela introdução de agendas ditas identitárias, o desmerecimento da democracia ganha corpo à extrema direita. A Hungria de Oban, a Turquia de Erdogan, Trump e Trumpete nas Américas o demonstram. Embora derrotadas, forças equivalentes se fortalecem na França e na Alemanha e Áustria, alimentadas, paradoxalmente, por eleitores de áreas industriais decadentes, antes inclinados à esquerda. Na Polônia, o famoso “elo mais fraco” da antiga Cortina de Ferro ocorre o mesmo, a ponto de ter exigido uma drástica intervenção da União Europeia para evitar uma severa mudança no sistema de justiça do país. Do “outro lado do mundo”, isto é, dos antagonistas abertos das democracias ocidentais, as quais acusam de falidas, na China, Coreia do Norte, ,Rússia, Cuba, Irã, Síria e na Venezuela,as esperanças de maior abertura se esvaem. Seus líderes não se cansam de cerrar as janelas de seus modelos à maior e mais diversificada participação popular em seus respectivos Governos.

No Brasil as recentes pesquisas dizem que tem aumentado a preferência pela democracia sobre alternativas autoritárias mas, paradoxalmente, apoiamos ideias e candidatos com ideias que a desautorizam, com discurso fortemente segregacionista contra uns e outros que pensem ou ajam fora do “cânone” da Boa Sociedade. Não somos, portanto, apenas o país dos jabotis e jaboticabas, mas também do paradoxo: Odiamos o “Outro”, só porque tem pele de outra cor ou olhos puxados, ideias e comportamentos não convencionais, adora outros deuses ou mesmo nem os tem, tem comportamento sexual “condenável”, ou simplesmente porque é pobre ou iletrado ou “retirante”. Queremos uma democracia de iguais a nós e mal sabemos que isso é justamente o que ela não é. Democracia, mais do que o voto na urna no próximo dia 15, é um regime de convivência entre

diferentes que não só se toleram, mas se respeitam. Por isso acaba sobrevivendo como ideal através do tempo. A democracia é uma utopia em eterna construção. Vamos celebrá-la convenientemente. Em Torres cinco candidatos a Prefeito disputam. Pense bem e escolha o seu.


Eis o Homem –

Marco Aurélio Campos (Poema)

 

Brotei do ventre da Pampa, que é Pátria na minha terra. Sou resumo de uma guerra que ainda tem importância.

Diante de tal circunstância, segui os clarins farroupilhas e, devorando coxilhas, me transformei em distância.

Sou tipo quu numa estrada, só existe quando está só. Sou muito de barro e pó. Sou tapera, fui morada.

Sou velha cruz falquejada num cerne de coronilha.

Sou raiz, sol farroupilha, renascendo estas manhãs. Sou o grito dos tahãs voejando sobre a coxilha.

Caminho como quem anda na direção de si mesmo.

E, de tanto andar a esmo, fui de uma a outra banda;

Se a inspiração me comanda, da trilha logo me afasto e até sementes de pasto replanto pelas vermelhas estradas velhas, parelhas, ao repisar no meu rastro.

Sou alma longa e tão cheia como os caminhos que voltam quando as saudades rebrotam substituindo os espinhos que a perda de alguns carinhos antigos, velhos aprontes, nasceram muitos, aos montes, desta minha vida aragana, nesta andança veterana de ir destampando horizontes.

Eu sou a briga de touros no gineceu do rodeio. Impropério em tombo feio quando um índio cai de estouro. Sou o ruído que o couro faz ao roçar no capim. Sou o tim-rim-tim-tim da espora em aço templado. Trago o silêncio, guardado, do pago dentro de mim.

 

 

Fazendo vez de oratório, sou cacimba destampada, de boca aberta, calada, como à espera do ofertório; como vigília em velório, nesse jeito que é tão seu: tem muito de terra… É céu que a gente sente ajoelhando e, de mãos postas, levantando o pago inteiro para Deus.

Sou o sono do cusco amigo meio dentro do borralho. Sou as vozes do trabalho, no amor, na paz – sou perigo. Sou lápide de jazigo perdida nalgum potreiro. Sou manha de caborteiro, sou voz rouca de cordeona cantando, triste e chorona, um canto chão brasileiro.

Sou a graxa da picanha na bexiga enfumaçada. Sou sebo de rinhonada me garantindo a façanha. Sou vozerios de campanha que nos lançantes se somem. Sou boi-ta-tá, lobisomem. Sou a santa ignorância. Sou o índio sem infância que, sem querer, ficou homem.

Sou o Sepé Tiarajú, o Uruguai, rio-mar azul.

Sou o Cruzeiro do Sul, luz e guia do índio cru. Sou galpão, charla, e chiru de magalhânicas viagens.

Andejei por mil paisagens, sem jamais sofrer sogaços. Cresci juntando pedaços de brasileiras coragens.

Sou, enfim, sabiá que canta, alegre, embora sozinho.

Sou gemido de moinho num tom tristonho que encanta. Sou o pó que se levanta. Sou terra, sangue, sou verso. sou maior que a história grega. Eu sou Gaúcho, e me chega p’rá ser feliz no universo.


CUIDADOS DE SI E COM OS SEUS

Paulo Timm – Pub. A FOLHA Torres RS 11/18 SETEMBRO

Setembro é o mês “amarelo”, de atenção a um dos temas que ainda subsiste como verdadeiro tabu: o suicídio. Atenção para que Estado e Sociedade, tomando conhecimento da gravidade do fenômeno, desenvolvam protocolos de prevenção do mal. Dia 10 de setembro é considerado o DIA MUNDIAL DE PREVENÇÃO DO SUICÍDIO no mundo inteiro. “Dor e preconceito”, segundo documentário da FIOCRUZ: https://www.youtube.com/watch?v=wN--fZ34n6k&feature=emb_title . Conheça suas dimensões:

"Todos os anos, o suicídio aparece entre as 20 principais causas de morte no mundo, para pessoas de todas as idades. Só ele é responsável por mais de 800.000 mortes - o que equivale a um suicídio a cada 40 segundos.(...) Para cada suicídio, 25 pessoas fazem uma tentativa e muitas mais pensam seriamente nele. Isso equivale a 108 milhões de pessoas por ano sendo profundamente afetadas pelo comportamento suicida. (...)É um comportamento com determinantes multifatoriais, resultado de uma complexa interação de fatores psicológicos e biológicos, inclusive genéticos, culturais e socioambientais. Dessa forma, deve ser considerado como o desfecho de uma série de fatores que se acumulam na história do indivíduo, não podendo ser considerado de forma causal e simplista apenas a determinados acontecimentos pontuais da vida do sujeito. É a consequência final de um processo.”

No Brasil registram-se12 mil suicídios por ano, cerca de mil por mês, 32 a cada dia, números em ascenção. Homens predominam nas estatísticas e, regionalmente, Rio Grande do Sul ocupa preocupante liderança. Estamos chegando perto daquela situação em que teremos uma vítima em cada família- http://dssbr.org/site/2016/09/nao-ha-lirismo-no-suicidio-os-numeros-que-assustam/ Ele afeta, em 96,8% dos casos, pessoas com algum transtorno mental, sobretudo os que padecem de depressão e drogadição, enfermidades articuladas que têm aumentado muito nos tempos atuais, principalmente em situações extremas, como as da atual quarentena. Todo cuidado, com paciência e tolerância para com eles é a recomendação dos especialistas. Fale e faça-os falar sobre o que sentem. Insista na “Escuta Ativa”. Recomende os grupos comunitários de apoio, como o Alcoólicos Anônimos -AA-, em funcionamento em todas as cidades do país, a ligação para o Centro de Valorização da Vida – CVV – ,188 ou profissionais habilitados. Na faixa de15 a 29 anos, o suicídio está entre as principais causas de morte, ao lado dos homicídios que também ceifam nossos jovens, mormente negros e pardos. . Esta é um segmento da população que, além dos fatores psicológicos, acumulam tensões em decorrência das dificuldades para sua adequada inserção social. Grande parte deles, que somam perto de15 milhões, são os chamados “nem-nem”, sem escola e sem emprego, em grande parte vivendo em áreas e lares extremamente pobres. Constituem o principal fator de evasão no II Ciclo, frustrando as possibilidades de um futuro melhor, e metade deles não tem acesso a renda. Tivesse o Governo maior sensibilidade ao problema e os converteria em prioridade para recebimento de Bolsa Família ou Renda Brasil: Defesa da vida, prevenção ao suicídio, abertura de janelas para a entrada numa ordem social injusta e competitiva, redução da evasão escolar.

Autoridades de saúde divulgam e reproduzimos os elementos do processo de reconhecimento sobre o risco de suicídio de jovens:

Relatos de solidão e de desinteresse em viver, com sentimento de tristeza

Perda de interesse pelas atividades habituais

Agressividade e ansiedade com mudanças no apetite

Alteração no sono e aversão ao convívio social

Presença de machucados ou mutilações .

 

Lembre-se: Cuide de si, mas também dos seus.

Cuide de si, alimentando metas e organizando rotinas diárias que lhe garantam acordar, a cada dia, com um conjunto de tarefas, mas cuide também dos seus queridos entes e amigos, guardando-os sob seu olhar atento..


O QUE DESEJA BOLSONARO?

Paulo Timm – Publ.A FOLHA, Torres RS -24/31 agosto -2020

 

Agosto, oitavo mês do ano é, para muitos, o mais cruel de todos eles. Paradoxo: Seu nome homenageia Cesar Augustus, o condutor da Era da Pax Romana depois da morte de Caio Julio Cesar. Para os europeus ocidentais, marcou o massacre de São Bartolomeu, no qual morreram, na França, milhares de protestantes.

“Corpos foram empilhados às centenas. Muitos foram jogados no rio Sena. A barbaridade era aterrorizante: um livreiro foi queimado, com seus sete filhos, em uma fogueira feita com seus livros. Nem mesmo os bebês foram poupados desse banho de sangue.[26]

As cenas monstruosas que se multiplicavam faziam duvidar dos limites da maldade humana. Quando finalmente a loucura parecia ter fim, o rei Carlos IX, então com 22 anos, deu a ordem de matar todos os huguenotes para além de Paris. Ele argumentava: “Em nome de Deus! Se quereis a vida do almirante, tomai-a! Mas então é preciso matá-los a todos – não deve ficar um único huguenote que possa vingar de mim!”[27]. Assim, “a loucura se espalhou pelas províncias nos dias e nas semanas que se seguiram”[28]. Bleye afirma que “a tremenda matança de calvinistas se repetiu em outras cidades da França (Meaux, Troyes, Orleáns, Toulouse, Rouen, Bordeaux) em dias sucessivos”[29].

A Enciclopédia Católica diz que em 24 de agosto um mensageiro com o selo real se dirigiu a Orléans, onde ordenou que se tratasse todos os huguenotes dali da mesma forma que os de Paris, exterminando-os com “todo o cuidado de não deixar escapar ninguém, e uma dissimulação perspicaz que surpreenda a todos”[30]. No dia seguinte, “foi emitido um pedido para matar os sectários”[31], e “em quase todo lugar do país prevaleceu a política de derramamento de sangue”[32].

Pijoan assevera que na manhã seguinte ao dia de São Bartolomeu (24 de agosto) “o sangue manchava as escadarias, os corredores e salões do palácio real”[33], mas o massacre ainda se estendeu por mais dois meses em doze cidades[34]. Tão grande era a quantidade de cadáveres jogados nos rios que ninguém mais podia comer peixe. Os relatos da época falam dos cadáveres boiando durante meses[35], e a Enciclopédia Católica registra que “durante três meses os habitantes não queriam beber água do rio”[36]. Não sem razão, o massacre da Noite de São Bartolomeu foi considerado “o pior dos massacres religiosos do século”[37].” - Entenda tudo sobre o massacre da Noite de São Bartolomeu: o maior genocídio religioso da história-http://www.lucasbanzoli.com/2018/03/entenda-tudo-sobre-o-massacre-da-noite.html?m=1

 

No Brasil tivemos o suicídio de Vargas, data comparável ao Dia da Independência ou da Proclamação da República, mais importante, até, que o 03 de outubro de 1930, quando deu início à Revolução que destronaria o “bico de pena” de oligarcas encartolados. E ainda tivemos a memorável Legalidade do Governador Brizola, em 1961, que quase nos leva à Guerra Civil. A mim, levou-me, jovem cadete em Porto Alegre, à maturidade precoce, no empunhamento de um velho fuzil Mauser 35 na guarda de um canhão antiaéreo na Redenção. Fico me perguntando:-“E se coisa esquentasse e eu morresse, como morrem, aliás, milhões de soldados em todas as guerras, desde o começo da civilização? (Sempre me chamaram a atenção as homenagens ao soldado desconhecido). Então...eu morria e pronto. Não teria amado as mulheres e os amigos que amei, não teria lido os livros que li, não teria conhecido o mundo que palmilhei, não teria tido os filhos que me alegram, não teria sonhado os sonhos que sonhei e não teria vindo curtir o meu outono à beira do Mampituba. Não teria vivido. Mas vivi.”

O interessante é que nem tudo que é ruim dura eternamente – o que é bom dura menos ainda. Sobrevém um tempo de calmaria e até bonanças. Do sétimo selo de São Bartolomeu nasceu a autoridade secular que abrigaria e Reforma Religiosa a qual, depois de muito penar na Guerra dos 30 Anos, de 1618 a 1648, abriria o mundo para o Tratado de Westphalia. Poucos o sabem.

Este foi um marco do princípio da soberania dos homens sobre suas preferências religiosas e das Nações sobre seu destino. Sabiam? Ou acreditam mesmo que o que é bom para Estados Unidos – ou Irã, ou Rússia, ou China – é bom pro Brasil?

No Brasil, o sangue de Vargas alimentou “Os Anos Dourados”, de 1955/60. Quanta saudades...? Vida que segue, nas linhas e entrelinhas. Principalmente nestas, onde a alma revela o corpo que falha, mais para a Psyche humana do que para o imortal Eros, ambos da mitologia grega. Aliás, aqui, Geografia e História se encontram. Em poucos dias, o 24, de Vargas, o 25, da Legalidade e o 27 de agosto convergem na celebração do Dia do Psicólogo. A Psicologia é a Ciência da Alma e do Comportamento Humanos Não se pergunta o que somos, mas porquê o somos. Homo Sapiens...? Homo comunicans? Homo Pugnat? Homo sensum? E assim o sendo, por que desejamos isso ou aquilo e por que nos dividimos tanto sobre estas preferências. Sobre isso tudo, mais controvérsias do que certezas.

Platão, no século V A.C. em Atenas mostrou a ambiguidade dos homens no mito da caverna. Os que saem à luz iluminam-se mas são taxados de loucos por seus pares se voltam ao meio original. Sair ou não sair? Ser ou não ser? Os

iluministas, cerca de dois mil anos depois retomam a trilha clássica e fundam o homem contemporâneo, alimentado pela inalcançável liberdade e pela razão nem sempre perceptível. O desejo do Homem ainda permanece oculto. O que deseja uma mulher (?) é a indagação jamais respondida de Freud. Alguém sabe? Melhor amá-las do que compreendê-las...

Nascemos, enfim, renovados em células, mas velhos em espírito, escravos de nós mesmos, como reféns de uma razão que desconhecemos, do Espaço, pela Geografia, e do Tempo, pela História. E tratamos de vir-a-ser com o que, de nós, nos fizeram estes condicionantes.

E temos o Brasil. Temos a pandemia, com perto de120 mil enterrados sem cerimônia alguma. Temos 65 milhões vivendo uma quimera de R$ 600 mensais na esperança de renová-la por algum tempo, antes da miséria estrutural.. Temos uma economia em busca da glória passada, quando nos orgulhávamos de ser um país que escapuliu do subdesenvolvimento colonial. E temos Bolsonaro num concêntrico labirinto. E temos nós, que perguntamos ao vê-lo em suas idiossincrasias, ambições e contradições : O que deseja o Presidente...?


TUDO COMO DANTES NO QUARTEL DE ABRANTES

Paulo Timm – Publ.A FOLHA, Torres RS ago/14/21-2020

 

 

A luta do homem, em qualquer tempo e geografia, é o enfrentamento com o meio, com os outros homens e consigo próprio. A Odisseia infindável do eterno retorno: a gestação, a sobrevivência, a reprodução, a morte. Do pó ao pó. Sina dos que vivem. E que reflete, no fundo, as três dimensões que nos definem e situam no cosmos: O espaço, o tempo e a consciência. Descartes, Hegel, Platão...Junto os pontos e terá um volume que, em movimento, constitui sua própria história.

.A tarefa do ficcionista é a de entender e escrever sobre isso. Não só situar o vivente neste processo, como colocá-lo em situações extremas: O muro, o grito do abismo, o fim. .Aí o drama, às vezes a tragédia, sempre calcada na verossimilhança com o real.. Um exemplo: Os grandes números não emocionam. São estatísticas. Isso aprendemos num dos mais importantes clássicos da filmografia americana dos anos1950 – “A Montanha dos Sete Abutres”: a tragédia tem que ter nome e endereço para chegar ao coração das pessoas. Philip Roth, renomado romancista americano, recentemente falecido, insistia no mesmo tom, mostrando os desafios das diversas gerações na época do Macartismo, da Guerra do Vietname e da Era Clinton. Mas isso é secundário. Importa destacar o momento brasileiro, que é decisivo. Mais de cem mil mortos pelo COVID 19, muitos sobreviventes da infecção, ainda incertos quanto às suas reais de saúde, os outros, imensa maioria da população, na dúvida: Estou ou não estou? Tempos de desafios extremos. Para os mais vulneráveis, idosos sobretudo, nem se trata do corredor da morte, sempre com prazos a cumprir com infindáveis recursos. Com o coronavírus tudo é muito rápido. Duas semanas e acabou-se. Ó tempos! E, escapando, enfrentar a dura realidade do desemprego e da crise

O ano todo de 2020 tem sido um desastre: Crise tríplice da Política, da Economia e Sanitária que acentua as 77 pragas que assolam o Brasil. Maio foi o mês mais tenso desta travessia. O Presidente, movido por suas indiossincrasias e ambições, segundo a Revista Piaui, chegou a tentar um golpe de mão no Poder.

Sentiu a pressão do Judiciário, do Congresso e da Sociedade Civil e mudou de estilo, para o que muito contribuíram as Pesquisas demonstrando uma sólida base de apoio, alimentada - na base - pelo Auxílio Emergencial. Caiu na real. Reaproximou-se do Supremo Tribunal Federal, evitando novos petardos a seus membros, atacados pelo “Chegou,Porra”!, acertou-se com um grupo parlamentar tradicional no Congresso- Centrão – e começou a flertar com a reeleição. Mudou ou assumiu-se...? Neste ímpeto começou a alimentar, na própria esfera governamental, uma velha divisão, de profundas raízes na História do Brasil desde 1930, reeditada em pleno regime militar em 1966, entre “pragmáticos ” e “doutrinários”. Os primeiros, optam por uma visão heterodoxa, marcada por inclinação às reformas do capitalismo brasileiro com vistas à aceleração, via investimentos públicos, do desenvolvimento e promoção da cidadania; os segundos, às reformas, tipo Privatizações e Reformas da Previdência, Administrativa e do Pacto Federativos, para a adequação deste mesmo capitalismo às exigências da globalização, hoje dominada por interesses financeiros num paroxismo do que Keynes chamava Love of Money – https://www.academia.edu/37217866/The_Love_of_Money_On_Menger_and_Keynes.

Para entender melhor esta diferença técnica entre ortodoxos e heterodoxos veja : José Luis Oreiro FB s9tSSagpsoa ohuladeag agcnofosnissouftoe ·

Explicando a diferença entre economia ortodoxa e economia heterodoxa https://www.facebook.com/jose.oreiro.3/videos/3218313871548313

 

Na prática, tensionou o equilíbrio interno do Governo, levando à fragilização de Paulo Guedes, avatar do liberalismo, diante da proclamação do “Plano Brasil” pelo Ministro General Luiz E. Ramos, apoiado pelos Ministros Rogerio Marinho, do Desenvolvimento Regional, e Tarcísio G. de Freitas, da Infraestrutura. Os “fura-tetos”. O clímax veio à tona no dia 11 (agosto) levando Guedes ao desabafo de que iria abrir fogo com estes, à luz, inclusive do desmantelamento de sua equipe com a saída de vários de seus Secretários, indispostos com o andar da carruagem. Chegou-se a anunciar a saída de Guedes com supostas consequências quanto ao apoio do “Mercado” ao Projeto Bolsonaro 2022. Não faltou o coro reverberado pela BIG MÍDIA de que estávamos de volta ao populismo. O Presidente assustou-se, reuniu o Ministério e fez nova profissão de fé ao liberalismo com irrestrito respeito ao Teto de Gastos da Emenda 95. Sempre com entrelinhas, pois Bolsonaro é bom político: Quer o Renda Brasil. Enquanto isso, o Judiciário, já livre do espectro de Sergio Moro, começa um processo de revisão da Lava Jato que poderá desembocar na anulação de muitos de seus processos, inclusive o que daria a Lula a possibilidade de voltar à cena eleitoral em confronto com Bolsonaro. Por paradoxal que isso possa parecer, porque nos conduz a uma situação de “extremos” tudo indica que Bolsonaro não a teme e que muitos de seus interlocutores até admitem que

possa ser, enfim, o caminho de uma pacificação da crise politica aberta em 2016. Será? Eis o filme: “Nasce uma estrela”...

A nação desdenha dos cem mil mortos, indiferente “às estatísticas”.

Aqui, então, a vida imita a arte e o cronista despede-se. Perplexo, mas conformado: Pra quê escrever “contos” se o só contar já é uma ficção...


 

RETRATO DO BRASIL 2020. BASTA!

Paulo Timm – 8 agosto 2020 –

 

Covas rasas do genocídio

Contribuição pessoal à Nota do Comitê de Apoio à Democracia e Estado de Direito- POA/RS – em homenagem às 100.000 vítimas do genocídio.x

O fascismo é bruto mas franco: mostra a cara. Rejeita a máscara. Nega a ciência. Alimenta pre-conceitos. Idolatra cloroquina e corteja a violência e a morte. O Brasil lamenta, no curso deste processo inaugurado pela posse do Presidente Bolsonaro dia 01 de janeiro de 2019, o óbito decorrente do novo corona vírus de 100.000 brasileiros vítimas de genocídio,tal como já denunciou um dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, aí corresponsabilizando as Forças Armadas . O Tribunal de Contas da União, aliás, contabilizou um total de 6.157 militares da ativa e da reserva em cargos do governo.

 

“Famílias destroçadas, lágrimas, luto, mortes sem despedida. Cem mil. Além de tantos mortos, cada dia que passa registramos ao menos 1.000 novas mortes por Covid-19 e temos mais de 45 mil novos casos que poderão virar mais mortos ou mais pessoas com graves sequelas.”

Mas não se trata apenas de genocídio. Um médico, Dr. Arnaldo Lichtenstein denuncia que se trata de uma lógica de eugenia.

 

Eis o que fala a imprensa estrangeira: “Bolsonaro está levando Brasil á calamidade”. “Brasil é governado por gang de criminosos”. “Brasil á beira do caos”. E seus defensores ainda dizem que não há um caso sequer de escândalo no Brasil neste ano e meio de Bolsonaro. Oressa! O maior escândalo do período republicano é justamente este Governo insensível que aí está, contra o qual abundam manifestos de instituições e lideranças da Sociedade Civil, especialmente a Carta ao Povo de Deus firmada no mês de julho por 152 bispos e endossada por 1.057 padres e diáconos da Igreja Católica.

 

 

O Governo brasileiro negou, desde o anúncio da pandemia pela OMS, em janeiro deste ano a gravidade do COVID19. O Presidente da República JAIR BOLSONARO desdenhou dos riscos do COVID 19 e tentou impor ao Ministério da Saúde um Protocolo superficial, contrário às recomendações de isolamento social e cuidados pessoais forçando a demissão do seu titular, Deputado Mandetta, substituindo-o por um General da ativa subserviente às suas irresponsáveis determinações, quem acabou militarizando com centenas de militares a respectiva pasta. Capítulo criminoso consistiu na recomendação, seguida de público marketing da cloroquina para o combate à doença no SUS. Puro charlatanismo. Denunciamos nesta hora de pranto e luto da Nação brasileira a ignóbil atitude negacionista do Presidente Bolsonaro. Seu Governo não compreendeu a necessidade de elaborar, desde janeiro um verdadeiro e abrangente Plano de Enfrentamento ao Coronavírus, que contemplasse ações no campo da Informação, através de todos

os veículos de Midia do país, na mobilização do conjunto e articulado de atores públicos e privados da sociedade, no pronto mapeamento nacional das condições sanitárias, em termos de infraestrutura, recursos humanos e medicamentos, com vistas ao seu fortalecimento, na compra centralizada de produtos e equipamentos para o sistema de saúde etc. Respondeu, por certo à demanda da sociedade reverberada pelo Congresso Nacional no sentido de oferecer um Orçamento de Ajuda Emergencial aos trabalhadores dispensados pela crise e às empresas afetadas. Mas fê-lo de forma improvisada, sem o adequado apoio das Organizações Não Governamentais que detêm conhecimento da situação das maiores carências. Em consequência, multiplicaram-se as fraudes no auxílio ás família, com o agravante de que o apoio ao empresariado acabou privilegiando as grandes corporações em detrimento das pequenas e médias empresas. Quanto ao apoio a artistas e promotores da cultura, enfim consagrado na Lei Aldir Blanc ainda nada se viu de concreto acontecer. Penam os circos e artistas de rua, penam os grupos teatrais, penam os conjuntos musicais, chora a criativa arte no Brasil diante do caos que se desatou sobre o setor. Isso tudo, porém, não se resume ao genocídio de 100mil brasileiros, maior parte, aliás, idosos, pobres e negros sofridos moradores das periferias das cidades. E comunidades indígenas. Aqui nosso pesar pela morte de Aritana Yawalapiti, vítima não da fatalidade do COVID 19 mas do descaso das autoridades federais para com os índios. E dizer que um General, Rondon, um dia cunhou esta frase que se converteu em máxima do indigenismo brasileiro:

-“Matar nunca, morrer se for preciso”.

A tragédia se estende sobre todos os serviços públicos do país.

MEC , já debilitado por um ano e meio nas mãos de um facínora, hoje premiado com um cargo de Diretor do Banco Mundial, com salário de R$121.000, 00 mensais, anuncia que vai cortar R$ 1,4 bi de verba de universidades e institutos em 2021. Pior, querem mandar nossas crianças para as escolas em meio ao morticínio, levando ao estupor cientistas como Nicollelis, pedagogos, país e professores.

As queimadas da Amazônia continuam, despertando indignação até de grandes investidores internacionais e do pequeno grupo de banqueiros, tendo aumentado em 31% nos últimos 12 meses segundo o INPE. Tudo com resultado do desmonte dos órgãos e legislação de proteção ambiental comandado por um Sinistro do Meio Ambiente já condenado em São Paulo por conluio com interesses corporativos. Um conhecido estudioso da Amazônia , Carlos Nobre, adverte em entrevista nestes dias ao IHU/Unisinos, ilustrada, aliás por outra entrevista da mesma fonte da Professora Aparecida Vilaça:

“Destruição da Amazônia pode transformá-la em deserto e desencadear pandemias.”

Ao genocídio de brasileiros vulneráveis e destruição da Amazônia, associa-se a Fantástica Madame Defensivos, na pasta da Agricultura, tão meiga quanto melíflua, com o recorde de liberação da boiada de agrotóxicos que esgotarão a terra e intoxicarão nossas crianças. Ano passado 475 novos produtos foram por ela liberados e em 2020 segue o passo, com um total de 150 produtos recebendo registro desde o começo do ano, sendo 118 durante a pandemia.

E o que diz diante de tudo isso a Ministra dos Direitos Humanos, que sublinha com suas ações em organismos internacionais as posições mais atrasadas sobre direitos da mulher, das crianças e comunidades vulneráveis: “Direitos Humanos para humanos direitos...” Truísmo nojento e criminoso. Humanos direitos que veem, sucessivamente, cortando históricas conquistas trabalhistas na Reforma da CLT e na Reforma da Previdência aprovadas ano passado (2019). Humanos direitos que reverberam do Gabinete do Ódio localizado no Palácio do Planalto, ao lado do Gabinete do Presidente e sob seus olhares complacentes e cúmplices campanhas de fake News forjadas para combater não só supostos adversários políticos mas até mesmo membros do Governo, alguns dos quais já abatidos em pleno võo ministerial. Humanos direitos que sob a tutela de um Ministro da In-Justiça, André Mendonça, monta serviços de espionagem eivado de militares contra servidores contrários à barbárie fascista em curso e que ainda tem o desplante de afrontar em tom cínico e

desafiador o Supremo Tribunal Federal, na pessoa da Ministra Caremen Lúcia, com esta pérola autoritária:

"A mera possibilidade de que essas informações exorbitem os canais de inteligência e sejam escrutinadas por outros atores internos da República Federativa do Brasil — ainda que, em princípio, circunscrito ao âmbito do Supremo Tribunal Federal — já constitui circunstância apta a tisnar a reputação internacional do país e a impingir-lhe a pecha de ambiente inseguro para o trânsito de relatórios estratégicos"...

Combina-se a catástrofe governamental, também, com o desmantelamento do Itamaraty, na retomada subserviente de que “o que é bom para os ESTADOS UNIDOS é bom para o Brasil, deixando-se nossas autoridades à mercê de ameaças do Embaixador Americano quanto à nossa decisão na instalação do 5G. E, no pior dos males, entrega-se o grande salto industrial realizado pelo Brasil no século XX à sanha especulativa do Ministro Paulo Guedes, quem, em meio à crise aproveita para passar outra boiada: a das privatizações que entregarão a preço vil patrimônio significativo do povo brasileiro. Dele a dicção na famosa reunião ministerial de 22 de abri: -“Essa porra do Banco do Brasil está pronta para a privatização”. Chulo. Traidor que ainda haverá de pagar pelos seus crimes. Junto prepara ele um novo ataque á cultura com a Reforma Tributária: Em vez de taxar os bilionários rentistas, que não passam de 0,1% da população do país, detentores de um patrimônio líquido de R$10 trilhões aplicados á taxa média anual de 34%, agora quer cobrar tributo sobre livros. E lá se vai nesta Reforma, ladeira abaixo a classe média tradicional, cada vez mais onerada...Enquanto isso vai queimando as nossas preciosas reservas com o intuito de evitar a queda ainda maior do dólar, fruto de uma evasão inusitada de capitais externos do país. Dentro de um ano, a crise cambial voltará a nos colocar nos braços do FMI, pois teremos chegado a uma posição vulnerável de ter uma dívida externa duas vezes maior do que as reservas, grande parte dela de empresas debilitadas pela crise e sem condições de honrar seus compromissos.

 

Triste. O neofascismo de Bolsonaro não tem qualquer projeto para o Brasil, a não ser o de destruir o produto de décadas de trabalho e grandes sacrifícios em nome de uma suposta guerra contra inimigos invisíveis que estariam colocando em risco o mundo ocidental. Com esta narrativa, totalmente avessa às convicções do antigo Não Alinhamento, hoje revigoradas pela luta pela consolidação de um mundo inevitavelmente globalizado mas com recortes de múltiplos polos de Poder, Bolsonaro anula o Brasil e alimenta os caminhos de mais mortes, mais desemprego, mais miséria e que já aponta para a proletarização de amplos segmentos da classe média. Aos familiares dos cem mil brasileiros que partiram a nossa solidariedade e nossa grande esperança de juntarmos o povo brasileiro na reconquista de sua verdadeira soberania, a que repousa sobre a defesa da vida e do desenvolvimento. Resta-nos , sobretudo, a esperança. Afinal, como proclama Leonardo Boff, que subscrevemos: “Mas dentro deste inferno dantesco, há algo do paraíso que nunca se perdeu e que constitui a permanente saudade do ser humano: saudade da situação paradisíaca na qual tudo se harmoniza, o ser humano trata humanamente outro ser humano, sente-se confraternizado com a natureza e filho e filha das estrelas, como dizem tantos indígenas. Em tempos maus como o nosso, vale ressuscitar esse sonho que dorme no profundo de nosso ser. Ele nos permite projetar outro tipo de mundo que, para além das diferenças, todos se reconhecem como irmãos e irmãs. E se entre-ajudam.” http://www.ihu.unisinos.br/601574-dentro-de-um-inferno-algo-do-paraiso-nao-se-perdeu-artigo-de-leonardo-boff?fbclid=IwAR2e0X-Pq3KIWh0Ktxndh-VPT8pbmt7g3P8Jdc_jMOQrRnZdxPBD72FmcP4

Há alguns meses, em maio, o Presidente Bolsonaro tentou um golpe felizmente frustrado, hoje desmascarado pela imprensa, afirmando alto e bom tom: “Chega , porra!”. Agora chegou a nossa hora de dizer: - BASTA! .Aliás, como frisa Reinaldo Azevedo, um cronista que ninguém pode acusar de comunista pela sua cruel campanha contra os governos Lula e Dilma: “Já passou da hora - e como passou - das autoridades civis desta República, representando o povo na forma da Lei, tomarem

conhecimento e cuidar desse monstrengo, debelando-o enquanto ainda embrião. “

 


ENTRE-MENTES

Paulo Timm – Pub. A FOLHA, Torres RS – 31 JULHO

“Apesar dos novos picos de infecção, a abertura continua…” De maneira insuperavelmente irônica, o retorno à normalidade torna-se assim o gesto psicótico supremo, o emblema da loucura coletiva.

S.Žižek: a “volta ao normal” é a psicose suprema

· 24 Julho 2020- http://www.ihu.unisinos.br/601254-zizek-a-volta-ao-normal-e-a-psicose-suprema?fbclid=IwAR3-k-3Hj_3O_9Nt-CeCIyzq4fRmtDbtrt2pBONAIj9WKDrFOEmCJOEaaMQ

 

*

Enquanto os americanos amargam a perda de 32% no seu PIB no segundo trimestre em meio a graves conflitos raciais, na pior crise do último século, para desespero do Presidente Trump e gáudio da China, a Europa celebra o verão nas ruas. Verdade que ainda temerosa de uma reincidência do corona vírus, mas com os olhos nos planos mirabolantes de reformas prometidas pela União Europeia: Trilhões... Já no Brasil, vivemos o “inverno da nossa desesperança” embarcados numa espécie de “nau dos insensatos”, ainda que sob uma tênue trégua nos excessos do Presidente Bolsonaro. Ninguém mais fala em impeachment. Há remanejamentos na Câmara dos Deputados e no âmbito da Procuradoria Geral de República, que resolveu intervir na “República de Curitiba”, mas sem sinais de guerra. Cuidado, porém! As águas calmas escondem perigosas correntes subterrâneas. A oposição pode acordar...

No início do ano passado eu falava em tensões políticas. Depois, perto do fim do ano, me preocupou a estagnação econômica. E no início deste 2020 , sucumbi ao pânico sanitário, que ainda me assusta. A essas alturas, contudo, me dou conta que nem são só três as crises que nos afetam, nem sete pragas, mas 77. Não cabe aqui enumerá-las. Fechamos o mês de julho com uma média diária persistente de mil óbitos. Ela nos mantém tensos sobre um passivo de perto de 100 mil mortos, número superior às vítimas anuais de acidentes de trânsito e homicídios violentos. A doença, que arrefeceu nos primeiros centros de infecção, se alastra assustadoramente na vizinhança: Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “Pelo segundo dia consecutivo (29.julho), RS tem recorde de registro de mortes nas últimas 24h. Foram 70 óbitos no estado, sendo 13 na capital; RS já tem 1.750 vítimas e 64.496 casos confirmados da doença.”

No litoral norte do Estado estamos sob bandeira vermelha com sérias restrições ao comércio, aulas e aglomerações. Os empresários chiam, aqui, junto ao Prefeito Carlos Souza, que se mostra favorável a uma flexibilização imediata. Não obstante, os números de infectados e suspeitos em Torres e Passo de Torres continua aumentando. Me pergunto, aliás, quando veremos a gestão conjunta de políticas públicas para municípios tão interligados. O que custaria

um encontro mensal para concertar instrumentos de ação? Preocupa, sobretudo os mais cautelosos que, como eu, estão no grupo dos “meio vulneráveis” -os mais vulneráveis são os mais pobres – a questão da pandemia. Preferiríamos um enérgico lock out como mecanismo de choque na curva de contaminação:

 

 

Evolução do COVID 19 – Ultimos dias - Boletim Epidemiológico das Prefeituras

TORRES

 

Dia29 - 370 infectados x 116 suspeitos

Dia 27 - 333 infectados x 135 suspeitos

Dia 26 - 330 infectados x 114 suspeitos

Dia 19 - 230 infectados x 88 suspeitos

 

PASSO DE TORRES

95 x 39

92 x 32

76 x 36

Enquanto isso segue a vida. Para 42 bilionários, às mil maravilhas. Pesquisa da OXFAM mostra que elevaram seu patrimônio, durante a crise, de US$123 bilhões para US 157 bilhões – dólares. Eles são parte da fatia seleta de 200 mil famílias do que antigamente se chamava de classe dominante: Os Donos do Brasil, que vivem de propriedades - https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/07/27/patrimonio-dos-super-ricos-brasileiros-cresce-us-34-bilhoes-durante-a-pandemia-diz-oxfam.ghtml.

Quanto à classe média, passa por um sufoco: Acabaram-se as viagens ao exterior, serviços domésticos e compras de importados com a brutal desvalorização do Real, enquanto sua Poupança evapora-se nas aplicações. Os Planos de Saúde periclitam. Carro zero, nem pensar.Nos miasmas da crise vai sumindo, também, sua idealização da Lavajato. O Brasil não mudou: Centrão, escândalos, sinecuras, vilegiaturas...

Por fim, os muito pobres, aqueles que saltaram de 8 milhões para 13 milhões nos últimos anos, estão relativamente a salvo. Graças ao Auxílio Emergencial dos R$600, que chegou a 43% dos domicílios do país, eles estão comendo. https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Economia/noticia/2020/07/auxilio-emergencial-aumentou-renda-de-trabalhadores-informais-em-50.html?utm_source=notificacao-geral&utm_medium=notificacao-browser

Agradecem, mudando sua opinião sobre o Governo, que aí compensa as perdas de apoio nas classes altas. As pesquisas eleitorais confirmam: Bolsonaro segue na frente de qualquer outro candidato em 2022. Se transformar este Corona Vaucher em Renda Brasil, com valor em torno deR$500 para 40 milhões de brasileiros, vira Presidente Perpétuo do Brasil. Ou Imperador, para o que já dispõe de uma invejável e primorosa Família Real. Só faltará revogar a Lei Áurea.



COLUNA PAULO TIMM 2019
COLUNA PAULO TIMM 2019

                                                                       

  Coluna Paulo Timm

  

 

 


Dia da Liberdade de Cultos - Data: 7 de janeiro

Segundo o artigo 5º da Constituição de 1988, “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.
E a Carta Magna acrescenta: “Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa, convicção filosófica ou política”.
Por sugestão do escritor baiano Jorge Amado, então deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro de São Paulo, a liberdade religiosa já havia sido assegurada pela Constituição de 1946.
Mas a primeira lei sobre o tema é de 7 de janeiro de 1890, daí a comemoração nesta data. Trata-se de um decreto assinado pelo presidente Marechal Deodoro da Fonseca.
No Brasil, a liberdade de culto e o respeito às diversas religiões são fundamentais para um convívio social pacífico, ao mesmo tempo em que enriquecem nossa cultura.
DECRETO Nº 119-A, DE 7 DE JANEIRO DE 1890
Prohibe a intervenção da autoridade federal e dos Estados federados em materia religiosa, consagra a plena liberdade de cultos, extingue o padroado e estabelece outras providências.
O Marechal Manoel Deodoro da Fonseca, Chefe do Governo Provisório da Republica dos Estados Unidos do Brazil, constituido pelo Exercito e Armada, em nome da Nação, decreta:

Art. 1º E' prohibido á autoridade federal, assim como à dos Estados federados, expedir leis, regulamentos, ou actos administrativos, estabelecendo alguma religião, ou vedando-a, e crear differenças entre os habitantes do paiz, ou nos serviços sustentados à custa do orçamento, por motivo de crenças, ou opiniões philosophicas ou religiosas.

Art. 2º A todas as confissões religiosas pertence por igual a faculdade de exercerem o seu culto, regerem-se segundo a sua fé e não serem contrariadas nos actos particulares ou publicos, que interessem o exercicio deste decreto.

Art. 3º A liberdade aqui instituida abrange não só os individuos nos actos individuaes, sinão tambem as igrejas, associações e institutos em que se acharem agremiados; cabendo a todos o pleno direito de se constituirem e viverem collectivamente, segundo o seu credo e a sua disciplina, sem intervenção do poder publico.

Art. 4º Fica extincto o padroado com todas as suas intituições, recursos e prerogativas.

Art. 5º A todas as igrejas e confissões religiosas se reconhece a personalidade juridica, para adquirirem bens e os administrarem, sob os limites postos pelas leis concernentes à propriedade de mão-morta, mantendo-se a cada uma o dominio de seu haveres actuaes, bem como dos seus edificios de culto.

Art. 6º O Governo Fedeeral continúa a prover á congrua, sustentação dos actuaes serventuarios do culto catholico e subvencionará por um anno as cadeiras dos seminarios; ficando livre a cada Estado o arbitrio de manter os futuros ministros desse ou de outro culto, sem contravenção do disposto nos artigos antecedentes.

Art. 7º Revogam-se as disposições em contrario.

Sala das sessões do Governo Provisório, 7 de janeiro de 1890, 2º da Republica.
Manoel Deodoro da Fonseca. - Aristides da Silveira Lobo. - Ruy Barbosa. - Benjamin Constant Botelho de Magalhães. - Eduardo Wandenkolk. - M. Ferraz de Campos Salles. - Demetrio Nunes Ribeiro. - Q. Bocayuva.

Este texto não substitui o original publicado no Coleção de Leis do Brasil de 1890


 Perspectivas para 2020


Paulo Timm – A FOLHA, 03/Janeiro 2019


Findo os festejos, hora de dar uma olhada e ver o que realmente nos espera no ano já em curso. A grande pergunta: Sobreviveremos? A grande maioria, sim, mas muitos ficarão pelo caminho, vítimas do mero envelhecimento, que no Japão já chega a 88 anos de expectativa de vida, outros, principalmente no Brasil, vítimas de homicídios, acidentes de carro e balas perdidas. Estes somarão 120 mil. Nada promissor. Pior do que a morte, porém, são os suplícios da pobreza dos 100 milhões de brasileiros que ganham até um salário mínimo, agora de R$ 1.039,00, que traz consigo duas grandes chagas: a diminuição de até 20 anos na esperança de vida neste segmento e as condiçõe sub-humanas deste menor tempo de vida em meio ao desemprego, baixas ofertas de serviços públicos como lazer e cultura, levando os milhares jovens aos pancadões e violência suburbana. Triste! Diante disso todos se indagam se este ano será melhor. E aqui, muitas divisões.
Para setores alinhados ao Governo Federal o ano de 2020 anuncia-se como bem melhor do que os cinco anteriores. Divulgam, até, bons indicadores nas vendas de fim ano, nem todos dignos de confiança. Mas confiam que a economia crescerá acima de 2%, que a inflação permanecerá baixa, confirmando um baixo nível de juros e que reorientará os investidores para aplicações mais produtivas, seja na Bolsa de Valores, seja em Fundos Imobiliários que poderão alavancar a construção civil, seja em participações em novos negócios. Advertem, porém, que não haverá grande impacto no emprego pois as empresas já se adaptaram às novas exigências da concorrência através de superiores patamares tecnológicos. Além disso contam com os bons reflexos de uma safra recorde de 243 milhões de toneladas de grãos, das quais em torno de 124 milhões de toneladas de soja, nível superior ao americano, sobre o comércio exterior e sobre o mercado interno. Além disso, contam com uma nova realidade fiscal do Tesouro da União, não tanto em razão da Reforma da Previdência aprovada em 2019, cujos reflexos, aliás pífios, só serão percebidos daqui a dois ou três anos, mas de duas contribuições extraordinárias: 50 bilhões de reais oriundos das privatizações e outro tanto do petróleo do pré-sal. Isso daria uma certa folga no Orçamento da União, por primeira vez depois de muitos anos, para a realização do sonho do Presidente Bolsonaro: Mais investimentos em Políticas Sociais de forma a capturar o apoio dos céticos eleitores com menor nível de renda, sobretudo no Nordeste. Já cogitam, ainda, lançar mão de parte excedente das divisas em dólares, de elevado custo em juros, para o reforço deste novo populismo de corte autoritário, vez que sem mediação de organizações populares.
Contra esta versão, alinha-se a Oposição, fortemente inclinada à tese da tendência ao estancamento da economia sob o comando liberal, vez que onerada pela contração do poder de consumo da classe trabalhadora, cada vez mais orientada à “uberização” de seu modo de sobrevência: troca de empregos estáveis por bicos precários que vão da venda de balas e salgadinhos nos pontos de ônibus à difícil vida como “auto-empreendedores”. Denunciam, inclusive, a grosseira manipulação dos dados sobre as vendas de Natal, evidenciando-o como parte de uma campanha destinada a influenciar as expectativas do mercado. Não acredita, também, a Oposição, na orientação social dos novos investimentos oriundos das privatizações e pré-sal ao não reconhecer qualquer vocação do Governo Bolsonaro para o atendimento das necessidades sociais da população mais carente. Demonstram, inclusive, os cortes nos Orçamentos da Educação e Saúde como indicadores da “perversidade” inata dos neoliberais. Esquecem-se, talvez, que está havendo uma troca de investimentos institucionais para um provável aumento em investimentos ocasionais...
Vale lembrar que esta polarização ideológica sobre fundamentos e perspectivas da economia brasileiras também ocorreu na década de 1960, logo depois do golpe de 64, quando ascendeu ao comando da matriz governamental o ex Ministro Roberto Campos, com forte inclinação liberal e que também conduziu ao achatamento salarial paralelo à mudanças importantes na esfera econômica: criação do Banco Central e Banco Nacional da Habitação, este sustentando por um novo instituto nas relações de trabalho, em substituição `a anterior “estabilidade” aos 10 anos no emprego, o FGTS, fortemente repelido em seus primeiros anos de aplicação. Levantando clamores contra seus excessos liberais dentro do próprio regime, Campos cai e em seu lugar emerge o novo Czar da Economia, Delfim Neto, um pragmático, obtendo surpreendentes resultados positivos, logo nomeados como “Milagre Brasileiro”, em 1968. Isso, na época, surpreendeu a Oposição que, mercê de seu pessimismo quanto às potencialidades do capitalismo brasileiro, atirara-se ao confronto armado com o regime, vindo a isolar-se crescentemente do processo político. Em 1970, no auge dos Anos de Chumbo, vitorioso, o Presidente Médici, regozijava-se pelos “feitos da Revolução de 64”.
Tudo de novo...?


Marcas e marcos do ano 2019

Na década de 1980 um livro fez muito sucesso nos Estados Unidos, vindo a liderar as vendas por dois anos seguidos e publicado em outros 57 países: “Megatendências”. Em seguida, o autor, John Naisbit, publicou sequências deste volume com “Megatendências 2000”, “Megatendências na Asia” e “Paradoxo Global”, todas com grande repercussão. Hoje, visto em retrospectiva, vemos que Naisbit era uma espécie de profeta. Viu tudo. Ou quase tudo o que viria a ocorrer. Sua fórmula, entretanto, nada tinha de mística. Ele próprio costumava dizer que bastava ver o que já estava acontecendo. Eis, recapitulando, as 10 maiores mudanças advertidas em “Megatrends”:
1. De uma sociedade Industrial para uma sociedade de informação;2. Da sociedade do Poder para a sociedade High tech-high touch; 3. Da economia local para uma economia mundial; 4. Do curto para o longo prazo – A grande questão: em que negócio você está envolvido?; 5. Da centralização para a descentralização, onde estruturas centralizadoras estão morrendo; 6. Da Ajuda institucional para a
auto-ajuda; 7. Da democracia representativa para a democracia participativa
8. Da Hierarquia para o Network/Redes; 9. Do Norte para o Sul; 10. Múltiplas opções.
Naisbit, além das previsões, gostava, também, de chamar a atenção para palavras, expressões e objetos em curso, em cada período de tempo, mostrando, numa espécie de mostra etnográfica, o mapa de usos e costumes reinante. Costumava, inclusive, com sua esposa, fazer uma espécie de exposição deste mapa ao final de cada ano. Aí me ocorreu alinhar, neste final de 2019, alguns nomes, temas e conceitos que se incorporaram ao nosso cotidiano aqui no Brasil. Não se trata, claro, de fazer uma enciclopédia deste cotidiano, mas de registrar, alguns tópicos à posteridade, sobretudo no campo político. Ei-los:
Pós verdade – Uma era em que a opinião ou versão de cada um, mesmo tratando-se do Presidente da República, se sobrepôe aos fatos e até mesmo consolidadas teses científicas.
Terraplanistas – Seita de pessoas convictas de que a Terra é plana e não esférica.
Excludente de ilicitude – Medida proposta pelo Presidente Bolsonaro com o objetivo de excluir agentes da Segurança Pública de qualquer ação judicial em decorrência de seus excessos, mesmo em caso de óbitos.
Crédito de Carbono – Instituto criado no âmbito das Conferências Internacionais sobre o Clima, decorrentes da ECO-92, que consagrou o conceito de desenvolvimento sustentável, que permite à empresas e países que cumprirem a contento suas metas de redução de emissão de gás carbônico, negociarem seus saldos.
Greta Thunburg – jovem adolescente sueca que se notabilizou na defesa do Meio Ambiente no Mundo e que adotou o apelido “Pirralha”, com o qual o Presidente Bolsonaro a caracterizou.
Olavistas – Membros do Governo Bolsonaro que se proclamam leais seguidores dos ensinamentos do Sr. Olavo de Carvalho, um intelectual brasileiro auto-didata, ultra conservador, residente
Bolsonarês – Estilo de linguagem própria do Presidente Bolsonaro e outros membros do alto escalão da República e objeto de publicação como Glossário na Revista Veja - https://veja.abril.com.br/politica/glossario-de-bolsonares-para-entender-o-novo-governo/, a saber:
“Marxismo cultural - A influência que ativistas políticos e teóricos de esquerda exercem em diversas áreas da produção cultural, como música, teatro, cinema, mídia e a própria educação, a fim de disseminar conceitos políticos comunistas e socialistas. Para o presidente, representa o enfraquecimento de valores morais nacionais e a promoção da ideologia de gênero.
Doutrinação - Na lógica bolsonarista, é a imposição, por parte de professores, de valores morais e políticos vinculados à esquerda aos estudantes.
Viés ideológico - Além de um mecanismo de “doutrinação”, é a opção de abordagem de qualquer questão a partir apenas da ótica de esquerda.
Escola Sem Partido - É um movimento e um projeto de lei homônimos que pretendem coibir a discussão de questões morais, políticas e sexuais em sala de aula, como forma de evitar a suposta doutrinação dos estudantes por professores. Em discursos, a expressão também é utilizada para definir de forma genérica o sistema educacional onde não estejam presentes, em especial, as ideias políticas de esquerda e a ideologia de gênero.
Ideologia de gênero - Apelido dado à teoria que estabelece sexo biológico e gênero como sendo coisas independentes, permitindo que um indivíduo biologicamente homem possa ter uma expressão de gênero feminina, se identificando socialmente como mulher, por exemplo. Também está relacionada ao papel social de homens e mulheres e contra a discussão em sala de aula sobre a desigualdade de oportunidades entre gêneros na sociedade.

Humanos direitos - variante do “cidadão de bem”, define para quem devem ser garantidos os direitos humanos básicos.
Terrorismo - Além dos significados comuns, essa expressão também é usada para definir as invasões a propriedades privadas organizadas por movimentos sociais, que, acredita o governo, devem ser tipificadas desta forma.
Talkei - Para o fim de todos os assuntos, o presidente eleito complementa as ideias com “talkei”. É uma expressão para certificar que a pessoa com quem ele fala está entendendo e, também, para ele conseguir completar a linha de raciocínio sem conseguir se perder, talkei?

Fake News - Termo em inglês que significa “notícias falsas”. Na retórica do presidente, foi expandido para reportagens com as quais ele discorda, independentemente da sua veracidade.

Politicamente correto - É a defesa, criticada pelo presidente, de que expressões, brincadeiras e outras manifestações jocosas dirigidas a setores vulneráveis da sociedade e minorias devem ser coibidas. Para o presidente, trata-se de vitimismo e de restrição à liberdade de expressão.

Vitimismo e mimimi - A crença de que militantes de grupos minoritários buscam publicizar qualquer manifestação contrária aos seus interesses como forma de pressionar a classe política e a sociedade civil a aprovarem projetos de lei que lhes garantam o que considera privilégios.”
Como diria Machado de Assis: “ Vá o feito!” Vai-se o ano.


 


Paulo Timm – A FOLHA, 03/Janeiro 2020


Findo os festejos, hora de dar uma olhada e ver o que realmente nos espera no ano já em curso. A grande pergunta: Sobreviveremos? A grande maioria, sim, mas muitos ficarão pelo caminho, vítimas do mero envelhecimento, que no Japão já chega a 88 anos de expectativa de vida, outros, principalmente no Brasil, vítimas de homicídios, acidentes de carro e balas perdidas. Estes somarão 120 mil. Nada promissor. Pior do que a morte, porém, são os suplícios da pobreza dos 100 milhões de brasileiros que ganham até um salário mínimo, agora de R$ 1.039,00, que traz consigo duas grandes chagas: a diminuição de até 20 anos na esperança de vida neste segmento e as condiçõe sub-humanas deste menor tempo de vida em meio ao desemprego, baixas ofertas de serviços públicos como lazer e cultura, levando os milhares jovens aos pancadões e violência suburbana. Triste! Diante disso todos se indagam se este ano será melhor. E aqui, muitas divisões.
Para setores alinhados ao Governo Federal o ano de 2020 anuncia-se como bem melhor do que os cinco anteriores. Divulgam, até, bons indicadores nas vendas de fim ano, nem todos dignos de confiança. Mas confiam que a economia crescerá acima de 2%, que a inflação permanecerá baixa, confirmando um baixo nível de juros e que reorientará os investidores para aplicações mais produtivas, seja na Bolsa de Valores, seja em Fundos Imobiliários que poderão alavancar a construção civil, seja em participações em novos negócios. Advertem, porém, que não haverá grande impacto no emprego pois as empresas já se adaptaram às novas exigências da concorrência através de superiores patamares tecnológicos. Além disso contam com os bons reflexos de uma safra recorde de 243 milhões de toneladas de grãos, das quais em torno de 124 milhões de toneladas de soja, nível superior ao americano, sobre o comércio exterior e sobre o mercado interno. Além disso, contam com uma nova realidade fiscal do Tesouro da União, não tanto em razão da Reforma da Previdência aprovada em 2019, cujos reflexos, aliás pífios, só serão percebidos daqui a dois ou três anos, mas de duas contribuições extraordinárias: 50 bilhões de reais oriundos das privatizações e outro tanto do petróleo do pré-sal. Isso daria uma certa folga no Orçamento da União, por primeira vez depois de muitos anos, para a realização do sonho do Presidente Bolsonaro: Mais investimentos em Políticas Sociais de forma a capturar o apoio dos céticos eleitores com menor nível de renda, sobretudo no Nordeste. Já cogitam, ainda, lançar mão de parte excedente das divisas em dólares, de elevado custo em juros, para o reforço deste novo populismo de corte autoritário, vez que sem mediação de organizações populares.
Contra esta versão, alinha-se a Oposição, fortemente inclinada à tese da tendência ao estancamento da economia sob o comando liberal, vez que onerada pela contração do poder de consumo da classe trabalhadora, cada vez mais orientada à “uberização” de seu modo de sobrevência: troca de empregos estáveis por bicos precários que vão da venda de balas e salgadinhos nos pontos de ônibus à difícil vida como “auto-empreendedores”. Denunciam, inclusive, a grosseira manipulação dos dados sobre as vendas de Natal, evidenciando-o como parte de uma campanha destinada a influenciar as expectativas do mercado. Não acredita, também, a Oposição, na orientação social dos novos investimentos oriundos das privatizações e pré-sal ao não reconhecer qualquer vocação do Governo Bolsonaro para o atendimento das necessidades sociais da população mais carente. Demonstram, inclusive, os cortes nos Orçamentos da Educação e Saúde como indicadores da “perversidade” inata dos neoliberais. Esquecem-se, talvez, que está havendo uma troca de investimentos institucionais para um provável aumento em investimentos ocasionais...
Vale lembrar que esta polarização ideológica sobre fundamentos e perspectivas da economia brasileiras também ocorreu na década de 1960, logo depois do golpe de 64, quando ascendeu ao comando da matriz governamental o ex Ministro Roberto Campos, com forte inclinação liberal e que também conduziu ao achatamento salarial paralelo à mudanças importantes na esfera econômica: criação do Banco Central e Banco Nacional da Habitação, este sustentando por um novo instituto nas relações de trabalho, em substituição `a anterior “estabilidade” aos 10 anos no emprego, o FGTS, fortemente repelido em seus primeiros anos de aplicação. Levantando clamores contra seus excessos liberais dentro do próprio regime, Campos cai e em seu lugar emerge o novo Czar da Economia, Delfim Neto, um pragmático, obtendo surpreendentes resultados positivos, logo nomeados como “Milagre Brasileiro”, em 1968. Isso, na época, surpreendeu a Oposição que, mercê de seu pessimismo quanto às potencialidades do capitalismo brasileiro, atirara-se ao confronto armado com o regime, vindo a isolar-se crescentemente do processo político. Em 1970, no auge dos Anos de Chumbo, vitorioso, o Presidente Médici, regozijava-se pelos “feitos da Revolução de 64”.
Tudo de novo...?


Marcas e marcos do ano 2019

Na década de 1980 um livro fez muito sucesso nos Estados Unidos, vindo a liderar as vendas por dois anos seguidos e publicado em outros 57 países: “Megatendências”. Em seguida, o autor, John Naisbit, publicou sequências deste volume com “Megatendências 2000”, “Megatendências na Asia” e “Paradoxo Global”, todas com grande repercussão. Hoje, visto em retrospectiva, vemos que Naisbit era uma espécie de profeta. Viu tudo. Ou quase tudo o que viria a ocorrer. Sua fórmula, entretanto, nada tinha de mística. Ele próprio costumava dizer que bastava ver o que já estava acontecendo. Eis, recapitulando, as 10 maiores mudanças advertidas em “Megatrends”:
1. De uma sociedade Industrial para uma sociedade de informação;2. Da sociedade do Poder para a sociedade High tech-high touch; 3. Da economia local para uma economia mundial; 4. Do curto para o longo prazo – A grande questão: em que negócio você está envolvido?; 5. Da centralização para a descentralização, onde estruturas centralizadoras estão morrendo; 6. Da Ajuda institucional para a
auto-ajuda; 7. Da democracia representativa para a democracia participativa
8. Da Hierarquia para o Network/Redes; 9. Do Norte para o Sul; 10. Múltiplas opções.
Naisbit, além das previsões, gostava, também, de chamar a atenção para palavras, expressões e objetos em curso, em cada período de tempo, mostrando, numa espécie de mostra etnográfica, o mapa de usos e costumes reinante. Costumava, inclusive, com sua esposa, fazer uma espécie de exposição deste mapa ao final de cada ano. Aí me ocorreu alinhar, neste final de 2019, alguns nomes, temas e conceitos que se incorporaram ao nosso cotidiano aqui no Brasil. Não se trata, claro, de fazer uma enciclopédia deste cotidiano, mas de registrar, alguns tópicos à posteridade, sobretudo no campo político. Ei-los:
Pós verdade – Uma era em que a opinião ou versão de cada um, mesmo tratando-se do Presidente da República, se sobrepôe aos fatos e até mesmo consolidadas teses científicas.
Terraplanistas – Seita de pessoas convictas de que a Terra é plana e não esférica.
Excludente de ilicitude – Medida proposta pelo Presidente Bolsonaro com o objetivo de excluir agentes da Segurança Pública de qualquer ação judicial em decorrência de seus excessos, mesmo em caso de óbitos.
Crédito de Carbono – Instituto criado no âmbito das Conferências Internacionais sobre o Clima, decorrentes da ECO-92, que consagrou o conceito de desenvolvimento sustentável, que permite à empresas e países que cumprirem a contento suas metas de redução de emissão de gás carbônico, negociarem seus saldos.
Greta Thunburg – jovem adolescente sueca que se notabilizou na defesa do Meio Ambiente no Mundo e que adotou o apelido “Pirralha”, com o qual o Presidente Bolsonaro a caracterizou.
Olavistas – Membros do Governo Bolsonaro que se proclamam leais seguidores dos ensinamentos do Sr. Olavo de Carvalho, um intelectual brasileiro auto-didata, ultra conservador, residente
Bolsonarês – Estilo de linguagem própria do Presidente Bolsonaro e outros membros do alto escalão da República e objeto de publicação como Glossário na Revista Veja - https://veja.abril.com.br/politica/glossario-de-bolsonares-para-entender-o-novo-governo/, a saber:
“Marxismo cultural - A influência que ativistas políticos e teóricos de esquerda exercem em diversas áreas da produção cultural, como música, teatro, cinema, mídia e a própria educação, a fim de disseminar conceitos políticos comunistas e socialistas. Para o presidente, representa o enfraquecimento de valores morais nacionais e a promoção da ideologia de gênero.
Doutrinação - Na lógica bolsonarista, é a imposição, por parte de professores, de valores morais e políticos vinculados à esquerda aos estudantes.
Viés ideológico - Além de um mecanismo de “doutrinação”, é a opção de abordagem de qualquer questão a partir apenas da ótica de esquerda.
Escola Sem Partido - É um movimento e um projeto de lei homônimos que pretendem coibir a discussão de questões morais, políticas e sexuais em sala de aula, como forma de evitar a suposta doutrinação dos estudantes por professores. Em discursos, a expressão também é utilizada para definir de forma genérica o sistema educacional onde não estejam presentes, em especial, as ideias políticas de esquerda e a ideologia de gênero.
Ideologia de gênero - Apelido dado à teoria que estabelece sexo biológico e gênero como sendo coisas independentes, permitindo que um indivíduo biologicamente homem possa ter uma expressão de gênero feminina, se identificando socialmente como mulher, por exemplo. Também está relacionada ao papel social de homens e mulheres e contra a discussão em sala de aula sobre a desigualdade de oportunidades entre gêneros na sociedade.

Humanos direitos - variante do “cidadão de bem”, define para quem devem ser garantidos os direitos humanos básicos.
Terrorismo - Além dos significados comuns, essa expressão também é usada para definir as invasões a propriedades privadas organizadas por movimentos sociais, que, acredita o governo, devem ser tipificadas desta forma.
Talkei - Para o fim de todos os assuntos, o presidente eleito complementa as ideias com “talkei”. É uma expressão para certificar que a pessoa com quem ele fala está entendendo e, também, para ele conseguir completar a linha de raciocínio sem conseguir se perder, talkei?

Fake News - Termo em inglês que significa “notícias falsas”. Na retórica do presidente, foi expandido para reportagens com as quais ele discorda, independentemente da sua veracidade.

Politicamente correto - É a defesa, criticada pelo presidente, de que expressões, brincadeiras e outras manifestações jocosas dirigidas a setores vulneráveis da sociedade e minorias devem ser coibidas. Para o presidente, trata-se de vitimismo e de restrição à liberdade de expressão.

Vitimismo e mimimi - A crença de que militantes de grupos minoritários buscam publicizar qualquer manifestação contrária aos seus interesses como forma de pressionar a classe política e a sociedade civil a aprovarem projetos de lei que lhes garantam o que considera privilégios.”
Como diria Machado de Assis: “ Vá o feito!” Vai-se o ano.


DIREITOS HUMANOS, CLIMA E SUSTENTABILIDADE

Paulo Timm

 

A recente intervenção da Polícia Militar em um baile funk em Paraisópolis, São Paulo, que resultou na morte, já classificada como assassinato pela Promotoria daquele Estado, de nove jovens, traz à tona a questão dos Direitos Humanos, ultimamente desgastada em razão da truculência reinante no país. Com mais razão, impõe-se o tema devido a celebração, em 10 deste mês, do Dia Internacional dos Direitos Humanos, assim configurado pela ONU, em 1968, como marco da data, no ano de 1948, da aprovação da Declaração dos Direitos Humanos, cuja primeira versão data da Revolução Francesa. Aliás, você já a leu alguma vez?

Duas conferências internacionais , em 1968, em Teerã, e em 1993, em Viena , deram impulsos significativos à questão dos Direitos Humanos. O primeiro, conceitual, que assegurou um nível de adesão à defesa dos direitos humanos por quase 200 países; o segundo, institucional , garantindo a criação do ALTO COMISSARIADO dos direitos humanos na ONU e apontando para a criação do TRIBUNAL INTERNACIONAL DE CRIMES CONTRA A HUMANIDADE , hoje em pleno funcionamento em Roma, como um verdadeiro Poder Judiciário Internacional, cujo o projeto básico foi resultado de uma Conferência Internacional, em junho de 1998 , em Roma. Rigorosamente, qualquer pessoa, atingida em seus direitos fundamentais, pode recorrer a este Tribunal em busca de justiça. Já estão em curso, inclusive, com o Tribunal de Roma , diversos processos sobre áreas objeto de ações capituladas como crimes contra a humanidade . Com isto, direitos humanos deixou de ser uma bandeira de abnegados e passou a se constituir numa verdadeira Agenda para o século XXI , à qual se inclina a comunidade internacional . Três princípios consagram o avanço conceitual no campo dos Direitos Humanos: 1 - indivisibilidade dos direitos civis , políticos, econômicos , sociais e culturais; 2 - universalidade na sua observância ; 3 - indissociabilidade entre democracia , desenvolvimento e defesa dos direitos humanos . Rigorosamente, pois, não se pode, senão para fins pedagógicos ou de reconstituição de seu processo histórico, separar os direitos humanos em suas dimensões civis, políticas e sociais. Contemporaneamente, eles constituem um todo indivisível. Tampouco se pode limitar sua observância, que se impõe, hoje, em escala universal, embora não se deva admitir que algum país se imponha como seu Juiz Supremo. Não se pode dissociar, também, o respeito aos direitos humanos do Estado de Direito democrático e do Desenvolvimento.

Claro que a conquista deste patamar dos Direitos Humanos, a um tempo teórico, a um tempo político e a um tempo jurídico, não se deu sem outros avanços na Teoria do Estado e do próprio trânsito de um liberalismo de princípios, do começo da Era Moderna, para um “liberalismo social-democrático”, ao qual aderiram variados espectros ideológicos do Ocidente, ao longo do século XX. Na prática, foi o tema dos “direitos humanos” que provocou um deslocamento da velha direita para à esquerda, enquanto a esquerda “enragé”, do começo do século, se deslocava para o centro. E, exatamente por isto, as diferenças ideológicas, tão acentuadas foram como que se diluindo com o tempo, vindo, lamentavelmente, a abrir espaço para o ressurgimento do fascismo.. Exagero ou não, a defesa dos direitos humanos opera como um fator de correção aos excessos do radicalismo nas pugnas políticas contemporâneas. Importante passo para a compreensão do deslocamento da ênfase do Pacto Fundamental da Sociedade do Estado para o Indivíduo e da importância do individualismo como categoria fundamental dos “direitos humanos” foi a contribuição de Norberto Bobbio, em seu clássico “ A Era dos Direitos”, de 1992. Ele demonstra como o Estado Moderno, ao contrário da era de T.Hobbes, autor do LeviAtã no século XVII, sobrevive graças ao que chama “revolução coperniquiana” que fez com que , mais do que “deveres” frente ao Estado, os indivíduos detenham “direitos”. “A concepção individualista custou a abrir caminho, já que foi geralmente considerada fomentadora de desunião, de discórdia, de ruptura da ordem constituída. Em Hobbes, surpreende o contraste entre o ponto de partida individualista e a persistente figuração do Estado como um corpo ampliado, um “homem artificial”, no qual o soberano é a alma, os magistrados são as articulações, as penas e os prêmios são os nervos, etc. A concepção orgânica é tão persistente que, ainda nas vésperas da Revolução Francesa, que proclama os direitos do indivíduo diante do Estado, Edmundo Burke escreve: ‘ Os indivíduos passam como sombras, mas o Estado é fixo e estável’. Estado e sociedade, enfim, doravante, deverão empenhar-se na reorganização de seus sistemas político, econômico e cultural , com vistas ao fortalecimento do processo de legitimação, de um crescimento cada vez mais eqüitativo e uma autonomia cada vez mais tolerante, fundada na educação para o decidir , fazer, conviver e ser.

As repercussões de atitudes de respeito ao outro ocorrem nos campos político, social, cultural e econômico. É interessante observar que o prólogo da Declaração Universal dos Diretos Humanos articula a imperiosa necessidade de livrar o ser humano do medo, ou da opressão, e da miséria. Ou seja, quando se fala em pleno respeito aos direitos de cada um e de todo ser humano, eliminar o medo é crucial para garantir que não se pratica a violência como forma de defesa contra alguém que se teme, porque nem se sabe quem é. O sentido de educar para a tolerância/respeito e de praticá-los está também aí: conhecer o outro, todos os outros, que vivem de forma distinta daquela que conhecemos. Apenas o conhecimento pode levar à superação do medo que gera preconceito e discriminação.

Este novo “Sistema de Segurança Humana”, em escala mundial, é a consequência natural da democracia como valor universal, fundado ontologicamente na liberdade. É verdade que o século XX foi palco de algumas ilusões totalitárias como o fascismo , o socialismo-real(stalinismo) e alguns regimes fundamentalistas islâmicos. É verdade, também, que entramos no século XXI sob a ameaça de poderosos instrumentos de controle da opinião pública que acabam respaldando o retorno à cena política de fantasmas da exceção. A América Latina foi, também, palco de sangrentas ditaduras militares nas décadas de 60 e 70. Lamentavelmente, o autoritarismo ainda é uma tentação que se converte, não raro, em realidade, às vezes duradoura, sempre à espreita. Mas, irremediavelmente, transitória. .Daí porque Hayeck , liberal insuspeito, assinalar : “Ao governo que pode ser desconstituído, chamo democracia”

Claro que a bandeira dos Direitos Humanos não é uma panacéia para todos os males do século atual.. Ressalte-se que a questão dos direitos humanos está associada aos próprios requisitos do desenvolvimento sustentável, este conceito abrangente que hoje, consagrada pela Eco-92, no Rio de Janeiro, procura um novo caminho para a humanidade sobre três requisitos: 1 – Eficiência econômica; 2 – Equidade; 3 – Reciclagem dos recursos naturais A eficiência só será alcançada através do uso de tecnologias propiciadas pela ciência e tecnologia; a renovação dos recursos naturais só será possível através de uma nova consciência sobre o reaproveitamento de tudo o que é usado no processo industrial; e a equidade, através da capacidade redistributiva do desenvolvimento assegurar uma sociedade mais justa. E nessa equidade reside a garantia de que os direitos humanos serão respeitados em todo seu espectro de indivisibilidade , indissolubilidade e abrangência dos seus elementos civis, políticos e sócio-econômicos constitutivos. O conceito de sustentabilidade é, pois, precisamente , o elo que faltava à cadeia conceitual da articulação indissolúvel entre direitos civis, políticos e sociais. Hoje, em Madri reúne-se nova Conferência Internacional sobre clima que reavaliará as metas do Acordo de Paris há alguns anos. Dela está fora os Estados Unidos e teme-se que fracassemos nos esforços de impedir a emissão de gases estufa que poderão desencadear a escalada da elevação da temperatura média do planeta. Aí, ninguém escapará. E os esforços na defesa dos Direitos Humanos terão sido em vão.

 


O dia que fiquei invisível 

Paulo Timm - Publicado A FOLHA, Torres RS, 21 dez 2019

Síntese de um depoimento arrasador de Silvia Castillejos, publicado em EL DIA, México, 2002. Importante reflexão nestes dias de Natal e que remetem à advertência do grande escritor W.Faulkner, em 10 de dezembro de1950, quando falou, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura: -“Eu me recuso a aceitar o fim do homem”. Eu acrescentaria: - Nem o fim, nem sua invisibilidade - seja por idade, condição social ou cor da pele - que não é, senão, o prenúncio do fim pela substituição dos valores pelos algoritmos.

“.Não sei que dia é hoje. Nesta casa não há calendários e, na minha memória, as datas estão todas emaranhadas. (...) . Todas as casas antigas foram desaparecendo. E eu, eu também fui me apagando, sem que ninguém se desse conta.

Primeiro me trocaram de quarto (...). Depois me passaram para outro menor ainda, acompanhada de uma das minhas bisnetas. Agora ocupo o quartinho das bugigangas, que fica no quintal. (...)

Faz muito tempo que eu tinha intenção de escrever, mas passei semanas procurando uma caneta e, quando encontrava, eu mesma voltava a esquecer onde a tinha posto. Na minha idade as coisas se perdem facilmente: claro que é uma doença delas, das coisas, porque eu tenho certeza de que as tenho; são elas que sempre desaparecem.

Numa outra tarde, notei que a minha voz também tinha desaparecido. Quando eu falo com os meus netos ou com os meus filhos, eles não me respondem. Todos conversam sem me olhar, como se eu não estivesse com eles, escutando atenta o que eles dizem. Às vezes tento participar da conversa, certa de que vou dizer algo em que nenhum deles tinha pensado, e de que os meus conselhos vão ser bem úteis para eles. Mas eles não me ouvem, não me olham, não me respondem. Então, cheia de tristeza, eu me retiro para o meu quarto (.... )Outro dia, eu disse a eles que, quando morresse, aí sim todos iam sentir a minha falta. O neto menor respondeu: “Ah, mas a senhora ainda está viva, vovó?”. Eles acharam tanta graça que não paravam de rir (...).

Quando meu genro ficou doente, achei que era uma oportunidade para ser útil a ele. Levei um chá especial que eu mesma preparei. Coloquei-o na mesinha e me sentei para esperar que ele o tomasse, mas ele continuou vendo televisão e nenhum movimento me indicou que ele tinha sequer notado a minha presença. O chá foi esfriando (...) e, junto com ele, o meu coração.

Numa sexta-feira, as crianças se alvoroçaram e vieram me dizer que no dia seguinte íamos todos passar um dia no campo. Fiquei muito contente! Fazia tanto tempo que eu não saía, menos ainda para passear!

No sábado, fui a primeira a me levantar. Quis arrumar as minhas coisas com calma. Nós, velhos, demoramos muito para fazer qualquer coisa; então eu me adiantei para não atrasá-los. Eles entravam e saíam da casa correndo e levavam bolsas e brinquedos para o carro. Eu já estava pronta e, muito alegre, fiquei na sala esperando.

Quando arrancaram e o carro desapareceu, numa nuvem de barulho, eu entendi que não tinha sido convidada. (...)

Vivo com a minha família e fico mais velha a cada dia, mas, coisa curiosa, não faço mais aniversário. Ninguém se lembra. Todos estão ocupados. Eu os entendo. Eles sim fazem coisas importantes. Eles riem, gritam, sonham, choram, se abraçam, se beijam. Eu nem sei mais como é o gosto de um beijo. Antes, os pequeninos me davam beijinhos e era um gosto enorme tê-los nos braços, como se fossem meus! Eu sentia a ternura da sua pele e a doçura da sua respiração bem perto de mim! A vida nova me invadia como um alento e até me dava vontade de cantar cantigas de berço que eu nem imaginava que ainda me lembrasse.

Mas, um dia, a minha neta Margarita, que acabava de ter seu bebê, disse que não era bom que os velhos beijassem os bebês por motivos de saúde. Eu não me aproximei mais, para não lhes passar algo ruim com as minhas imprudências. Tenho muito medo de contagiá-los!

Eu dou a todos eles a minha bênção e o meu perdão, porque, afinal, que culpa eles têm, coitados, de eu ter ficado invisível? (...)”


MARCAS DO NOSSO TEMPO

 

https://veja.abril.com.br/politica/glossario-de-bolsonares-para-entender-o-novo-governo/

 

Na década de 1980 um livro fez muito sucesso nos Estados Unidos, vindo a liderar as vendas por dois anos seguidos e publicado em outros 57 países: “Megatendências”. Em seguida, o autor, John Naisbit, publicou sequências deste volume com “Megatendências 2000”, “Megatendências na Asia” e “Paradoxo Global”, todas com grande repercussão. Hoje, visto em retrospectiva, vemos que Naisbit era uma espécie de profeta. Viu tudo. Ou quase tudo o que viria a ocorrer. Sua fórmula, entretanto, nada tinha de mística. Ele próprio costumava dizer que bastava ver o que já estava acontecendo.
Naisbit, além das previsões, gostava, também, de chamar a atenção para palavras, expressões e objetos em curso, em cada período de tempo, mostrando, numa espécie de mostra etnográfica, o mapa de usos e costumes reinante. Costumava, inclusive, com sua esposa, fazer uma espécie de exposição deste mapa ao final de cada ano. Aí me ocorreu alinhar, neste final de 2019, alguns nomes, temas e conceitos que se incorporaram ao nosso cotidiano aqui no Brasil. Não se trata, claro, de fazer uma enciclopédia deste cotidiano, mas de registrar, alguns tópicos à posteridade, sobretudo no campo político. Ei-los:
Pós verdade – Uma era em que a opinião ou versão de cada um, mesmo tratando-se do Presidente da República, se sobrepôe aos fatos e até mesmo consolidadas teses científicas.
Terraplanistas – Seita de pessoas convictas de que a Terra é plana e não esférica.
Excludente de ilicitude – Medida proposta pelo Presidente Bolsonaro com o objetivo de excluir agentes da Segurança Pública de qualquer ação judicial em decorrência de seus excessos, mesmo em caso de óbitos.
Crédito de Carbono – Instituto criado no âmbito das Conferências Internacionais sobre o Clima, decorrentes da ECO-92, que consagrou o conceito de desenvolvimento sustentável, que permite à empresas e países que cumprirem a contento suas metas de redução de emissão de gás carbônico, negociarem seus saldos.
Greta Thunburg – jovem adolescente sueca que se notabilizou na defesa do Meio Ambiente no Mundo e que adotou o apelido “Pirralha”, com o qual o Presidente Bolsonaro a caracterizou.
Olavistas – Membros do Governo Bolsonaro que se proclamam leais seguidores dos ensinamentos do Sr. Olavo de Carvalho, um intelectual brasileiro auto-didata, ultra conservador, residente
Bolsonarês – Estilo de linguagem própria do Presidente Bolsonaro e outros membros do alto escalão da República e objeto de publicação como Glossário na Revista Veja - https://veja.abril.com.br/politica/glossario-de-bolsonares-para-entender-o-novo-governo/, a saber:
“Marxismo cultural - A influência que ativistas políticos e teóricos de esquerda exercem em diversas áreas da produção cultural, como música, teatro, cinema, mídia e a própria educação, a fim de disseminar conceitos políticos comunistas e socialistas. Para o presidente, representa o enfraquecimento de valores morais nacionais e a promoção da ideologia de gênero.
Doutrinação - Na lógica bolsonarista, é a imposição, por parte de professores, de valores morais e políticos vinculados à esquerda aos estudantes.
Viés ideológico - Além de um mecanismo de “doutrinação”, é a opção de abordagem de qualquer questão a partir apenas da ótica de esquerda.
Escola Sem Partido - É um movimento e um projeto de lei homônimos que pretendem coibir a discussão de questões morais, políticas e sexuais em sala de aula, como forma de evitar a suposta doutrinação dos estudantes por professores. Em discursos, a expressão também é utilizada para definir de forma genérica o sistema educacional onde não estejam presentes, em especial, as ideias políticas de esquerda e a ideologia de gênero.
Ideologia de gênero - Apelido dado à teoria que estabelece sexo biológico e gênero como sendo coisas independentes, permitindo que um indivíduo biologicamente homem possa ter uma expressão de gênero feminina, se identificando socialmente como mulher, por exemplo. Também está relacionada ao papel social de homens e mulheres e contra a discussão em sala de aula sobre a desigualdade de oportunidades entre gêneros na sociedade.

Humanos direitos - variante do “cidadão de bem”, define para quem devem ser garantidos os direitos humanos básicos.
Terrorismo - Além dos significados comuns, essa expressão também é usada para definir as invasões a propriedades privadas organizadas por movimentos sociais, que, acredita o governo, devem ser tipificadas desta forma.
Talkei - Para o fim de todos os assuntos, o presidente eleito complementa as ideias com “talkei”. É uma expressão para certificar que a pessoa com quem ele fala está entendendo e, também, para ele conseguir completar a linha de raciocínio sem conseguir se perder, talkei?

Fake News - Termo em inglês que significa “notícias falsas”. Na retórica do presidente, foi expandido para reportagens com as quais ele discorda, independentemente da sua veracidade.

Politicamente correto - É a defesa, criticada pelo presidente, de que expressões, brincadeiras e outras manifestações jocosas dirigidas a setores vulneráveis da sociedade e minorias devem ser coibidas. Para o presidente, trata-se de vitimismo e de restrição à liberdade de expressão.

Vitimismo e mimimi - A crença de que militantes de grupos minoritários buscam publicizar qualquer manifestação contrária aos seus interesses como forma de pressionar a classe política e a sociedade civil a aprovarem projetos de lei que lhes garantam o que considera privilégios.”
Como diria Machado de Assis: “ Vá o feito!” Vai-se o ano.

 


 

TRABALHADORES COM GANHOS ATÉ UM SALÁRIO MÍNIMO

Paulo Timm – 75 anos, aposentado, Economista

Acabo de ver e ouvir na GLOBONEWS – 22 DEZEMBRO 14.45h – notícia atribuída ao IBGE, como resultado da última PNAD, que 30% dos trabalhadores brasileiros ganham até um salário mínimo.

A notícia está mal editada. Talvez se refira a trabalhadores com Carteira assinada.  Basta verificar outros posts ao longo dos últimos anos do próprio IBGE, nos quais baseio-me sempre, para afirmar que 100 milhões de brasileiros, em torno de 50% de um total de 210 milhões, sendo 100 milhões ativos,  ganham até 1 Salário Mínimo, a saber:

50 milhões com ganho de 1 S.M. , sendo metade em Carteira o e metade como aposentados e  pensionistas

40 milhões ganham metade do Salário Mínimo, com trabalhos eventuais

10 milhões ganham em torno de zero, ou menos do que R$100 reais mês, constituindo-se no segmento da pobreza absoluta do país

Nos cinco últimos anos, com a recessão e forte desemprego verificou-se uma variação neste último segmento, da miséria, tendo subido de 8 milhões para 13 milhões, em detrimento do segundo segmento, que teria diminuído proporcionalmente. Mas fica o registro estrutural dos que menos ganham neste país e cuja massa salarial gira em torno de R$ 600 bilhões. E eles gastam tudo o que ganham, alimentando com impostos sobre o consumo os cofres dos Governos Federal e Estaduais.  Metade do que ganham com juros os cerca de 200 mil rentistas que aplicam seu vultoso  “capital” , na ordem de R$ 10 trilhões, metade aplicado em Títulos do Governo e a outra no crédito ao setor privado – empresas e famílias. Estes, ao contrário dos trabalhadores de menor nível de renda, ganham o que gastam, ou seja, nos “investimentos”, sobretudo financeiros, que fazem, muitos dos quais isentos de impostos.  Neste cômputo não está o dinheiro aplicado na Bolsa de Valores.

E não adianta estudar e fazer Faculdade, pois só 11%  destes 100 milhões de trabalhadores conseguem ganhar mais depois de concluir o curso.

Como resultado da persistência na pobreza, morando em subúrbios distantes de seus locais de trabalho, sem condições de saneamento, lazer a acesso à cultura, sujeitos à violência de todo o tipo, nas malhas do narco-tráfico e das milícias, vivendo em média 20 anos menos que os segmentos sociais de mais alta renda e o pior:os filhos destes trabalhadores pagam o preço maior: 43% delas, vive na pobreza.

Como não indignar-se?

Fica o registro das publicações recentes.

Em tempo: A Terra é redonda...O mundo gira, os dias se sucedem, e todos nós rodamos...

Salário Mínimo

É direito de todo trabalhador urbano ou rural o salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim. A contraprestação mínima devida e paga diretamente pelo empregador a todo trabalhador é o salário mínimo, sem distinção de sexo, por dia normal de serviço, e capaz de satisfazer, em determinada época, as suas necessidades normais de alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte.

Clique para abrir artigos sobre S.M.:

https://www.jusbrasil.com.br/topicos/297548/salario-minimo

 

O Cenário da Infância e Adolescência no Brasil 2019, estudo da Fundação Abrinq, revelou que 47,8% das crianças de 0 a 14 anos vivem em situação de pobreza. ... Dessas 26,8 milhões de pessoas, 9,4 milhões são crianças e adolescentes em situação de extrema pobreza e 10,6 milhões em situação de pobreza.23 de mai. de 2019

https://emais.estadao.com.br/blogs/bruna-ribeiro/478-de-criancas-de-0-a-14-anos-vivem-em-situacao-de-pobreza-no-brasil-aponta-estudo/

 

Metade dos trabalhadores brasileiros tem renda menor que o salário mínimo, aponta IBGE - 30.XI-2017

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/574194-metade-dos-trabalhadores-brasileiros-tem-renda-menor-que-o-salario-minimo-aponta-ibge

Mais da metade dos trabalhadores brasileiros têm renda menor que um salário mínimo - 16/10/2019 - 

https://oglobo.globo.com/economia/mais-da-metade-dos-trabalhadores-brasileiros-tem-renda-menor-que-um-salario-minimo-24020453

 

Metade dos brasileiros vive com apenas R$ 413 por mês, mostra IBGE

https://noticias.r7.com/economia/metade-dos-brasileiros-vive-com-apenas-r-413-por-mes-mostra-ibge-16102019

 

 

"42% dos autônomos ganham menos de um salário mínimo por mês"

https://www.gazetadopovo.com.br/economia/breves/42-dos-autonomos-ganham-menos-de-um-salario-minimo-por-mes/

 

 

Viver com 413 reais ao mês, a realidade de metade do Brasil

Desemprego alto e aumento da informalidade faz com que 104 milhões de brasileiros tenham de viver com o equivalente a meio salário mínimo. Número de ambulantes na rua saltou mais de 500% entre 2015 e 2018

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/30/economia/1572454880_959970.html


Dos trabalhadores que cursaram faculdade, 11% ganham até um salário-mínimo

https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/economia/2019/10/707303-dos-trabalhadores-que-cursaram-faculdade-11-ganham-ate-um-salario-minimo.html

                                                          

47,8% de crianças de 0 a 14 anos vivem em situação de pobreza no Brasil, aponta estudo

https://emais.estadao.com.br/blogs/bruna-ribeiro/478-de-criancas-de-0-a-14-anos-vivem-em-situacao-de-pobreza-no-brasil-aponta-estudo/

Brasil tem 5,2 milhões de crianças na extrema pobreza e 18,2 milhões na pobreza

https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/12/09/brasil-tem-52-milhoes-de-criancas-na-extrema-pobreza-e-182-milhoes-na-pobreza.ghtml

 

No Brasil, a cada três crianças, uma vive em extrema pobreza

 03/10/2019

https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2019/10/no-brasil-a-cada-tres-criancas-uma-vive-em-extrema-pobreza.html

 

Brasil alcança recorde de 13,5 milhões de miseráveis, aponta IBGE

https://veja.abril.com.br/economia/brasil-alcanca-recorde-de-135-milhoes-de-miseraveis-aponta-ibge/

 

Crise jogou 9 milhões na pobreza. Só um milhão já saiu

https://dcomercio.com.br/categoria/brasil/crise-jogou-9-milhoes-na-pobreza-so-um-milhao-ja-saiu

                                                                xxx

Redução da Pobreza e Mercado de Trabalho

                          Histórico do salário mínimo no Brasil:

                                           https://www.portalbrasil.net/salariominimo.htm

            O salário mínimo surgiu no Brasil em meados da década de 30. A Lei nº 185 de janeiro de 1936 e o Decreto-Lei nº 399 de abril de 1938 regulamentaram a instituição do salário mínimo, e o Decreto-Lei nº 2162 de 1º de maio de 1940 fixou os valores do salário mínimo, que passaram a vigorar a partir do mesmo ano. O país foi dividido em 22 regiões (os 20 estados existente na época, mais o território do Acre e o Distrito Federal) e todas as regiões que correspondiam a estados foram divididas ainda em sub-região, num total de 50 sub-regiões. Para cada sub-região fixou-se um valor para o salário mínimo, num total de 14 valores distintos para todo o Brasil. A relação entre o maior e o menor valor em 1940 era de 2,67.

            Esta primeira tabela do salário mínimo tinha um prazo de vigência de três anos, e em julho de 1943 foi dado um primeiro reajuste seguido de um outro em dezembro do mesmo ano. Estes aumentos, além de recompor o poder de compra do salário mínimo, reduziram a razão entre o maior e o menor valor para 2,24, já que foram diferenciados, com maiores índices para os menores valores. Após esses aumentos, o salário mínimo passou mais de oito anos sem ser reajustado, sofrendo uma queda real da ordem de 65%, considerando-se a inflação medida pelo IPC da FIPE.

            Em dezembro de 1951, o Presidente Getúlio Vargas assinou um Decreto-Lei reajustando os valores do salário mínimo, dando início a um período em que reajustes mais freqüentes garantiram a manutenção, e até alguma elevação, do poder de compra do salário mínimo. Da data deste reajuste até outubro de 1961, quando ocorreu o primeiro reajuste do Governo de João Goulart, houve um total de seis reajustes. Neste período, além de os reajustes terem ocorrido em intervalos cada vez menores (o último, de apenas 12 meses), ampliou-se bastante o número de valores distintos para o salário mínimo entre as diversas regiões. Deve-se ressaltar que nos dois primeiros reajustes deste período o aumento do maior salário mínimo foi muito superior ao do menor, com a razão entre eles atingindo 4,33 em julho de 1954, seu maior valor histórico.

 

S A L Á R I O      M Í N I M O

"A instituição de pisos salariais pelos Estados está assegurada pela 
lei complementar nº 103/00. Assim, os estados têm legitimidade para legislar dentro de seus limites geográficos e a população residente tem que obedecer ao piso regional (exceção feita aos aposentados e pensionistas do INSS que seguem legislação federal)." Abaixo seguem os pisos salariais estaduais e as respectivas legislações, por ano de vigência.

Estado do Paraná: 2007 - 2008 - 2009 - 2010 - 2011 2012 2013 2014 2015 -

 2016 2017 - 2018 - 2019


Estado do Rio de Janeiro: 
2002/2006 - 2007 - 2008 2009 - 2010 - 2011 - 2012 2013 -

 2014 2015 - 2016 2017 - 2018 - 2019


Estado do Rio Grande do Sul: 2006 2007 - 2008 - 2009 - 2010 - 2011 2012 2013 2014 2015 - 

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Estado de São Paulo: 2007 - 2008 - 2009 - 2010 - 2011 2012 2013 2014 2015 -

 2016 

2017 2018 2019
Estado de Santa Catarina ==> 2015 - 2016 - 2017 2018 2019

Salário mínimo Brasileiro (Legislação, datas e valores) => CLIQUE AQUI
Empregados domésticos (cálculo da contribuição previdenciária) ==> 
CLIQUE AQUI
Lei complementar nº 103/2000 (texto e considerações fundamentais) ==> CLIQUE AQUI

 

 

Salário Mínimo Brasileiro:
 

VIGÊNCIA

FUNDAMENTO LEGAL

VALOR

04/07/40

DL 2.162/40

240 mil réis

01/01/43

DL 5.670/43

Cr$300,00

01/12/43

DL 5.977/43

Cr$380,00

01/01/52

D 30.342/51

Cr$1.200,00

04/07/54

D 35.450/54

Cr$2.400,00

01/08/56

D 39.604/56

Cr$3.800,00

01/01/59

D 45.106-A/58

Cr$6.000,00

18/10/60

D 49.119-A/60

Cr$9.600,00

16/10/61

D 51.336/61

Cr$13.440,00

01/01/63

D 51.631/62

Cr$21.000,00

24/02/64

D 53.578/64

Cr$42.000,00

01/02/65

D 55.803/65

CR$66.000,00

01/03/66

D 57.900/66

Cr$84.000,00

01/03/67

D 60.231/67

NCr$105,00

26/03/68

D 62.461/68

NCr$129,60

01/05/69

D 64.442/69

NCr$156,00

01/05/70

D 66.523/70

NCr$187.20

01/05/71

D 68.576/71

Cr$225,60

01/05/72

D 70.465/72

Cr$268,80

01/05/73

D 72.148/73

Cr$312,00

01/05/74

D 73.995/74

Cr$376,80

01/12/74

Lei 6.147/74

Cr$415,20

01/05/75

D 75.679/75

Cr$532,80

01/05/76

D 77.510/76

Cr$768,00

01/05/77

D 79.610/77

Cr$1.106,40

01/05/78

D 81.615/78

Cr$1.560,00

01/05/79

D 84.135/79

Cr$2.268,00

01/11/79

D 84.135/79

Cr$2.932,80

01/05/80

D 84.674/80

Cr$4.149,60

01/11/80

D 85.310/80

Cr$5.788,80

01/05/81

D 85.950/81

Cr$8.464,80

01/11/81

D 86.514/81

Cr$11.928,00

01/05/82

D 87.139/82

Cr$16.608,00

01/11/82

D 87.743/82

Cr$23.568,00

01/05/83

D 88.267/83

Cr$34.776,00

01/11/83

D 88.930/83

Cr$57.120,00

01/05/84

D 89.589/84

Cr$97.176,00

01/11/84

D 90.301/84

Cr$166.560,00

01/05/85

D 91.213/85

Cr$333.120,00

01/11/85

D 91.861/85

Cr$600.000,00

01/03/86

DL 2.284/86

Cz$804,00

01/01/87

Portaria 3.019/87 

Cz$964,80

01/03/87

D 94.062/87

Czr1.368,00

01/05/87

Portaria 3.149/87

Cz$1.641,60

01/06/87

Portaria 3.175/87

Cz$1.969,92

10/08/87

DL 2.351/87

Cz$1.970,00

01/09/87

D 94.815/87

Cz$2.400,00

01/10/87

D 94.989/87

Cz$2.640,00

01/11/87

D 95.092/87

Cz$3.000,00

01/12/87

D 95.307/87

Cz$3.600,00

01/01/88

D 95.479/87

Cz$4.500,00

01/02/88

D 95.686/88

Cz$5.280,00

01/03/88

D 95.758/88

Cz$6.240,00

01/04/88

D 95.884/88

Cz$7.260,00

01/05/88

D 95.987/88

Cz$8.712,00

01/06/88

D 96.107/88

Cz$10.368,00

01/07/88

D 96.235/88

Cz$12.444,00

01/08/88

D 96.442/88

Cz$15.552,00

01/09/88

D 96.625/88

Cz$18.960,00

01/10/88

D 96.857/88

Cz$23.700,00

01/11/88

D 97.024/88

Cz$30.800,00

01/12/88

D 97.151/88

Cz$40.425,00

01/01/89

D 97.385/88

NCz$63,90

01/05/89

D 97.696/89

NCz$81,40

01/06/89

Lei 7.789/89

NCz$120,00

03/07/89

D 97.915/89

NCz$149,80

01/08/89

D 98.003/89

NCz$192,88

01/09/89

D 98.108/89

NCz$249,48

01/10/89

D 98.211/89

NCz$381,73

01/11/89

D 98.346/89

NCz$557,31

01/12/89

D 98.456/89

NCz$788,12

01/01/90

D 98.783/89

NCz$1.283,95

01/02/90

D 98.900/90

NCz$2.004,37

01/03/90

D 98.985/90

NCz$3.674,06

01/04/90

Portaria 191-A/90

Cr$3.674,06

01/05/90

Portaria 289/90

Cr$3.674,06

01/06/90

Portaria 308/90

Cr$3.857,66

01/07/90

Portaria 415/90

Cr$4.904,76

01/08/90

Portaria 429/90 e 3.557/90

Cr$5.203,46

01/09/90

Portaria 512/90

Cr$6.056,31

01/10/90

Portaria 561/90

Cr$6.425,14

01/11/90

Portaria 631/90

Cr$8.329,55

01/12/90

Portaria 729/90

Cr$8.836,82

01/01/91

Portaria 854/90

Cr$12.325,60

01/02/91

MP 295/91 (Lei 8.178/91)

Cr$15.895,46

01/03/91

Lei 8.178/91

Cr$17.000,00

01/09/91

Lei 8.222/91

Cr$42.000,00

01/01/92

Lei 8.222/91 e Port. 42/92 - MEFP

Cr$96.037,33

01/05/92

Lei 8.419/92

Cr$230.000,00

01/09/92

Lei 8.419/92 e Port. 601/92 - MEFP

Cr$522.186,94

01/01/93

Lei 8.542/92

Cr$1.250.700,00

01/03/93

Port. Interministerial 04/93

Cr$1.709.400,00

01/05/93

Port. Interministerial 07/93

Cr$3.303.300,00

01/07/93

Port. Interministerial 11/93

Cr$4.639.800,00

01/08/93

Port. Interministerial 12/93

CR$5.534,00

01/09/93

Port. Interministerial 14/94

CR$9.606,00

01/10/93

Port. Interministerial 15/93

CR$12.024,00

01/11/93

Port. Interministerial 17/93

CR$15.021,00

01/12/93

Port. Interministerial 19/93

CR$18.760,00

01/01/94

Port. Interministerial 20/93

CR$32.882,00

01/02/94

Port. Interministerial 02/94

CR$42.829,00

01/03/94

Port. Interministerial 04/94

URV 64,79 = R$64,79

01/07/94

MP 566/94

R$64,79

01/09/94

MP 637/94

R$70,00

01/05/95

Lei 9.032/95

R$100,00

01/05/96

 

R$112,00

01/05/97

                

R$120,00

01/05/98

                

R$130,00

01/05/99

                

R$136,00

03/04/00

MP 2019 de 23/03/00 e 2019-1 de 20/04/00 Convertidas na Lei nº 9971, de 18/05/2000.

R$151,00

01/04/01

                    

R$180,00

01/04/02

Medida Provisória n° 35
publicada no D.O.U. em 28.03.2002

R$ 200,00

01/04/03

Lei n° 10.699,
de 09.07.2003
Clique aqui

R$ 240,00

01/05/04

Lei n° 10.888, 
de 24.06.2004
Clique aqui

R$ 260,00

01/05/05

Lei nº 11.164,
de 18.08.2005
Clique aqui

R$ 300,00

01/04/2006

Lei nº 11.321,
de 07.07.2006
Clique aqui

Leia matéria aqui

R$ 350,00

01/04/2007

Lei nº 11.498,
de 28.06.2007
Clique aqui

R$ 380,00

01/03/2008

Lei nº 11.709,
de 19.06.2008
Clique aqui

R$ 415,00

01/02/2009

Lei nº 11.944,
de 28.05.2009
Clique aqui

R$ 465,00

01/01/2010

Lei nº 12.255,
de 15.06.2010
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R$ 510,00

01/01/2011

Medida Provisória nº 516,
de 30.12.2010

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R$ 540,00

01/03/2011

Lei nº 12.382,
de 25.02.2011
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"Leia texto acima desta Tabela"

R$ 545,00

01/01/2012

Decreto nº 7.655,
de 23.12.2011
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R$ 622,00


01/01/2013
 

Decreto nº 7.872,
de 26.12.2012
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R$ 678,00

01/01/2014

Decreto nº 8.166,
de 23.12.2013
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R$ 724,00

01/01/2015

Decreto nº 8.381,
de 29.12.2014
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R$ 788,00

01/01/2016

Decreto nº 8.618,
de 29.12.2015
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R$ 880,00


01/01/2017

 

Decreto nº 8.948,
de 29.12.2016
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R$ 937,00

01/01/2018

Decreto nº 9.255,
de 29.12.2017
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R$ 954,00

01/01/2019

Decreto nº 9.661
de 01.01.2019
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R$ 998,00

 

 

 

 


 A POESIA COMO PEDRA DE TOQUE DO TURISMO

Paulo Timm – Publicado em A FOLHA, Torres 15 novembro 2019. 

 

Neste feriadão, começando no dia 15, com direito a um Sarau lítero-musical no Quintal da Dindinha, no Passo, neste mesmo dia, realiza-se o III FAROL LITERÁRIO DE TORRES. A iniciativa dos poetas Joaquim Moncks e Eduardo Jaques, há três anos, com o apoio da Academia de Letras de Cruz Altas – ALPAS 21, vai ganhando corpo e deverá receber, neste ano, escritores de várias partes do Brasil. Já produziu como resultado o Movimento Torres Além Veraneio, que hoje organiza o evento, sob a coordenação de Débora Fernandes - e que nos brindará com um revival de crônicas clássicas sobre Torres - e duas Casas do Poeta, a de Torres, sob a Presidência do Niltinho e a do Vale do Mampituba, que também já tem sua sede no Passo. O sonho é reeditar no sul algo parecido ao que fez Parati, uma histórica praia do Rio de Janeiro, que transformou uma Feira do Livro provinciana num evento literário de repercussões internacionais. Não custa sonhar. E quando muitos sonham o mesmo sonho as nuvens começam a chover..Vai daí a pergunta: Por que “literatura” numa cidade predestinada ao “veraneio” ? Vamos lá: A literatura não é apenas uma arte ou forma de comunicação. É um elo que interliga vários momentos civilizatórios: Cosmologia, Tecnologia, Economia e Sociedade. O homem falou, depois escreveu, depois imprimiu, depois, hoje, conectou-se on line. Da horda primitiva à aldeia global, marcada pela inteligência, cada vez mais artificial em sociedades do conhecimento: “Homo Deus”,. A cada passo, cada vez mais estreitos no tempo, gigantescos saltos no espaço. Tocando as estrelas das quais somos feitos. Quantos milênios entre a fala e a escrita, entre o fogo e a tecla mágica? Quantos séculos entre as tábuas cuneiformes dos mesopotâmios e a imprensa de Guetmberg? Quanto tempo entre estes e os meios de comunicação de massa do rádio e da TV? Quantas décadas entre esta era e a INTERNET? Quantos anos entre esta e as Redes Sociais? O tempo não para, mas encurta...Em toda esta longa trajetória, sempre o registro. Em prosa, oral e escrita, e em “poiesis”, onde esta apontava não só para o jogo de palavras, mas para o jogo da vida, no sentido de fazer e transformar. O conhecimento, desde os clássicos, só se justificava quando destinado a um fim específico. A Poesia de Homero também. Ela era a Bíblia dos gregos, que apontava no exemplo dos “heróis” o caminho da virtude: “Proferir palavras e fazer obras”. E do heroísm os fundamentos da Ética como ramo da Filosofia e conduto da fraternidade universal Aqui estamos, nós, pois, Poetas, apontando caminhos para uma nova etapa do turismo em nossa região. Já não se trata de desfrutar as dádivas da natureza, nem de se indagar se o “veraneio vai ser bom ou ruim”, mas de construir novos destinos. Agora pela inteligência. O turismo, a grande indústria contemporânea se alimenta basicamente de cultura, não de praias ensolaradas, ainda que estas ainda cumpram importante papel. Paris, entretanto, não tem praias, mas, pela sua história e cultura é o maior polo turístico do mundo. São, agora, as Feiras (Geeks e de Produtos), os Parques Temáticos – como Disneylândia, ou Beto Carrero -, Congressos Profissionais, Encontros de Negócios, Espetáculos (Rockn in Rio, Festival de Cinema de Gramado) que enchem hotéis, bares e restaurantes, oferecendo oportunidades inusitadas de emprego e renda. Neste III Farol, por exemplo, estamos homenageando o grande historiador de Torres, Ruy R. Ruschel, para evidenciar que temos, sim, muita História, além dos veraneios, e destacando a importância de valorizarmos não só nossa cidade, mas toda a nossa região, de forma a capacitá-la melhor na captura, via Rota do Sol, do imenso fluxo turístico que hoje demanda Gramado. Conectando mais as cidades do Vale do Mampituba e do Geoparque, projetando seus patrimônios culturais, além dos físicos, interligando suas vidas, estaremos criando algo inédito e muito forte: um verdadeiro espírito regional nos ares deste grande Rio, que descendo a serra desemboca majestoso aqui em Torres e Passo de Torres. A Poesia, enfim, não só faz versos, cria versões e muda realidades.


BOLSONARO E GLOBO AUTO CONTENÇÃO COMO SINAL DE MATURIDADE

Paulo Timm – Pub. A FOLHA Torres RS -- Publicado01 novembro e revisado em 03 de novembro.

A flecha lançada, a pedra atirada e a palavra proferida não têm volta. Direção única... Se a flecha for envenada, a pedra for pontiaguda e a retórica, furiosa , muito pior. Alguém já disse, até, que há três coisas que falecem a melhor das razões: a falsa premissa, o excesso de argumentos e a falta de jeito, na qual se insere a ira, sempre carregada de impropérios ofensivos.

O assunto vem à baila à propósito da explosão pública do Presidente Bolsonaro, no ultimo dia 27, ao saber, alta madrugada, no Oriente Médio, que seu nome havia sido divulgado pela Rede Globo como implicado no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Um vazamento da investigação policial sobre o assunto, que deveria estar protegido por segredo de Justiça, dava conta que o Porteiro do Condomínio, onde reside o Presidente Bolsonaro, o indicara, por reconhecimento de sua voz, de ter autorizado um dos assassinos de Marielle e Anderson a entrar no referido Condomínio, de onde sairia minutos depois, acompanhado de outro comparsa – ambos já presos –, para cometer o bárbaro crime. A matéria da Globo indicava a contradição do depoimento do porteiro visto que, na data, o então deputado Bolsonaro se encontrava em Brasília. O Presidente ficou chocado e explodiu em impropérios contra a Rede Globo advertindo-a sobre os riscos de não renovar sua concessão em 2022. Um horror. Logo depois, a referida Rede emitia Nota de Esclarecimento lamentando não conseguir o Presidente entender o papel da emissora na divulgação de notícias precisas de interesse público. Um dia antes, aliás, a emissora condenara, repercutindo diversas críticas ao Presidente, inclusive do Ministro Celso de Mello, do STF, a publicação de um vídeo, de péssimo gosto, no qual um leão, denominado patriótico, era acossado por um bando de hienas famintas, todas identificadas com instituições respeitáveis do País, inclusive o próprio Supremo. Bolsonaro, ao perceber o grotesco do vídeo o retirou do ar, desculpando-se, apenas, com o Supremo. Mas ficaram os registros: do vídeo, das escusas do Presidente, do vazamento do depoimento do porteiro e, pior de todas, do surto presidencial, inenarrável.

Não vale entrar a fundo no mérito da questão, embora, com as informações posteriores fique evidente que, ou a Globo cometeu uma baita barrigada, que deve custar o emprego do responsável, ou a Direção sabia o que estava fazendo e tinha “outras intenções” ao divulgar a matéria. Barrigada, no jargão jornalística, é uma mancada: notícia divulgada sem a devida checagem e avaliação de conveniência. “Outras intenções” diz respeito à oportunidade de trazer à público uma notícia. Essa última questão foi muito bem tratada num clássico do bang-bang , “O homem que matou o facínora”, quando um jovem jornalista, depois de muitos anos descobre que um homem, cuja carreira na cidade o torna influente político depois de matar em duelo um famoso bandido, na verdade não o matara. Outro, escondido, o havia feito para poupá-lo. No fundo, sempre, uma história

de amor... Faceiro com a revelação, contada em “rápidas pinceladas”, o jornalista corre ao Editor, que a rejeita com a seguinte desculpa: -“No Velho Oeste, entre a verdade e a lenda, ficamos com a lenda”.

Jornais experientes, como o Jornal Nacional, da Rede Globo, sabem o que publicam, mas o tiro , desta vez, talvez saia pela culatra, como a facada durante as eleições. Bolsonaro prova que é “perseguido”, embora tudo ainda esteja muito nebuloso como se vê nesta matéria da UOL – https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/11/02/marielle-peritos-do-rj-apontam-falha-em-laudodo-mp-que-contrapos-porteiro.htm?fbclid=IwAR2QCabn_dTzQnENxIJ41PylYeXFS6bH-PCREHM4c-RydBqXUYsjTqMJ2TI .

Lamentavelmente, porém, nada o desculpa pela falta de civilidade com que reage às adversidades. Civilidade é o conjunto de formalidades, palavras e atos, não sujeitos à Lei , que os cidadãos adotam na sua convivência como animais sociais, tais como boas maneiras, cortesia, polidez e palavras limpas. Um Presidente da República ainda está sujeito às servidões do cargo público que ocupa, exigindo-lhe redobrada urbanidade. A isso tudo se dá o nome de auto-contenção, sinal de maturidade frente aos limites físicos, legais e convencionais da vida. Mas Bolsonaro é um homem de confronto, bruto, não gosta nem de boas maneiras, nem muito menos de perder. Estranha que tenha sido um bom esportista na juventude. Mas isso explica porque não foi longe na carreira militar. Militares são brutos em combate, não em casa. Meu velho pai, por exemplo, militar de carreira, jamais falou um palavrão junto à família e era, por todos, tido como um gentleman, o que, modestamente, tento copiar-lhe

 


A CONSTITUIÇÃO É A ALMA DO ESTADO REPUBLICANO

Paulo Timm – Publicado A FOLHA, Torres RS -08 nov 2019

Nos turbulentos dias que correm no Brasil , abundantes ou tópicas mudanças na Constituição contribuem para deixar o clima politico ainda mais tenso. Refiro-me, particularmente, aos três Projetos de Emenda à Constituição – PECs - de iniciativa do Poder Executo, com as digitais do já denominado “PEC MAN”, Ministro Paulo Guedes, que reorganizam o Setor Público no país (à sua imagem) e à controvertida discussão no Supremo Tribunal Federal – STF -, que deverá decidir sobre em qual instância da Justiça se considerará alguém “culpado”. Esta última questão reveste-se de maior melindre porque poderá tirar da cadeia, onde cumpre sentença da Lavajato, homologada pelo Tribunal Federal da 4ª. Região, o ex-presidente Lula da Silva. Ambos os assuntos, altamente controvertidos, propostos nestas reavaliações da Constituição de 1988, tendem a ser mais tratados em função de preferências ideológicas do que pelos argumentos que os sustentam. Com efeito, são temas controvertidos. Devo dizer, sem rodeios, que também sou suspeito para apreciá-los, pois tenho posição de princípio de que Lula não deveria estar preso e de que mercados devam ser regulados pelo Estado. Não obstante, quero aqui advertir não para posições ideológicas, mas para conceitos.

Comecemos pelo mais fácil: O Supremo deveria entender que todo sentenciado pode ser considerado culpado e preso antes da apreciação em última instância, isto é, o Supremo? Apelo à Constituição que frisa, explicitamente, que só será considerado culpado quem tiver sentença transitada em julgado, cláusulas que se refletem na legislação infra-constitucional:

v Constituição - Artigo 5º - Inciso LIV:

- “Ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal.

v Constituição – Artigo 5º - Inciso LVII:

- Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.

v Código Penal – Artigo 283:

- Ninguém pode ser preso, exceto em flagrante ou se houver sentença condenatória transitada em julgado.

 

Para mim, ponto final. Acate-se a Constituição, ou, se não gostar desta dicção, encaminhe-se uma mudança em seu texto. Pode ser difícil, mas não

é impossível alterar a Carta Magna. Sei que há muitos argumentos que justificam uma condenação em segunda instância, alguns deles superficiais, como a que diz que só os ricos teriam meios para se defender em tribunais superiores. Extenso relatório da Defensoria Pública, que é a Justiça ao alcance dos mais pobres revela uma intensa atividade da mesma, com índices de sucesso maiores a dos advogados dos ricos, em suas demandas junto a tribunais superiores. Outro argumento afirma que cruéis assassinos seriam postos em liberdade com o entendimento constitucional ao pé da letra. Quem o afirma, porém, esquece de dizer que a Justiça teria, nestes casos, outros institutos legais para os manterem na prisão. Na verdade, a grande defesa da prisão em segunda instância tem mais a ver com uma questão circunstancial: a defesa da Lavajato como instrumento de purificação da Política Nacional (missão impossível) e, porque não dizer, do destino do Presidente Lula no curto prazo. É uma resposta à consigna do “Lula Livre”.

Quantos às três PECs de Paulo Guedes, ainda que desidratadas, deverão ser aprovadas, sem maiores debates com a Sociedade Civil, graças à ampla tendência liberal dos parlamentares no Congresso Nacional, grande parte dos quais, aliás, estigmatizados pela opinião pública. Contra o PEC MAN, , se colocarão, em bloco, os 150 deputados de Oposição na Câmara e alguns poucos senadores. Mas, também aqui, o julgamento do mérito estará substituído pelo da preferência ideológica. A esquerda até poderia apoiar um ou outro ponto, como a transferência dos R$ 400 bilhões em dez anos a Estados e Municípios à título de reforço do Pacto Federativo, mas dificilmente acalentará a “mão que afaga”, por temor ao escarro que lhe acompanha...

Isso tudo nos deveria remeter mais profundamente à discussão sobre o que é o Estado e o que representa uma Constituição. Mas a essas alturas da polarização isso soa à Cântico dos Cânticos. Vale registrar, entretanto, que o Estado não é um mecanismo, como o mercado. Além de suas razões técnicas, ele se reveste de uma transcendência, que outrora era encarnada pelos Príncipes. O grande teórico do Estrado Moderno, Tomaz Hobbes, deu-lhe, a propósito o nome bíblico de Leviatã , demandando-lhe uma função mais nobre do que a da mera razão estatal ou eficácia política. “Sua ambição é de outra ordem, é a que institui a eternidade no instante, a legitimidade na palavra, a força na justiça”, numa reedição que Santo Agostinha já pressentia lá no século IV DC. E se o Estado Republicano é o espírito de um corpo social, a Constituição é a sua alma. Se o Absolutismo se nutria da origem divina dos soberanos para justificar-se como elo de ligação entre o sagrado e o profano a República, hoje, colocou na Constituição o selo sagrado do novo Pacto pelo Estado de Direito Democrático . Não se mexe na

Constituição como quem troca de roupa de baixo. Exige maior circunspecção e respeito. Como diz Cesar Cantu:

“Ao longo dos tempo, a transgressão ao Estado de Direito tem sito a porta aberta para as grandes tragédias humanitárias (contemporâneas)”.

Devagar com o andor, quando o santo se faz em barro...

 


ECONOMIA NA ORDEM DO DIA

Paulo Timm – Publicado A FOLHA, Torres RS – 18 OCT Na vida temos muitas paixões e algumas razões Uma das minhas paixões foi a Política, como expressão do livre arbítrio coletivo, bem distante da politicagem do toma-lá-dá-cá. Se temos, cada um de nós, a capacidade, ainda que sob certas circunstâncias, de moldar nossas vidas, por que não teríamos a possibilidade de moldar também estas próprias circunstâncias através da Política? Sonho meu...Sonho meu!!! Mas dentre as razões da minha vida, a formação como Economista, deu-me o chão da minha existência. Foi através dela que cumpri minha vocação acadêmica e profissional. Curiosamente, a Política me tentava, enquanto a Economia me alimentava. E não por acaso. Ambas exigem uma grande dose de arte, mas enquanto a Política se espicha para o canto da sereia , a Economia se cinge ao Reino da Necessidade. É a própria definição de Economia que a situa como o estudo de recursos escassos para a satisfação de necessidades ilimitadas. E por falar nisso, o que dizem os economistas sobre o andamento do mundo? E o que dizem sobre os rumos da Economia no Brasil? A economia mundial, para os que se detêm a analisá-la, inspira cuidados. Houve tempo, entre o final da II Guerra – 1945- e final da década de 1970, que tudo ia muito bem: Altas taxas de crescimento, redistribuição dos aumentos de produtividade para os salários dos trabalhadores, reanimando as sociedades de produção e consumo de massas, baixa inflação e contas públicas relativamente sob controle. Foi a Era do Welfare State, sociedades de bem-estar sem grandes conflitos sociais internos. Mas a década de 1970 trouxe muitos desarranjos, começando pela elevação do preço do petróleo de US$ 2,5 dólares o barril para US$ 30, com duas más consequências : 1. Geração de uma massa de dólares em mãos de países produtores de petróleo sem capacidade de gastá-los produtivamente, gerando uma explosão de bancos encarregados de emprestá-los em escala global; 2. Endividamento em espiral de países importadores de petróleo, submetidos a sucessivas crises, dentre os quais o Brasil que acabou recorrendo à Moratória no Governo Sarney. Esses desarranjos projetaram novos líderes mundiais com novas consignas - mais conservadoras - e que viriam restaurar o império do que se denominou neoliberalismo, Ronald Reagan nos USA e Margareth Tatcher, no Reino Unidos. Para eles, o Governo não poderia mais ser a solução, pois era o principal problema das economias, submetidas, crescentemente, à três pressões: acirrada concorrência, benefícios sociais crescentes e interesses financeiros. Tratava-se, pois, de privatizar, desregular e privatizar tudo. Desde então, a economia mundial vive de espasmos, ora de crise, como em 2008, ora de curta euforia, sendo de se ressaltar que nos momentos de maior euforia os ricos ficam cada vez mais ricos e os trabalhadores perdem poder aquisitivo, enfraquecendo os mercados consumidores e aprofundando a crise. Esse será o cenário, também, segundo o Fundo Monetário Internacional, para o próximo ano, que prevê um crescimento do PIB mundial de apenas 3%, mercê da disputa comercial entre os gigantes Estados Unidos e China. Para o Brasil, a projeção de crescimento não chega a 1%, ridícula, levando a perda ainda maior da nossa renda per capita já muito baixa. Enquanto isso, sabe-se que, no Brasil, os últimos anos foram trágicos. Pesquisa PNAD do IBGE, divulgada nesta semana ,confirma que, em 2018, os 30% mais pobres ficaram ainda mais pobres e o 1% mais rico, ficou mais rico. Ou seja, a crise penaliza os mais vulneráveis. E a esperança de que estes seriam beneficiados pelos recursos do petróleo, anunciada quando da descoberta do Pré Sal, esfumou-se. Os R$123 bilhões que entrarão no Tesouro nas próximas semana, dita “Cessão Onerosa”, em vez de se destinarem ao Ministério da Educação, já foram pulverizados para cobrir rombos da União, Estados e Municípios, além, claro, de uma “mãozinha” para Emendas Parlamentares... Grosso modo, no Brasil, com isso, reafirmamos uma elite de cerca de 200mil famílias que detém a maior parte dos grandes negócios, das propriedades e dos ativas financeiros em funções, este na ordem de R$10 trilhões, que, aplicados à uma taxa imaginariamente baixa de 10% ao ano lhes garante um rendimento anual R$ 1 trilhão, cerca de 15% do valor do PIB. Metade destes rendimentos é oriunda dos Títulos do Governo, corroendo a capacidade fiscal do Estado para novos investimentos, em benefício dos rentistas. Enquanto isso, a vigorosa classe média nacional, algo em torno de 50 milhões de pessoas, encolhe, abrindo mão dos Plano de Saúde e das escolas caras para seus filhos. E a grande massa de trabalhadores, cerca de 100 milhões, fica sob o teto do salário mínimo, dos quais 35 milhões com uma renda mensal de meio salário, sendo que uns 15 milhões sob a miséria de apenas R$ 90,00 por mês. Diante deste cenário, me penitencio de não ter falado dos filmes que vi na semana e no encanto de ter passado o fim de semana em Brasília com meus filhos. Teria sido mais animador. Mas a Economia é estúpida, mas é a Economia...


GLOBONEWS  PAINEL DISCUTE CENÁRIO  NACIONAL

Paulo  Timm –Publicado A FOLHA, 25 OCT

 

Já falei aqui sobre as importantes mudanças na TV brasileira. Falo, claro, da TV por assinatura, eis que há muito tempo já não assisto os canais abertos. Novelas, nem pensar...Meus fins de semana distribuem-se, além dos livros, filmes, inclusive às  sextas de noite no Quintal da Dindinha, no Passo , ao longo da excelente programação do CANAL CURTA e do CANAL ARTE 1. Verdadeiras dádivas culturais. Sou obrigado, também, a registrar minha satisfação com a temporada da jornalista Renata Loprete no Globonews Painel, aos sábados à  noite. Tarefa  difícil a dela, substituir o experiente  Willian Waack como âncora do Programa, mas tem se saído, jornalisticamente, melhor do que ele. Seleciona os temas com maior diversidade de interesses, convida analistas de distintas opiniões, não interfere com opiniões próprias  sobre os temas debatidos, os quais procura articular, apenas, para melhor desenvolvimento dos temas. Neste último sábado o assunto foi o Cenário Político Nacional, para o qual convidou Marcos Nobre, da UNICAMP e Presidente do CEBRAP/SP, Brasílio Sallum, Sociólogo, Professor da USB e Ricardo  Penteado, advogado, consultor em Direitos Políticos - https://globosatplay.globo.com/globonews/v/8019264?fbclid=IwAR2EOS9rOtrliTaKVkLpM4Hc0rSx4lXnan6W-pd2rScZrwulIF21CoiZXJw

O que dizem, enfim, os especialistas em Análise Política, um campo até há pouco dominado não por acadêmicos, mas por políticos profissionais. Ninguém mais, hoje, os escuta. Políticos profissionais são, com raríssimas  exceções,  extremamente despreparados. Isso ficou evidente no famoso debate na Rede ABC, dos Estados Unidos,  entre Gore Vidal, pelos democratas, e W. Buckley, pelos republicanos, nos anos 1960, quando passou a ter mais importância do que as aparições dos próprios Presidenciáveis - https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/tv/intelectuais-lutam-como-pugilistas-em-serie-de-debates-bhoa7aaucf1546jejcoxetd0f/. Este não é, pois,  um caso apenas brasileiro. Dissemina-se pelo mundo inteiro e é um dos fracassos do regime partidário para o provimento da  função  pública. Não por acaso, o livro “O declínio  do homem público”, de Richard Sennet, tornou-se um  best seller mundial.   No Brasil, entretanto, o despreparo reflete a própria natureza do mundo político, pouco atrativo para muitos profissionais de escol. E quando os outsiders, como Jair Bolsonaro, avesso ao stablishment e ao universo político-partidário,  se lança, com êxito, à Política, “hackeando” Partidos para se candidatar e arrastando, até, muitos neófitos ao processo eleitoral, a título de “renovação”, o resultado tampouco é satisfatório. Pesquisas, aliás, já demonstram que 63% dos eleitores brasileiros consideram Jair Bolsonaro despreparado para  a função de Presidente.

Mas vamos ao debate:

A questão central assinalada por Nobre e Sallum se relaciona  com o que estava dizendo: O Presidente Bolsonaro se elegeu praticamente sozinho, na crista de um sentimento nacional anti-política oficial. Não organizou um  Partido, articulado a algum tipo de ideologia. Não fez lideranças intermediárias, à exceção dos três  filhos. Não chegou a formular e apresentar, nem na candidatura, um Projeto para o Brasil.  Anexou, na campanha o Economista  Paulo Guedes que lhe ofereceu um prato liberal,  ao gosto dos investidores  internacionais e do grande empresariado nacional. Fê-lo, como disse, seu Posto Ipiranga, reconhecendo que nada entende de Economia. Paulo Guedes lhe empresta o menu liberal das Reformas, começando pela Previdência, nada mais.  Ainda assim, dita Reforma,  caminhou mais graças ao Congresso do que graças ao Poder Executivo. É o Congresso , também, que avança sobre outros  itens como Reforma Administrativa e Tributária, assinalando, segundo Sallum, uma proeminência na História Republicana do Brasil. Bolsonaro nada oferece a não ser uma ofensiva contra o próprio Estado (seu), quando ataca IBGE, INPE, etc. , contra a Sociedade Civil, ao ofender o Presidente da OAB, contra seu próprio Partido, o PSL e não raro contra o Congresso, que acusa de praticante da “velha  política”.  Em razão  disso, o único projeto do Presidente é sua reeleição em 2022, para a qual conta com um terço dos eleitores, confiando ser a melhor opção no campo da direita, enquanto, como observa Nobre, a Oposição conforma-se com seus nichos já conquistados.


 

AS  MULTIDÕES  ENFURECIDAS

Paulo Timm  -  Pub. A  FOLHA , Torres  oct25

Passei toda a semana caprichando num artigo sobre o debate entre vários analistas, levado a efeito no  dia 19 p.p. , num dos  melhores  Programas da TV por assinatura: Globo News Painel. Ali compareceram Marcos Nobre, Cientista Político da  UNICAMP,  Brasilio  Sallum, Sociólogo, Professor da US e Ricardo Penteado , advogado, especialista em Direitos Políticos. Conclusão deles sobre o cenário nacional: O Presidente Bolsonaro não governa, nem  tem  projetos para o Brasil, joga tudo na sua própria reeleição em 2022.E tem cacife para isso nos 30% que  apoiam  seu estilo belicoso e anti-sistema. Quem teria tamanha margem de preferência? Os dias, porém, correm rápido no mundo e me vejo  na  contingência de trocar de assunto.

Vamos às multitudinárias   convulsões que sacodem diversas lugares no mundo: A mais persistente, a dos “Coletes Amarelos”, em Paris, que não dá trégua ao Presidente Macron. Mais recentemente, foi a vez da revolta dos moradores de Hong Kong,  contra as tentativas de tergiversação do princípio “Um País, dois sistemas”, que embasou a devolução daquela ilha, dominada há 150 anos pela Inglaterra, aos chineses. Mas nas duas últimas semanas o rastilho do descontentamento social com governantes chegou a Quito , no Equador, a Beirute, no Líbano, Barcelona e diversas cidades do Chile. Outras explosões, não de rua, mas de votos, surpreenderam, contrariando as previsões: A eleição de Donald  Trump para Presidente dos Estados Unidos, a vitória do BREXIT no Reino Unido,  que decidiu pelo seu divórcio com a União Europeia e , não menos significativa, a vitória de Jair Bolsonaro como Presidente do Brasil no ano passado, sem maiores recursos do que as redes sociais, para muitos usada abusivamente, sem Partido, salvo o nanico PSL que lhe abrigou, e praticamente sem equipe. Daí  a pergunta, que tem duas respostas básicas, uma à direita, outra à esquerda, numa clara demonstração de que a ideologia não morreu nem morrerá tão cedo.

Para a direita, que se manifestou através de dois pronunciamentos complementares sobre o caso chileno, tudo é obra de “poderosos inimigos que promovem a guerra”, como afirmou o Presidente Sebastian Piñera no primeiro dia da convulsão chilena. O desabafo daquele Presidente foi melhor identificado pelo General Heleno, Ministro Chefe da “Informação” de Bolsonaro: Foram os “esquerdistas”. Esta interpretação, entretanto, mesmo que fosse verdadeira para o Chile, não explicaria os  casos de Hong Kong e Barcelona. Os manifestantes de Hong Kong são “ocidentalistas”, carregam bandeiras americanas em suas manifestações e clamam por liberdade e democracia contra o comunista Império Chinês. Tampouco explica o caso de Barcelona, que  reúne todas as tendências ideológicas da Catalunha pela independência de seu território. 

A esquerda tem uma visão também parcial, que não explica os casos acima citados. Vê, nas manifestações o resultado das políticas neoliberais sob hegemonia financeira das últimas décadas, as quais trouxeram baixas taxas de crescimento, sobretudo na América Latina, desemprego em massa e perdas substanciais de salários e garantias sociais dos trabalhadores. Veja-se a conclusão de Aldo Fornaziere, Cientista Político, em artigo recente:

“Com elites políticas e econômicas criminosas, com privilégios públicos inaceitáveis, os países da América Latina perderam a mão para o futuro. Desigualdade, desemprego, pobreza, violência, alta criminalidade, tráfico de drogas, populações inteiras sem direitos e sem assistência, a vida degradada nas periferias das cidades são marcas que vão se acentuando nestas terras desalentadas e desesperançadas.” – (A desigualdade e a rebelião das multidões -  www.desenvolvimentistas.com.br )

 

Entre as explicações à direita ou à esquerda, a verdade é que ninguém consegue explicar muito o descolamento das grandes massas urbanas, em processo de reorganização de  seus regimes de trabalho e redesenho das cidades, das instituições públicas que até há pouco faziam mediações entre demandas sociais e possibilidades de atendimento,seja pelo Estado Providencial, seja pelas empresas. Ninguém, por mais razões que dê às explosões sociais, consegue prever onde e  quando elas acontecerão. Reduzido ao anonimato das grandes aglomerações resta ao cidadão, no curso da luta pela vida, num ritmo de apatia a tudo que corre à sua volta, a comunicação de suas frustrações pelas redes sociais, as quais, sob certas circunstâncias, não excluída a manipulação da opinião pública por grandes corporações de gestão de dados da BIG DATA, explodem em desespero espontaneísta. Isso , aliás, aconteceu no Brasil, em junho de 2013. Acabou condicionando os acontecimentos que se seguiram.

E para não dizer que não falei de flores, duas sugestões para o fim de semana: Ver o filme “Coringa”, que está passando em Torres e espiar na NETFLIX o documentário “Democracia Vigiada”. Não se trata de flores perfumadas. Você vai ficar até  sem dormir à noite, mas, talvez ,isso o mantenha de olhos mais abertos para a obviedade invisível das ocultas forças que atuam no mundo.

 


CRISE NO CASAMENTO DE BOLSONARO COM PSL Paulo Timm Você sabe o que significa PSL, o Partido que elegeu o Presidente Bolsonaro em 2018 e fez a maior bancada de deputados na Câmara Federal? Aprenda: PSL é o acrônimo (sigla) do Partido Social Liberal, um partido político alinhado ao social-liberalismo, atualmente liberal apenas no âmbito econômico, defendendo o conservadorismo nos costumes. Era um Partido nanico até 2018, tendo apenas um deputado eleito no pleito de 2014, sem qualquer relevo político ou ideológico. Assim como o PSL existem perto de 30 Partidos, quase todos com um ou outro eleito. É o festival pluripartidário que caracteriza nossas “liberdades públicas”.. Com o bolsonarismo a bordo, o PSL virou subitamente um transatlântico e começa a viver as dores do crescimento exagerado. Há conflitos dentro da bancada de deputados, visto haver sido eleita à sombra da campanha do Presidente Bolsonaro, sem maior identidade ideológica interna, daí a recente expulsão do deputado Alexandre Frota. Há conflitos no interior do Partido, entre membros de sua Direção Nacional, hoje sob a Presidência do Deputado Luciano Bivar, e respectivas Direções Regionais, sobretudo do Rio de Janeiro e São Paulo, onde atuam filhos de Bolsonaro, além da presença incômoda da Deputada Estadual Janaína Paschoal, que promete ser, na próxima eleição, “candidata avulsa” , sem Partido, algo sub judiceno Supremo. E, agora, explodiu a crise entre a Direção Nacional e o próprio Presidente Bolsonaro. Na quarta feira,, à saída do Palácio da Alvorada, em Brasília, ao ser saudado entusiasticamente por um fã, com VIVAS AO PSL!, Bolsonaro lhe respondeu: - “Esquece o PSL!”!!! A declaração correu à imprensa e a crise já não pode ser escamoteada. Muito “diz-que-disse”, conjecturas, reuniões, até um MANIFESTO assinado por 15 deputados federais encabeçado por Flávio Bolsonaro em apoio ao pai, até que, um dia depois, tudo se esclareceu, na palavra do próprio Presidente da República: -“Não há nenhuma crise. É briga de marido e mulher...” Vá o feito. Fica o assunto à reflexão dos analistas e cronistas políticos. O que está, realmente, acontecendo nas relações entre o Presidente e sua mais leal bancada no Congresso? Aqui, duas questões: Uma de princípio, outra de interesses. A questão de princípio diz respeito aos Partidos Políticos no mundo inteiro (ocidental). Eles foram criados, no colapso nas monarquias absolutistas, como o mecanismo que vertebraria a vida republicana – ou de monarquias constitucionais, como o Reino Unido. Neles se formariam os líderes que conduziriam os destinos de seus respectivos povos, de acordo com o que o tempo demonstraria como suas inclinações ideológicas, mais à direita, mais à esquerda, ou ao centro. Tanto quanto requisito para candidaturas, os Partidos deveriam operar como escolas de formação de dirigentes públicos e de destilação daqueles que demonstrassem virtudes pessoais para o exercício destas nobres funções. Lembremo-nos que nas velhas monarquias os Príncipes eram educados com muito rigor para suas futuras incumbências. Aristóteles, por exemplo, lá na Antiga Macedônia fora convocado como tutor de Alexandre , o Grande, ensinando-lhe todas exigências de um bom heleno. Nos Modernos Estados Nacionais esperava-se dos Partidos que cumprissem esta função a contento. Não só não cumpriram, com raras exceções, como, de resto, foram superados, ao longo do século XX, por outras formas de organização da Sociedade Civil que os superaram, como, por exemplo, os Sindicatos e outras formas de organização social, como as ONGs de defesa ambiental, de promoção de direitos de minorias ou de fomento à determinadas causas. Além disso, a Política é um dos Reinos da Arte e não da Razão, sendo um lugar em que o talento se revela através do que se convenciona denominar carisma, marca dos deuses. Como, pois, compatibilizar uma organização burocrática, que é o Partido, com a eclosão de líderes que sozinhos são maiores do que o Partido? A pergunta faz sentido. No Brasil, três Presidentes elegeram-se com base na sua imagem pessoal: Jânio Quadros, pelo inexpressivo PTN, em 1960, Fernando Collor, em 1989, pelo não menos expressivo PRB e, agora Bolsonaro, pelo PSL. Ora, nem esses Partidos capitalizaram estruturas sólidas para a aceitação destes candidatos, nem detêm a capacidade de sobreviverem sem eles. Daqui a alguns anos ninguém mais saberá, no Brasil, o que foi o PSL, como não sabe do PTN e do PRN. Mas sobre este pano de fundo há interesses. Os Partidos , no Brasil recebem dinheiro vivo do Governo. Há, anualmente, um festim de perto de R$ 1 bilhão, distribuído às Direções Nacionais, de acordo com o número de deputados que elegeram na Câmara dos Deputados. O PSL, por exemplo, receberá, neste ano R$ 70 milhões e terá recebido nos quatro anos 2019-2022 a bagatela de R$ 700 milhões. Dinheirinho que nem o Deputado Bivar, um abnegado defensor das causas públicas, nem seus correligionários querem abrir mão. Além desses recursos do Fundo Partidário Nacional, os Partidos recebem, a cada ano eleitoral, uma verba para o financiamento – público – de suas campanhas. Na última este valor ficou em torno de R$ 1,5 bilhão mas há indícios de que, em 2020, este valor salte para R$ 3,5 bilhões. Ou seja, nesta briga de marido e mulher, há uma clara disputa que, longe de temperamentos ou falta de afinidades afetivas, aponta para o seguinte: Quem, enfim, vai controlar esse dinheiro...? E daí a expressão que ganha hoje as ruas: BRASIL, O PAÍS DOS PEQUENOS PARTIDOS E GRANDES NEGÓCIOS. 

 


----O DIA DO RIO GRANDE DO SUL -

                             Paulo Timm Publicado em A FOLHA, Torres,20 set 2019

Impossível passar o 20 de setembro sem tocar em temas riograndenses. Há muito o que se falar sobre a Revolução Farroupilha, hoje estigmatizada por grande parte da inteligência crítica do Rio Grande, à luz não só do episódio de Porongos, denunciado por Tao Golin e Juremir Machado, quando os Lanceiros Negros foram traídos da promessa de alforria, mas pelo caráter inter-oligárquico dos contendores. Os desdobramentos desta controvérsia atravessam os tempo e se traduzem numa rejeição da dita inteligência gaúcha ao tradicionalismo cultivado pelos CTGs. Acham que há excesso de conservadorismo no movimento que tenta eternizar clivagens sociais hierárquicas e discriminatórias de gênero e até de orientação sexual . Tudo condenável, sob o olhar do "politicamente correto".  Adicionam, também, a crítica de que o Rio Grande não não se reduz em sua formação social, ao gaúcho, muito menos o gaúcho estilizado pelos CTGs. Com efeito, o Rio Grande tem nos povos pré-colombianos seu maior ancestral, na presença de guaranis no Planalto, gês no Litoral e Minuanos e Charruas na campanha. Sobre eles sobrepôs-se, a partir de meados do século XVII a colonização portuguesa, que entrou por terra, vinda de Laguna até se encontrar no que viria a ser Porto Alegre, no século XVIII, com o flanco marítimo procedente do Presídio de Rio Grande. Cristovam Pereira de Abreu, o "inventor" do Rio Grande costuraria estas duas bandas articulando-as pelos caminhos das tropas (marítimo e serrano) ao centro do Brasil. No século XIX chegam os alemães a partir de 1824 e os italianos, depois de 1870, abrindo caminho sobre as áreas relativamente despovoadas de Serra Geral, até as barrancas do Rio Uruguai, a eles somando-se outras correntes de migrantes europeus que acabariam alterando substancialmente a imagem do gaúcho primitivo. Para a crítica ao Tradicionalismo, portanto, não é justo identificar o povo riograndense como este gaúcho original. O mais forte argumento , porém, contra o Tradicionalismo provém da denúncia da redução de seu principal leitmotiv na Revolução Farroupilha, mais das vezes confundida, pelo uso do lenço vermelho, com os ideias liberais dos federalistas de 1893/95 ou maragatos de 1923/25, cujo epicentro eram - não por acaso - os "infames" estancieiros das "Perversas Famílias" oligárquicas da campanha. Segundo alguns deles, o tradicionalismo deveria centrar-se, sim, no espírito republicano de 1835 que se reproduziria radicalizado 50 anos depois entre os estudantes gaúchos na Escola de Direito de São Paulo, Julio de Castilhos como baluarte deste processo, dando origem ao inédito e peculiar PARTIDO REPUBLICANO RIOGRANDENSE (RADICAL), a mais forte voz do republicanismo na República Velha. Tão forte, que desde a Presidência instável de Floriano Peixoto é chamado a sustentar pelas armas o regime recém instalado, vindo a consagrar-se vitorioso no confronto com a Revolta da Armada recolhida na então Ilha do Desterro, em Santa Catarina, e, depois do feito, não isento de grande crueldade, denominada Florianópolis. Ou seja, a se tomar a Revolução Farroupilha como um marco significativo da História Riograndense, melhor fazê-lo na louvação do brado republicano daquela Guerra - perdida ! - do que propriamente pelo feitos de seus combatentes. Isso, porém, é História.E nunca esquecendo: a data da Proclamação da República Riograndense, que corou este brado, não foi 20 de setembro de 1835, mas 11 de setembro de 1936

 

HÁ 89 ANOS, UM 3 DE OUTUBRO MUDARIA  O BRASIL

 

Paulo Timm- Publicado A FOLHA, Torres – dia 3 outubro 2019

“E o Gigante da América Latina? Como ele conseguiu ser o país que mais cresceu no mundo no momento histórico em que o mundo mais cresceu na história. Fomos os campeões de desenvolvimento mundial entre 1930 e 1980. Isso é um mérito incrível para um país que não tem uma Ideologia Nacional e nem heróis nacionais reconhecidos como existem em outros países.
Será que não temos? Será que nunca tivemos?

Tivemos. Nossa Ideologia Nacional foi o generoso positivismo rio-grandense que se popularizou por meio do Varguismo.”

( Felipe Quintas, Gustavo Galvão e Pedro Augusto Pinho in Preparando o Estado para a Soberania: Heróis e Ideologia nacional - Publicado em 14/08/2019 no jornal Monitor Mercantil, RJ, pag. 2, Opinião)

 

Entre tesouras de ventos  abespinhados que empurram chuvas  de granizo pelos campos e os primeiros sóis da primavera que banham  peles amaciadas pelo inverno, entramos em outubro. Um mês sóbrio. Equilibrado, mesmo com o descompasso das intempéries.  Jamais imagino que o apocalipse  possa  nos  colher num mês de outubro. É como as quartas feiras. Cheio de lembranças e promessas. A natureza do lado de cá do Equador, mesmo na hipótese de que a Terra seja plana , agradece.

Escrevo esta coluna justo no dia 03 de outubro e, de relance, relembro as eleições gerais que costumavam a acontecer neste dia. Ainda hoje ficam elas escaladas para o primeiro domingo depois desta data. Era eu menino, estudante  do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre e já me via envolvido em campanhas  eleitorais. A politização republicana precoce,  audaciosa  -e , às vezes, radical- , era uma característica daquele educandário, numa espécie de tributo a quem lhe conferia o nome.. Culpa disso foi meu grande amigo João Alberto Pratini de Morais, também  aluno do Julinho, cujo pai, Dr. Adail Morais, era um político estadual consagrado e eterno candidato. Lá ia eu, convocado, a colar cartazes e distribuir santinhos do circunspecto Dr. Adail, da facção juscelinista do velho PSD, então dividido no Rio Grande pela defecção dos mais  conservadores que se iludiriam com Jânio Quadros. Corria a década de 1950 e, na verdade, as novas gerações já pouco  falavam na Revolução de 1930 e sequer sabiam que o dia das eleições, 03  de outubro, fora  escolhido precisamente para celebrá-la como o  umbral do Brasil Moderno. Mas eu, sempre curioso com a História, logo aprendi: Na  madrugada de 03 de outubro de 1930, o Governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, que havia concorrido à Presidência numa  chapa contrária à da Velha República  do Café com Leite, alusão ao eixo dominante de São Paulo e Minas Gerais durante os anos 1889-1930, com as forças políticas rio-grandenses pacificadas e sólido apoio da jovem oficialidade do Exército, coloca-se à frente da briosa Brigada Militar, domina, com pouquíssimas  baixas, as forças leais ao Governo Federal em Porto Alegre e ruma para a  tomada do Poder no Rio de Janeiro. Lá se consagraria como o estadista do século no Brasil. Desde o fim do Império a sociedade brasileira, numa rara empatia entre dissidentes  da  classe  dominante, expoentes da classe média emergente, sobretudo na capital do país, que já beirava o primeiro milhão de habitantes, mas também em São Paulo e algumas capitais, num país de pouco mais de 10 milhões de almas dispersas pelo imenso território rural, e populares, principalmente escravos e negros que lutavam pela Abolição, agitavam-se em defesa de reformas. Não se tratava de um Programa claro de  grandes  transformações. Sabia-se mais o que não se desejava, dentre outros a monarquia sonolenta, a falta de inovações na economia e o corrompido “bico de pena” do  processo  político, do que  se queria. Veio a República  em 1889, trouxe algum alento à  economia e uma pequena mudança de quadros na Política Nacional, mas nada mudou. Na década de 1920, o Presidente Artur  Bernardes, teria que manter seu mandato sob Estado de Sítio para poder governar, tal o nível de agitação, sobretudo nos quartéis. Lembre-se dos “18 do Forte” e da “Coluna Prestes”. Este clima foi adensando e culminou na Crise da Bolsa de 1929, quando a economia do mundo inteiro veio abaixo. Na crista destes acontecimentos, emerge a Revolução de 1930. Vitoriosa, mudou o Brasil. Saímos da condição de  um fazendão oligárquico exportador de café e açúcar, para, ao largo de 50  anos, nos tornarmos uma das dez mais industrializadas e poderosas nações do mundo, graças a uma taxa de  crescimento de 6,5% a.a. Até sonhamos em ser uma Grande Potência.  No ano 2000 chegamos a perto de 200 milhões de brasileiros, um ativo que nos coloca com uma importância  simbólico-cultural, política e econômica estratégica. Claro que não fizemos isso sem traumas ou grandes problemas. Mas fizemos.

                                                   

ERA  DESENVOLVIMENTISTA

Revejo, agora, os vídeos do último Rock in Rio e me regozijo em perceber que estamos no centro da Sociedade do Espetáculo, mas não desconhecidos, nem muito menos relegados. Ver  Elza Soares e Alcione Marron lá brilhando me fez sentir um Brasil  que não se rendeu à globalização e que resiste no samba, não por acaso ancorado na década de 1930, como  medula  da nacionalidade.

 


BEM VINDO SETEMBRO,  MESMO COM OS  VENTOS!

Paulo Timm – Coluna A FOLHA, Torres – 6 de setembro 2019

 

Ufff!! Foi-se o mês do desgosto. Ainda por cima, tem 31 dias... Haja coração! Mas até que, neste ano, que não diria “da graça”, pois   amargado pela crise econômica, senão política, não tivemos grandes surpresas. Verdade que houve a queima da Amazônia e sobre ela uma quizília internacional: O Brasil contra o mundo, a partir da demissão do cientista Presidente do INPE, órgão oficial que divulga os incêndios na Amazônia e cujo vértice  consistiu no confronto, com pitadas de péssimo gosto,  do Presidente Bolsonaro com vários líderes da Europa. O assunto não morreu, até porque está em discussão no grupo de países do G7, os mais desenvolvidos do mundo, mas amainou desde que o próprio Governo decidiu agir no combate aos incêndios com as Forças Armadas e Força de Segurança Nacional. No rastro disso tudo, a certeza de que os focos criminosos não foram de responsabilidade de nenhuma ONG ou alma penada, mas de grileiros e madeireiros interessados em vender áreas desmatados para o pastoreio.

Setembro nos oferece outro clima. As chuvas, inevitáveis, irrigam os campos e arejam as vielas urbanas. “A erva (dos nossos) campos é muito boa, por ser a terra muito temperada no inverno, e no verão lavada de bons ares frescos e sadios". Os ventos sopram fortes e limpam um pouco o ar ainda frio. Trazem, como lembrava Barbosa Lessa, em seu “Rodeio dos Ventos”, que integra o Projeto do III Farol Literário de Torres 2019, distintos presságios, quando não flagelos sobre a Terra e o Homem:

“Pois tão aprazível habitação foi lentamente se modificando a partir da chegada dos soldados com seus arcabuzes e dos colonos com seus Machados de pedra. Começara a soprar um vento novo, chamado CARPINTEIRO, vindo do Sudoeste, que ia castigando a relva até fazer lá em pó, bombardeava de grãos de areia as construções dos brancos e ia remoendo os caibros, as portas, a janelas, e, dentro da casa, os bancos, três, baús. Soprando hora a hora, dia a dia, mês a mês, ano a fio o CARPINTEIRO transformou o varzedo em areal.”. (...) E os ventos ultrapassavam Rio Grande, cruzaram o canal, entraram pela povoação do Norte e, com os nomes de NORDESTÃO e SIRIRI, em rumos alternadamente opostos, foram destruindo as pastagens de Mostarda, Quintão e Cidreira, formando dunas e as carregando ora para cá e ora para lá, soterrando ranchos, invadindo os povoados, e dando àquela outrora aprazível habitação o nome, tão significativo, que ainda hoje tem: Solidão!

E para onde quer que se voltasse o homem branco, eram novos ventos que iam surgindo. Numa região onde os índios tinham vivido sempre luz, sem necessidade de mínimo abrigo, soprava agora, vindo das planícies dos índios minuano, o assobiador MINUANO, por três dias soprando navalhadas de gelo, dos céus escorraçando as nuvens todas para poder reinar sozinho, infligindo o suplício do frio até os ossos, matando de frio aos que não tivessem poncho. E matando, ainda hoje, a qualquer pobre miserável que passe a noite ao relento.

E mais temido ainda que o MINUANO é o VENTO NORTE, bafejando calor,  crispando os nervos, jogando irmão contra irmão, semeando ira, plantando ódio, colhendo conflitos, revoluções, tragédias bárbaras como as degolas do Rio Negro e do Boi Preto. VENTO NORTE, o Vento da Morte.”

 

Rio Grande,    SETEMBRO  E O VENTO...

Setembro amarelo - mês da prevenção do suicídio

“Falar é a melhor solução”

Ao sentir-se só e deprimido ligue  188 – CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA


BOLSONARO DECIFRADO

Paulo Timm – Publicado em A FOLHA, Torres RS 23 agosto.

Charges do Bouço no mundo inteiro : Brasil ridicularizado https://www.facebook.com/btcesar/videos/2441188055927903/?t=19

 

 

“Método da loucura derrotará Bolsonaro

A quem fala Bolsonaro? Aposta em manter unida a sua tropa nas redes sociais e antevê, no outro extremo, a radicalização do discurso das”

Reinaldo Azevedo - 9 de agosto de 2019 FSPhttps://blogdacidadania.com.br/2019/08/bolsonaro-nunca-pretendeu-governar-efetivamente-o-pais/

 

 

O holocausto brasileiro

"As pessoas vão morrendo aos poucos nas filas de hospitais sem remédios; a floresta amazônica, derrubada pelo exército

de moto-serras, arde em chamas para dar lugar a pastos; os empregos e os direitos trabalhistas são dizimados; a educação pública agoniza junto com a aposentadoria dos idosos", Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia, em referência ao governo Jair Bolsonaro

 

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Desde sua eleição, em 2018, uma pergunta domina o noticiário político: - Afinal, que diabos há na cabeça de Bolsonaro? Editoriais da grande Mídia se sucedem em indagações e perplexidades. As primeiras tentativas a indificavam com ideias de um outsider, ao estilo dos “Cinco Estrelas” na Itália: “Contra tudo e contra todos”, exímio no manejo de uma novilíngua de ocasião:

 

NOVILÍNGUA DA DIREITA BRASILEIRA

 

PATRIOTA. Aquele que apoia a privatização ou a venda de empresas estatais e de riquezas naturais para grupos estrangeiros.

 

CIDADÃO DE BEM. Homem branco, hétero e de classe média que defende o porte de armas e a sonegação de impostos.

 

ESTUDANTE. Jovem maconheiro facilmente influenciável por ideias de esquerda.

 

PROFESSOR. Doutrinador comunista que promove greves e surubas em horário de trabalho.

 

UNIVERSIDADE PÚBLICA. Local de balbúrdia onde as pessoas andam nuas, consomem drogas e se deixam manipular por doutrinadores de esquerda.

 

CIENTISTA. Pessoa que recebe dinheiro público para promover pesquisas sem importância que não geram retorno financeiro.

 

EMPRESÁRIO. Único profissional responsável pelo desenvolvimento do país, apesar de massacrado pelos impostos do Estado e tolhido pelos direitos trabalhistas.

 

POBRE. Pessoa que não se esforçou o bastante; vagabundo; procrastinador.

 

FEMINISTA. Mulher que não gosta de homem e não depila as axilas.

 

INDÍGENA. Pessoa que ocupa grandes porções de terra sem pagar impostos, sem trabalhar e sem gerar receita ao Estado. Diz-se também do brasileiro que se aproveita de sua aparência física para requisitar o direito a territórios que, por direito, deveriam pertencer ao agronegócio.

 

IMIGRANTE. Pessoa estrangeira de má índole, proveniente de países do Terceiro Mundo, que vem ao Brasil para tirar o emprego de brasileiros e estuprar as mulheres (OBS: Não se enquadram nessa classificação imigrantes de pele clara e olhos azuis provenientes de países europeus como Itália e Alemanha).

 

MOVIMENTO NEGRO. Organização formada por pessoas (de cor) ressentidas que se dedicam a promover o racismo reverso na sociedade; grupo de pessoas (de cor) que não se colocam em seu devido lugar.

 

NORDESTINO. Brasileiro nascido ou residente na região nordeste do país e dotado de pouca inteligência, bem como de pouca inclinação ao trabalho. Não obstante, apresenta tendências esquerdistas na política.

 

DITADURA MILITAR. Suposto período histórico que teria vigorado no Brasil de 1964 a 1985. O mito da ditadura foi inventado por professores de esquerda com o objetivo de desqualificar o governo de militares abnegados e honestos que livraram o Brasil do comunismo.

 

DEMOCRACIA. Regime de governo corrupto que só beneficia a classe política em detrimento da família, da tradição e da propriedade.

 

DIREITOS HUMANOS. Organização de esquerda criada para defender criminosos e vagabundos de toda sorte.

 

DESEMPREGO. Opção de quem não gosta de trabalhar ou não possui a competência e a qualificação exigidas pelo mercado.

 

MANIFESTAÇÃO POLÍTICA. O mesmo que baderna (OBS: A exceção fica por conta das manifestações de classe média que pedem intervenção militar, feitas geralmente aos domingos e compostas por famílias vestidas em camisas amarelas e portando bandeirinhas do Brasil como prova inequívoca de seu patriotismo).

 

VENEZUELA. O inferno na Terra. Uma espécie de Cuba com petróleo. Uma Coreia do Norte com belas candidatas a Miss Universo. República de bananas comandada por uma ditadura sanguinária financiada pela União Soviética e pelas verbas do BNDES durante o regime lulopetista.

 

ESTADOS UNIDOS. País exemplar para onde todos os brasileiros querem se mudar um dia. Terra da liberdade em que as leis funcionam e a segurança impera porque os cidadãos de bem podem andar armados.

 

BRASIL. País desprezível formado majoritariamente por gente pobre, ignorante e preguiçosa. Nação historicamente fadada ao atraso e ao subdesenvolvimento devida a pouca capacidade empreendedora de sua população.

 

BRASILEIRO. Adjetivo pejorativo usado para desqualificar o que quer que seja (um filme, um escritor, um destino turístico etc). Sinônimo de pobreza, falta de caráter e indolência. "Só podia ser brasileiro mesmo".

 

FILÓSOFO. Tipo de pensador inexistente no Brasil, dada a nossa incapacidade de produzir reflexões profundas (OBS: Olavo de Carvalho é uma exceção, podendo ser considerado o único filósofo brasileiro, entre vivos e mortos).

 

ARTE. Suposta atividade criativa humana que só interessa a uma pequena elite intelectual de esquerdistas pernósticos.

 

ARTISTA. Indivíduo que se dedica à vadiagem, usando a arte como justificativa para sua condição de sanguessuga do dinheiro público.

 

CULTURA POPULAR. Arte de pouca ou nenhuma qualidade e importância; coisa de pobre.

 

MUSEU. Local geralmente público e entulhado de velharias inúteis que não interessam a ninguém.

 

POLITICAMENTE CORRETO. Designa a conduta criada pela patrulha de esquerda para coagir e constranger pessoas espontâneas que falam o que todo mundo pensa mas não têm coragem de verbalizar.

 

EDUCAÇÃO SEXUAL. Disciplina escolar criada por professores esquerdistas para ensinar pornografia às crianças, minando assim os valores da família cristã. Tal disciplina estava contida no famigerado kit gay (que o educador Paulo Freire escreveu a pedido do ministro Fernando Haddad durante o governo Lula e que vinha sendo distribuído nas escolas brasileiras).

 

TRABALHO ESCRAVO. Lenda urbana inventada pela esquerda com o intuito de prejudicar a imagem de empresários sérios e honestos; todo tipo de trabalho que um esquerdista se recusa a fazer.

 

SINDICATO. Grupelho de pessoas desocupadas que usa os trabalhadores como massa de manobra para beneficiar eleitoralmente os partidos de esquerda.

 

IMPRENSA. Designação coletiva dos veículos de comunicação controlados pela União Soviética e dominados pela ideologia marxista-leninista de seus funcionários.

 

FUNCIONÁRIO PÚBLICO. Pessoa ociosa sustentada pelo dinheiro dos nossos impostos para jogar paciência ou tomar cafezinho em repartições públicas decrépitas e sem muita utilidade.

 

PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT). Organização criminosa criada exclusivamente para dilapidar os cofres públicos e instaurar o socialismo no Brasil.

 

SOCIALISMO. O mesmo que comunismo.

 

COMUNISMO. Regime totalitário de esquerda implantado no Brasil em 2003 e que vigorou até 2016. Historiadores monarquistas sustentam, no entanto, que o comunismo teria sido implantado em 1889, com a Proclamação da República.

 

ESQUERDISTA. O mesmo que petista.

 

PETISTA. O mesmo que comunista.

 

COMUNISTA. Pessoa que não trabalha ou que vive exclusivamente de cargos públicos e boquinhas; indivíduo pervertido que defende a educação sexual para crianças, a ditadura gay e o aborto; ateu de esquerda que se dedica a difamar a Bíblia e a destruir os valores da família cristã.

 

A seguir, as análises tomaram o rumo ideológico e procuraram identificar as ideias do novo Presidente do Brasil ao fascismo: “Um político de extrema direita” ou “ameaça ao planeta”, como afirmou Eliane Brum no Jornal “El País”, já em outubro do ano passado:

“El candidato ultraderechista del partido PSL a la presidencia de Brasil, Jair Bolsonaro 11 de octubre de 2018, https://elpais.com/elpais/2018/10/16/opinion/1539703285_985671.html?id_externo_rsoc=FB_CC&fbclid=IwAR1Ws6Sh48n37pM4VUfQp6o6-DUFBZSPSWjJ7T6FKjeoLdt0eDnFFtE1dwg

 

No mês passado, o diagnóstico mudou de rumo, na palavra do Prof. Miguel Reali Jr., um dos autores do pedido de Impeachment de Dilma Roussef, junto com Janaína Paschoal:- “Não se trata, no caso Bolsonaro, de Impeachment mas de intervenção por caso de insanidade mental”. Um irado foi mais longe e bradou em artigo divulgado na Internet: “É um cão raivoso!” – Wanderley Diniz FB 20 agosto. . Ricado Kotcho, jornalista, sempre comedido, sentncia neste título: “Holocausto brasileiro!:

“Na semana em que o capitão presidente condecorou o coronel torturador-mor Brilhante Ustra com o título de “herói nacional”, ameaçou jornalistas e deu uma declaração escatológica sobre a preservação do meio ambiente, fomos informados de que o desmatamento na Amazônia aumentou 277,9% em julho de deste ano, em comparação com o mesmo mês de 2018, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).”

Para estes cronistas, citados, o prognóstico é unânime e explícito nas palavras de Milton Rondó:

“Sem qualquer princípio ético ou moral, Bolsonaro nos levará ao abismo”

 

Como não bastasse a frase do Presidente da França, Emanuel Macron, sobre os incêndios na Amazônia – e que será levada à próxima reunião do G7, repercute no mundo inteiro às portas das Embaixadas brasileiras:

“Nossa casa está em chamas”.

Mais recentemente, porém, especialistas, sobretudo franceses, começam a identificá-lo com maior acuidade e chegam a algumas conclusões interessantes. - "Bolsonaro é incapaz de construir discurso coerente" : http://br.rfi.fr/brasil/20190815-bolsonaro-incapaz-construir-discurso-coerente-especialistas-franceses-analisam.

Trata-se de um tipo particular de populista autoritário, avesso às convenções e servidões do Poder, sem qualquer pudor às inconveniências verbais, muitas vezes escatológicas, nem pejo de civilidade diplomática, como no caso em que esnobou uma alta autoridade francesa, preferindo ir cortar o cabelo, ou quando desqualificou as recentes eleições na Argentina, chamando os vencedores ligados ao peronismo de “bandidos de esquerda” . Nestes casos, como afirma um dos mais competentes comentaristas do país, o Cientista Político Marco Aurélio Nogueira – “Impropérios internacionais” : https://politica.estadao.com.br/blogs/marco-aurelio-nogueira/improperios-internacionais/?fbclid=IwAR3p5x3kHLPc2Uam2d2a0pt38tOgFkp4bGqSns-75qGZ0YXWG0mKkskTsvE-:

“(Bolsonardo) mostra inédita grosseria antidiplomática e completa ignorância em temas e posturas de política externa”.

A ele, se o ouvisse, o Presidente responderia: - “Não tô nem aí! Tá´oquei?? Associado, às vezes a figuras igualmente autoritárias, como Trump, Salvini, na Itália, ou Putin, na Rússia, Bolsonaro é o mais debochado e violento, às vezes, cruel mesmo, quando se referiu à morte do pai do Presidente da OAB.

 

Mas o que dizem os especialistas sobre a cabeça de Bolsonaro? Para muitos deles, as táticas discursivas de Bolsonaro não são inovadoras e não se destinam a convencer mas a seduzir, no melhor estilo retórico que sempre dispensa argumentos. Site do G1-Globo, em 18 de agosto passado, enumera em 58 lamentáveis frases, por exemplo, a verborréa agressiva de Bolsonaro - a 55 alvos desde a posse https://oglobo.globo.com/brasil/site-do-globo-reune-em-ambiente-especial-todos-os-insultos-de-jair-bolsonaro-1-23885106?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar&fbclid=IwAR1xBClXfxllg4V1G7N88M0FR5WWQmag4AEs4OuiWuSpJlWwV91R9dRbEV4 -

"A maneira como um discurso será recebido por uma audiência não depende apenas de seu caráter verídico ou tangível, mas sobretudo da capacidade do orador de captar a atenção da audiência", diz Birgitta Dresp. Pior, torna-se gradualmente aceitável e faz seguidores.

Outro, autor, Patrick Charaudeau, aponta quatro pontos da dicção populista:

O primeiro é o recurso da vitimização. Há sempre um bode expiatório, que pode ser interior ou exterior, no caso Bolsonaro a esquerda, os “russos”, as ONGs, ou a China. A segunda questão é a diabolização deste culpado.. Na Europa, ora são os imigrantes muçulmanos, ora a própria União Europeia. No Brasil, “culpado” é o PT. "O terceiro ponto é o apelo ao povo, mas geralmente trata-se da “Boa Sociedade”, associada ao "cidadão de bem". Por fim, nesse contexto, nasce a figura do "homem providencial", que salvará o "cidadão de bem" dos "inimigos".

Simplex. Eis o homem, sem rodeios, nem também, claro ,Políticas Públicas nem Programa de Governo que o justiquem e legitimem, mas sedutor. Caminha para maior soma de poderes pessoais à despeito das instituições, da Constituição ou das perplexas Oposições. Para seus seguidores, em torno de 30% do eleitorado, ainda é “o mito”. Uma fração ainda insuficiente para animar projetos mais ambiciosos de Bolsonaro mas suficiente para mantê-lo numa posição de “melhor” opção eleitoral à direita, já se insinuando à reeleição em 2022. Não obstante, insuficiente, mesmo à visível debilidade das instituições, para animá-lo a projetos mais “ambiciosos”, tal como adverte Marcos Nobre, no site da Revista Época:

"O que o impede de consumar desde já seu projeto de destruição da democracia não são pessoas nem instituições. O que ainda segura Bolsonaro é o fato de que ele não conseguiu ainda ampliar o apoio que tem, limitado até o momento a cerca de um terço do eleitorado. Ou seja, quem ainda segura Bolsonaro é a maioria da população brasileira, e não instituições políticas ou indivíduos com capacidades especiais para lidar com bestas feras"

Se tudo isso, enfim, dará ou não certo para o Brasil, o tempo, senhor da verdade o dirá. Para a ONU, segundo relatório de 24 de junho passado, já é um fracasso:

Bolsonaro é listado como “fracasso” em relatório da ONU https://www.cartacapital.com.br/carta-capital/Bolsonaro+%C3%A9+listado+como+fracasso+em+relat%C3%B3rio+da+ONU?fbclid=IwAR08zlm0Df3x1N_eIGmdkSVwVpUge3jQh3WoMlmnh9Dj0H03ogR30ahaJug


 


PORTUGAL É A BOLA DA VEZ DA DIREITA

                                                                   Paulo Timm – 15 de agosto

Em 1848, um filósofo alemão, Karl Marx, notabilizou-se ao lançar um Manifesto dizendo que um fantasma rondava a Europa: O comunismo. Com efeito, naquele remoto ano, no calor das grandes mudanças sociais introduzidas pela Revolução Industrial, as cidades cresciam descontroladamente trazendo no seu bojo grandes massas de miseráveis, sujeitas à penosas jornadas de trabalho, sem quaisquer cuidados trabalhistas, induzindo-as à sucessivas rebeliões. Precisamente em 1848, diversas cidades do continente foram varridas por insurreiçoes que acabariam desembocando na Revoluçao Russa de 1917, inaugurando um novo sistema de organização sócio-econômica na civilização. A China contemporânea é o  mais novo e poderoso expoente deste processo e se prepara para reeditar a antiga Guerra Fria entre USA x URSS, que dominou o cenário internacional de 1947 até 1991, num novo confronto que poderá se limitar à luta pela hegemonia tecnológica ou descambar para o extermínio da vida no planeta sob o holocausto nuclear.

Da tensão entre o capitalismo liberal e a ameaça revolucionária nestes últimos 150 anos emergiu, entretanto, com epicentro na Europa Ocidental, uma forte corrente de caráter centro-reformista que mudaria não só as feições, mas o caráter mesmo das sociedades ocidentais. Um certo John Maynard Keynes, economista, e Max Weber, sociólogo, foram os maiores teóricos desta virada.  Transitamos de um liberalismo doutrinário para a construção de uma democracia social, coroada por um conjunto concêntrico de direitos – civis, políticos, sociais e ambientais – que conformam nossas modernas sociedades de bem estar. Os trabalhadores melhoraram sensivelmente sua qualidade de vida, as mulheres e diversas minorias étnicas se incorporaram ao mercado e à cidadania, as garantias sociais do Estado se ampliaram dando um novo conteúdo ao liberalismo. Não obstante, tensões sociais, acrescidas pela agendas identitárias, senão das nacionalidades, intensificadas nas últimas três décadas por crises financeiras, transformações tecnológicas  e guerras civis em várias regiões do mundo, intensificando correntes migratórias para o centro do sistema, reavivam o confronto ideológico trazendo à tona política novos confrontos.

É neste contexto que crescem na Europa e mesmo na América, correntes de extrema direita que pareciam ter sido asfixiadas com a derrota do nazi-fascismo na II Grande Guerra. Na Unão Europeia, apenasPortugal, Irlanda, Luxemburgo e Malta são os únicos países ainda  imunes à extrema-direita em seus parlamentos. Mas em outros, Partidos considerados de extrema-direita governam sozinhos na Polónia, Hungria e República Checa e em coligação em Itália, Áustria, Finlândia, Letónia, Eslováquia e Bulgária. Além disso, na Dinamarca, o Partido do Povo Dinamarquês dá apoio pontual ao partido do Governo – embora batido nas eleições destes dias:https://www.lavanguardia.com/internacional/20190605/462701798923/resultados-elecciones-dinamarca-bloque-izquierda-socialdemocratas.html?fbclid=IwAR2npoe0jbfDITC_H2TpPezGL2lqPBveImEU9B0-HilzGcnn-gEgCYLXtxQ -  e, em França, o partido de Marine Le Pen ganha terreno. Nas eleições de maio passado, para o Parlamento Europeu, a extrema direita também cresceu.  “Os partidos sob a denominação de extrema-direita são muito heterogéneos, incluindo populistas, nacionalistas, ultraconservadores e até neonazis, e cresceram nos países da UE a partir da combinação da crise económica, as migrações, o descrédito na política e a desconfiança nas instituições”. Sua proclamação é a do retorno aos mercados livres e desregulados, sob o regime de Estado Mínimo Soberano (“América First”, “Brasil em primeiro lugar”), com eliminação de garantias sociais e constitucionais e descrédito cético aos organismos internacionais (ONU – União Europeia)  Acreditam, com isso, voltar às origens inspiradoras do dinamismo original do capitalismo, numa tentativa de “renaturalização” da História.

Portugal neste vasto processo europeu é um pequeno país, com pouca capacidade de indução de rumos mas que tem a particularidade, como ocorreu com o Brasil na década de 80, de impulsionar sua democracia sob  o empuxe da redemocratização do 25 de abril de 1974.  Talvez, graças a isso, tenha subsistido a forte presença da esquerda no seu cenário político, composta por um tradicional e ortodoxo Partido Comunista, com alguma presença no movimento sindical, uma Nova Esquerda similar ao PODEMOS de Espanha e PSOL no Brasil, mais atrativa aos jovens e um vigoroso Partido Socialista, hoje à frente do Governo, denominado “Geringonça” e que foi capaz de dar algum fôlego à desfalecida economia do país. Por isso, Portugal é a bola da vez da extrema direita europeia que aqui reuniu-se sábado passado, sob vigilância do Estado e das forças progressistas, as quais lançaram à Nação um Manifesto de advertência aos riscos da restauração do fascismo no país. Teme-se, por aqui, que os intensos movimentos grevistas, já acentuados no ano passado, recrudesçam e coloquem a Geringonça em risco, dela retirando o apoio de setores mais à esquerda. Neste momento, uma greve dos motoristas de transportes de produtos perigosos mobiliza Governo e Sociedade, colocando sob nova ótica o processo eleitoral previsto para setembro. Pesquisas já demonstram que 27,5% do eleitorado, sobretudo do centro-direita, estaria disposto a votar por uma alternativa de extrema direita que poderia vir a surpreender a Nação. As motivações são as de sempre: denúncias de corrupção governamental, ineficiência dos serviços públicos e perdas salarias. Todos, pois, estão atentos, para não dizer preocupados: O fantasma do fascismo que já assentou-se em vários países europeus ronda, agora, novamente, Portugal”.

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Ja de regresso

 Paulo Timm - Publicado A FOLHA 08 agosto

Últimos dias em Portugal, depois de uma larga volta pelo norte, desde Valpaços, passando pelo Porto, uma pequena “paragem, como dizem por aqui, em Aveiro, a obrigatória visita à Coimbra, o êxtase diante do Castelo de Ordem de Cristo, em Tomar, cidade fundada em 1160 e onde se iniciaram as tratativas de Templários e Judeus para os Descobrimentos, agora em Covilhã, sede de uma nova e já reconhecida Universidade, a Universidade da Beira Interior.  Aqui tivemos hoje, sob o patrocínio da Biblioteca Municipal, um portentoso Palácio que poderia abrigar o Governo do Rio Grande do Sul mas que é dedicados aos livros e leitura, um encontro com Poetas locais. Joaquim Moncks, que me acompanha neste périplo abriu os trabalhos com uma bela exposição sobre “O lugar da Poesia e sua atualidade no mundo de hoje”. Agradou imensamente o pequeno grupo reunido às pressas aqui na cidade e finalizou o evento com uma interpretação de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa e “Minha Pátria”, de Vincicius de Moraes. Homenageou, assim, primeiro Portugal, em seguida o Brasil. Amanhã rumamos para Lisboa, onde, com várias reuniões com editores e escritores, encerramos nossas “férias”.

Por falar em férias, esta é a “saison”, como preferem os franceses. Verão. Na Europa inteira todo mundo sai a passear. O Mediterrâneo ainda é o destino preferido: praia, sol, mar, muito colorido. Mas muitos ainda preferem Paris, a cidade mais visitada por turistas no mundo. Nem sol, nem praia, nem mar. Só História e muita cultura, comprovando a tese de que o bom turismo é o turismo em busca de ideias e não só paisagens. (Quando conseguiremos fazer com que nossas autoridades e empresários locais comprendam isso?) Outros, porém, saem pelos caminhos mais pitorescos do continente satisfazendo curiosidades: Croácia, Polônia, Grécia, Portugal. Este, então, quase já não dá conta de tanta gente chegando e saindo. Na Europa inteira, são quase 500 milhões de pessoas entrecruzando-se por todos os lados. As praças ficam coalhadas de mesas de cafés e restaurantes, em meio as quais passam jovens com mochilas e não poucos artistas com sua arte. Sociedade de massas. Não de segmentos privilegiados. Tudo com cara de classe média trabalhadora. Ontem subimos, eu e Moncks no elevador com um jovem uniformizado como vigilante e o Poeta ficou surpreso, perguntando-me, quando ele desceu no terceiro andar: - Será que ele mora aqui?. Mora, respondi~lhe. A classe média aqui,  que consitui o grosso da populaçaõ, mesmo sendo uma das mais pobres da Europa, tem acesso à sociedade de consumo, inclusive boas moradias. Ganham entre 800 e 1.100 euros, o que equivale à uma média de  R$ 5.000,00. Um casal: R$ 10.000,00. Vivem apertados, mas dignamente, ainda que pensando o ano inteiro nas férias. No Brasil, a classe média é um mero segmento, embora grande, em torno de 50 milhões de pessoas, que cresceu de cima pra baixo, tendo absorvido, neste processo um estilo e percepções mais próprias da Casa Grande do que da Senzala. Não explode em termos quantitativos, sempre barrada pelas “contingências” históricas. E parece que vai continuar assim. Não entendo como, numa economia que é um décimo da brasileira, sem qualquer sofisticação tenológica e industrial, seja possível pagar salários mais altos do que no Brasil...

Buenas, aguarda-nos, agora, nova reunião. Vamos à Belmonte, de onde proveio Pedro Alvares Cabral. Ainda se vê o Castelo, em ruínas da família. Conto na volta como foi...

 

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III Farol Literário de Torres será realizado em novembro

 

Paulo Timm – Portugal, 30 de julho 2019

 

Uma primeira reunião preparatória  do III Farol Literário de Torres, realizada há dois meses,  definiu a data  de 14 a 16 de novembro para o evento e e aprovou pauta básica: Homenagem ao historiador R.R. Ruschel no 20º. Aniversário de sua morte, chamar a atenção das autoridades para o II Centenário Independência do Brasil/2022, Fortalecimento do Vale “Sagrado” do Mampituba, Polo de Cinema de Torres, a ser submetida neste mês de  agosto aos membros  do MOVIMENTO TORRES ALÉM VERANEIO que o impulsiona. Estiveram presentes Inaudi Goulart Ferrari e Rose Ferrari, José Nilton  TeixeiraPaulo TimmJoaquim MoncksMarcia Munari TeixeiraLauro LagoDébora FernandesFlor Carvalho (foto).

Outra reunião da Comissão Organizadora, com a presença do terapeuta e poeta Eduardo Jacques, criador do Farol Literário em 2017, do poeta José Nilton Teixeira, Presidente da Casa do Poeta de Torres e eu próprio, como Coordenador da Casa do Poeta do Vale do Mampituba,   realizou-se na Prefeitura Municipal de Torres com o Secretário  de Turismo, Cultura e Esporte, Fernando Neri, e técnicos da Pasta. A Prefeitura, por primeira vez,  sinalizou apoio mais enfático ao evento que deve ocorrer na Casa da Terra, sugerindo a presença do Comitê Gestor do Geoparque nas discussões sobre a valorização cultural e turística do Vale do Mampituba. A ideia foi prontamente aceita pelos coordenadores que pretendem, até, realizar, concomitantemente um Encontro dos Prefeitos deste vale, com vistas à Proclamação do Vale Sagrado do Mampituba, como primeiro passo para maior desenvolvimento da área.

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Foto: José N. Teixeira, Paulo Timm, E. Jaques, Fernando Neri e Assessora Cultura

 

A Programação do III Farol Literário de Torres deverá ser aberta no dia 14 de novembro, à noite, com a apresentação do 13º. Poesia na Escola, tradicional concurso de Poesia levado a efeito por Roseli e Inaudi Ferrari junto à rede escolar dos municípios de Torres e Passo de Torres. Na ocasião deverá haver a distribuição do livreto Poesia de Bolso editado pela CASA DO POETA DE TORRES, com o apoio da F.M.Cultural , com os poemas vencedores do Poesia na Escola do ano passado. Neste dia está sendo convidada Rita StannIntervenção cultural – La intrusa, Baseado no texto de Eduardo Galeano,   quando os jurados se reúnem para selecionar  os poemas vencedores.

O segundo dia do III Farol Literário contemplará um possível Encontro de Prefeitos e Secretários da Cultura do Vale do Mampituba, iniciando-se  pela Apreciação do Projeto de Valorização Cultural e Turística do VALE MÍSTICO DO MAMPITUBA e  subscrição dos Programas Culturais do RS e SC (Carta de Garopaba), com apresentação de   audio-visual sobre o GEOPARQUE CAMINHOS DOS CÂNIOS. Isso posto, à tarde, haverá encontro com os escritores presentes ao evento, seguido de várias opções: 1. Palco Aberto aos inscritos para recitação de seus poemas sob a coordenadção  de Rejane Vargas, de Grupo Café com Poesia e duas Oficinas de Escrita, com Milton Saldanha e Rozelia Rasia.O dia se encerrará com  um Sarau na Casa da Dindinha, no Passo.

O terceiro dia, sábado, ainda está indefinido mas deverá contemplar uma Mesa Redonda sobre o teme “O homem, este enigma” e um debate sobre Ativismo Cultural sob a coordenação de Vera Barroso e Ana Clara Maciel, criadoras do Projeto RAIZES

Domingo, dia 17, estará aberto para passeio turístico sob a responsabilidade de Geraldo Medeiros.

 

O Farol Literário vai, assim, se consolidando como um importante evento cultural da cidade para o qual todos estão convidados.

 


Colunas autores de Torres e Passo de Torres publicadas em A FOLHA, Torres RSJUNHO e JULHO

 

A COR DA DÚVIDA

Paulo Timm – Publicado em A FOLHA , 5 julho 2019

Li, certa feita, acho que foi na Clarice Lispector, grande romancista brasileira do século XX, que os dias da semana tinham cores, até odores. As segundas eram acinzentadas, terças começavam a ganhar a cor do mar e acavam se confundindo com o céu, as quartas eram amarelas, as quintas, douradas e as sextas, da cor do happy hour, mas sempre tendendo para as espumas flutuantes do chopp... Sábados seriam vermelhos de paixão e domingos da cor da compaixão. Porque hoje é sábado e domingo é família. Escrevo esta crônica às quintas e sempre as sinto como uma dádiva da semana. Que maior regalia do que ser lido, ainda que preso na ansiedade de saber se gostaram ? Sofrimento do poeta: ser vítima do leitor. Sem o leitor, sem o observador, sem o sujeito que fala, nada existe. Só tagarelice ou bilhetes de amor. “No princípio era o verbo”...

Fico pensando no que falar nestes dias gelados de julho. A temperatura do mundo aproxima-se daquela da Guerra Fria, que nos manteve suspensos sob o risco nuclear de 1947 até 1991, quando um dos polos do confronto URSS x Ocidente, desabou. Tudo, então, naquele começo de década parecia róseo, para cujo cenário encaminhavam-se vermelhos e azuis. A ideia do socialismo definhava a olhos vistos sublinhada pela mão forte de La Tatcher e El Regonomics. Os Estados Unidos, no vértice do momento histórico pontificava como grande vencedor e prometia uma globalização glamurosa. Mas daí, quase de repente, embora mediados por anos, vieram os novos desafios: Atentado às Torres Gêmeas de Nova York em 2001, Crise Financeira Mundial em 2008, Guerras no Golfo, Ataques ao Afeganistão, Líbia, Iraque, Guerra Civil na Síria, Crise dos Refugiados no Mediterrâneo. Sobre este pano de fundo, emergiu um novo concorrente, com imenso poder econômico, militar e tecnológico: A China, já dominante no mercado mundial. Imediatamente, o Ocidente, Estados Unidos à frente, abandona a retórica dos anos 90 e reorganiza seus espaços de influência e dominação para uma reedição do clima de guerra. Trump, eleito Presidente há três anos é só a cara visível desta mudança. Seu estilo ganha corpo e relevo internacionais. Uma nova geopolítica do mundo vai se desenhando, na reconcentração de governos, recursos estratégicos, mercados e áreas de influência. De um lado o Ocidente, sob maior controle americano; do outro um eixo ideologicamente diversificado mas unido pelo sentimento de defesa nacional, colando “coisas” tão variadas como China comercial, Rússia nacionalista, Irã xiita, Síria despedaçada e Turquia “erdoganizada”. Entenda-se...

Reflexo disso na América Latina, Brasil incluso, é a polarização que reflete os miasmas ideológicos do século passado. Desaparecem neste redemoinho as forças centristas que, durante um tempo, tergiversavam sobre a Guerra Fria com vistas à mudanças nas suas estruturas coloniais. Os tempos são outros e outras as tendências e lideranças. Pouco espaço para variantes nacionais como

peronismo, aprismo, social-trabalhismo, até tucanagens, que impulsionaram a universalização de direitos de par com a industrialização.

Aqui entre nós esta polarização não dá trégua. A direita, no Poder, “endireita-se” mais ainda sob o comando de um Presidente, ex militar, que decide festejar a data nacional dos Estados Unidos ao lado de Trump , enquanto demoniza tudo o que, mesmo de longe, se assemelhe à ideias esquerdistas, inclusive velhos liberais como o ex-Governador de São Paulo, Geraldo Alkmin, em franco retiro da vida pública. Bolsonaro, enfim, aposta na sua transformação em única alternativa das forças conservadoras, certo de que, contando com seus mais sólidos apoiadores, ditos “autoritários” e “evangélicos” desalojará qualquer outro pretendente à Presidência em 2022, seja ele o tucano João Dória, já em campanha, seja o democrata Rodrigo Maia, Presidente da Câmara, na “campana” da oportunidade, ou qualquer outro aventureiro, tipo Meirelles que se aventure. A esquerda, de sua parte, ainda fortemente dominada pelo PT com seu séquito de Sindicatos e ONGs, aposta na “reversão” ao status quo ante, ou seja, na “re-virada” ao 2016, cujo gatilho seria a libertação de Lula. Reveste esta expectativa, aliás justa, embora difícil, com a mobilização contra a Reforma da Previdência, vendo nos seus impasses sinais de revitalização da força perdida.

Enquanto isso, segue a vida. Difícil para todos os brasileiros, 63 milhões dos quais pendurados na SERASA enquanto grande parte dos pequenos e médios empresários lutam contra a recessão. Ninguém compra. Porque ninguém tem dinheiro. Ninguém investe, porque a confiança nos mercados ainda é baixa. Talvez Bolsonaro tenha errado ao apostar no Ministro Paulo Guedes que jogou tudo na Reforma da Previdência, que agora chafurda no Congresso, à luz das suas consequências negativas para vários segmentos. Pior, o Governo prometeu uma Nova Previdência mais redistribuida mas consolidou privilégios de militares, talvez policiais e grande parte do Legislativo. Aliviou apenas 0,5% na Contribuição Previdenciária – caiu de 8% para 7,5% - dos celetistas, o que, para 50 milhões de brasileiros que ganham Salário Minimo, representa a economia ínfima de R$5,00 ao mês. Piada.

Enfim, vivemos um mundo difícil não só de ser vivido, mas de ser compreendido. Ninguém sabe direito onde está a verdade. A grande maioria, silenciosa, soa na dúvida. Qual mesmo a sua cor...?

 

 

Vou insistir;

O Presidente Bolso errou ao entregar a economia para o POSTO IPIRANGA, de alto teor ideológico neoliberal. Este apostou TUDO NA BALA DE PRATA DA REFORMA DA PREVIDENCIA. Não deu certo. A economia vai de mal a pior à falta de Políticas concretas de retomada do crescimento. Explica-se: Ele é um teórico cheio de ideias e nenhuma experiência na gestão pública da economia. Um Roberto Campos piorado, o qual, aliás, também capitularia em meados de 1966 abrindo caminho no regime autoritário para Delfim Neto. Bolsonaro vai pagar o preço deste erro em perda de popularidade. É o pior Presidente em começo de mandato e já começou a ser vaiado em público, além de denunciado como traidor por uma poderosa facção de seus apoiadores, os policiais. E

quanto mais tardar em substituir o POSTO IPIRANGA por um outro “concorrente” com maior senso prático, mais se enterrará sob negras nuvens...A tal REFORMA PREVIDÊNCIA não passou de uma cortina de fumaça que não trará nenhum benefício no curto e médio prazo. O grande problema fiscal, que é o pagamento de juros da Dívida da União, já perto do valor do PIB, na ordem de R$ 6 trilhões, à razão proxi de 8% a.a. para uma inflação de 3,5%, já consome cinco vezes o valor anual a ser , oportunamente, a partir de 2020, cinco vezes superior ao "economizado" por dita Reforma. Ou seja: R$ 100 bi (economia anual relativa ao trilhão em 10 anos) x R$ 500 bi (juros).

Deu xabu...Getúlio Vargas, lá nos anos 50, além de ter excelências no Ministério da Fazenda - ele próprio foi titular deste Ministério no Governo W.Luiz - , sempre teve, a seu lado, como contraponto, uma vigorosa assessoria econômica com Jesus Soares Pereira e Rômulo de Almeida. JK , idem. João Goulart, também, lembrando-se que a seu lado esteve como Ministro nosso saudoso Celso Furtado. FHC preferiu fazer a redistribuição de Poder não com assessores palacianos, onde pontificava, aliás, seu amigo José Serra, mas com fortes "personalidades" conflitantes, Malan na Fazenda, outro, que variou, no BANCO CENTRAL. Lula também errou ao dispensar o contraditório "econômico", às vezes ocupado informalmente por Dilma Roussef, junto ao Palácio. E, agora, o "analfabeto" Bolsonaro entrega a chave do cofre para um neófito.

É esperar e ver...

Ilustração - A "pizza" dos gastos da União, segundo DIVIDA CIDADÃ, com o registro adicional de que os gastos com PREVIDENCIA aí registrados não são líquidos, mas brutos, ou seja, não consideram que tais gastos são compensados com a Receita Previdenciária, além de outras fontes constitucionais para a Seguridade Social.

DEMOCRACIA SEMPRE FRÁGIL E FUGIDIA

Paulo Timm – A Folha, Torres – 29 de junho

Sou pouco criativo para títulos. A de cima, hoje, recolho de um artigo sobre as origens e perspectivas da democracia no mundo. Gostei de ambos, título e conteúdo e os aproveito nesta reflexão sobre o andamento da democracia entre nós.

Muitos são pessimistas com o Brasi. Eu, ao contrário, sou candidamente otimista. “Cândido, o otimista”, aliás, é o nome de um famoso romance de Voltaire, baluarte do Iluminismo. Mazzaropi, pioneiro do cinema brasileiro e ator, fez uma paródia caipira excelente desta obra com o nome de “Candinho”. Poucos se deram conta, na época da importância deste filme. Mas, nós, aqui nesta foz do Vale Sagrado do Mampituba, tivemos oportunidade de celebrar o último dia .., DIA DO CINEMA NACIONAL, vendo e comentando este filme lá nas quintas de ENCONTRO DE GERAÇÕES, no Quintal da Dindinha. Todos adoraram. Tudo isso pra dizer que sou “candidamente” de bom humor com o que foi e o que será...Acho que um país que saiu ,em 1900, de uma lavoura escravista de café, arranhando o litoral com de 13 milhões de almas, grande parte penadas nos grotões sertanejos, para, em cem anos, chegar a 200 milhões, em torno de um Estado, bem ou mal, muito mais organizado do que a maioria dos demais membros da ONU, com uma economia e mercados vertebrados graças a 60 anos de crescimento ininterrupto na ordem de 6,5% a.a. , cumpriu um grande feito. Os pessimistas dirão: Mas 100 milhões vivem em condições sub-humanas na periferia das metrópoles! Há 24 milhões de desempregados e no desalento! A concentração da propriedade, da renda e do prestígio é brutal! Nunca tivemos democracia, a não ser esporadicamente, na regra geral dos regimes autoritários! Temos 13 milhões de analfabetos e um pouco mais, apenas, de brasileiros com nível superior, sendo que a maioria é analfabeto funcional! A corrupção graça! O Brasil, enfim – e gritam - _ NÃO DEU CERTO.

Ora, tudo o que os pessimistas alegam não deixa de ser verdade. Mas é meia verdade. A indagação correta deve ser: - E como tivemos tal crescimento demogrático? Como montamos uma economia industrial que exporta aviões – EMBRAER – e um agronegócio que alimenta o mundo em grãos e proteína animal? E uma vigorosa agricultura familiar que alimenta as cidades com produtos de boa qualidade e preço baixo? Então respondo Porque soubemos aproveitar as brechas de um sistema extremamente regressista, oriundo do regime colonial e persistente no Império para avançar alguns passos institucionais que permitiram as transformações. Rigorosamente, sempre repito, fomos a CHINA do século XX. Ao longo dos anos 1930 até há pouco, criamos sistemas educacionais de longo alcance, que já conseguiu suprir todas as demandas do ensino fundamental, embora carente de qualidade. Montamos um sistema de atentimento universal de saúde, através do SUS que é um modelo para muitos países ditos desenvolvidos, que ainda vêem seus concidadãos chegarem a verdadeiros ataque de nervos às portas de Hospitais por não terem dinheiro para internar seus doentes. O sistema financeiro público consolidado no Banco do Brasi, CER e BNDES é simplesmente invejável e capaz de orientar tecnicamente as autoridades econômicas sobre o andamento das conjunturas no campo e na cidade. Depois da Constituição de 1988 ainda conseguimos estender aos menos favorecidos da sociedade os estímulos de ações afirmativas com cotas raciais e sociais nas Universidades e no Serviço Público, Bolsa Família, apoio à Agricultura Familiar, acesso à casa própria e vários outras políticas compensatórias às desigualdades gritantes.

É claro que não completamos as tarefas da construção da cidadania e de reorganização do Estado, ainda reticente à democratização interna com a eliminação de castas privilegiadas no seu interior, mas caminhamos muito e precisamos seguir o curso que deu certo, evitando inovações que, em nome de uma suposta “modernidade” acabam nos levando para o século XIX, com a desmontagem de direitos sociais em nome de uma suposta eficácia dos mercados. Eficiência, sempre bom que se diga, é uma categora de meios, não de fins. Na crise do regime escravocrata muitos também alegavam sobre a necessidade de consertar as insuficiência do sistema e insistiam na tese do destino inevitável do Brasil como exportador de café. Foi necessário fixar novos horizontes, como a substituição do moribundo regime imperial e, depois, a mudança da Velha República, ambas com o inevitável recurso às armas precisamente pela debilidade das instituições democratizantes no interior do Estado, para abrir caminhos. Hoje, estamos diante de novos desafios, no sentido de reforçar as instituições existentes já consagradas pela nova realidade social do país, sedenta de inclusão social. Temos um amplo pertecimento da população ao eleitorado nacional, temos liberdade de opinião e organização, que se traduz pela existência de 32 Partidos no Congresso, representando isso um viés inédito de ruptura das velhas oligarquias familiares, temos sólidas ONGs operando em vários campos na defesa do meio ambiente, de populações vulneráveis, temos o acesso garantido às Redes Sociais. Falta, apenas nos mobilizarmos para as mudanças requeridas pelo nosso tempo. Sem atropelos, sem medo às ameaças e retrocessos, mas com firmeza de propósitos.

Como diz Renato Janine Ribeiro, em recento post no FACE : Temos que reunir força política para as mudanças. Tem razão. Mas reunir dentro da democracia, para a democracia, ainda que frágil e fugidia, mas avançando sempre rumo a um ideal, como quem persegue o arco-íris. Afinal, para isso servem as utopias (Galeano): Para nos iluminar o caminho.

 

 

AÍ VINDES OUTRAS VEZ INQUIETAS SOMBRAS

Horacio Luna

O título acima é de uma passagem de Capitu, de Machado de Assis. O eterno assombro das trevas sobre as luzes aparentemente visíveis. Sóis e luas, se sucedendo.Sobrepondo-se. Quando se menos espera, fatos novos, novas interpretações, narrativas distintas. Isso ocorre, agora, com a conjuntura nacional. De uma hora para outra, o paladino da guerra contra a corrupção, ex-Juiz Sérgio Moro, atual Ministro da Justiça, é bombardeado pela divulgação de seus diálogos, não confirmados por ele, com membros da Força Tarefa da Lava Jato, visivelmente comprometedores de sua imparcialidade. O assunto explodiu na Imprensa e nas Redes Sociais depois que a INTERCEPT liberou ao público fragmentos da interceptação de seus telefonemas em 2017. Prometem mais. E o Ministro teve que se explicar nesta Semana junto ao Senado, devendo voltar, nesta próxima à Câmara. Constrangimento. Óbvio.

De que acusam o ex- Juiz Moro? De haver atuado no Comando da Lava Jato com tendenciosidade, mais inclinada a prejudicar a esquerda e, notadamente o ex-Presidente Lula. Os advogados e defensores de Lula, aliás, sempre o denunciaram como tendencioso, tendo, até arguido isso junto à instâncias superiores. Mas não havia provas. Só argumentos e indícios. Agora dizem: - Está aí a prova! Sua interferência junto à Força Tarefa, da qual, como Magistrado não fazia parte, mudando procuradores, indicando testemunhas, poupando figurões, como ex Presidente FHC, supostos aliados do “trabalho” de limpeza do convés político do país.

A eles, o ex Juiz – bem como os membros da Força Tarefa -, alega duas coisas: Não reconhece as dicções publicadas pela INTERCEPT e os acusa, ademais, como criminosos por haverem hackeado sua privacidade. Estes argumentos alimentam as forças governamentais hoje sob o comando, ainda que desconjuntado, do Presidente Bolsonaro que acrescentam: - Moro é um Patrimônio da luta contra a corrupção no Brasil. Quem o acusa está defendendo a bandidagem.

Sobre este pano de fundo, cada mais desportivo, em que a camiseta das duas forças polarizadas substitui o curso mais fundo das argumentações, capazes de construir alternativas, Moro compareceu ao Senado. Saiu-se bem, segundo a maior parte dos analistas. Em nenhum momento foi colocado nas cordas com o risco de sair daquele Plenário demitido do cargo que ocupa. Até se deu ao luxo de desdenhar: - Não tenho apego ao cargo. Se for provado que cometi irregularidade, saio do Ministério. Na verdade, saiu-se bem politicamente, demonstrando tranquilidade no enfrentamento com a Oposição e inequívoco domínio dos assuntos sobre os quais discorre. Afinal, passou quatro anos à fretne da Lavajat e, bem ou mal, tem uma formação, senão como intelectual, ao gosto do bovarismo brasileiro, de boa formação profissional. Já os Senadores, muitos dos quais sequer haviam lido os relatórios da INTERCEPT não demonstraram competência para encurrará-lo. Os governistas, aliás, nada fizeram senão repetir as alegações oficiais de criminalização dos hackers. Nenhuma palavra de censura à eventuais deslizes éticos do Juiz. O Senador Alvaro Dias, chegou ao cúmulo de enaltecer “os novos métodos de combate à corrupção”, sem enumerá-los e nominá-los. Com isso equiparou-se ao Presidente Duterte, nas Filipinas, que se elegeu e governa, também, com “novos métodos” de combate ao narco-tráfico: assassinatos em massa...

Resta-nos diante desta grande confusão indagar: Será que não existe a verdade?

Ela até pode existir. Mas não é de fácil apreensão, sobretudo no campo da vida social e política.

Os antigos, antes da Filosofia, se comportavam com parcimônia diante da dita realidade. Diziam que em tudo no mundo há o justo e o injusto e ambos são igualmente justificáveis. Mas aí chegaram, no tempo do Grande Péricles, em Atenas, no século V AC Sócrates, Platão e Aristóteles

e começaram a afirmar que a verdade existe sim e se revela nela própria desde que sejamos capazes de compreender as suas leis internas. Aí nasceu a Ciência, primeiro as exatas, depois as humanas. E fomos criando a ideia de que é possível recolher a verdade dos fatos e processos sociais em curso. Não tem dado certo. A discórdia subsiste no campo da Política dando espaço, cada vez mais, à ideia de um velho Filósofo contemporâneo, que recém completou 90 anos, Jurgen Habermas, de que a saída não é perseguir verdades, mas consensos. Certos ou errados, uma vez definidos como um curso por ampla maioria da Sociedade, eles podem criar uma perspectiva de paz e progresso mais estável. Isso, porém, é fácil de dizer, mas muito difícil de fazer. Preferimos as paixões e por elas vivemos e até morremos. Às vezes, matamos.

Antes, pois, que se conheça a verdade total da Lavajato no Brasil e seu papel na História recente do Brasil, muito sofrimento correrá por baixo da ponte, levando consigo oportunidades perdidas, senão, lá pelas tantas, até o grande sonho de uma grande nação multicultural, democrática e com um brillante porvenir...

ESTILO BOLSONARO: “Tò nem aí!”

Horácio Luna -

Há uns 15 anos, tempo em que a INTERNET engatinhava e o FACE nem existia, eu escutava muito, aqui nas nossas rádios, uma canção com este refrão: - Tô nem aí!Tô nem aí... Confesso que não me lembro quem são autor e intérprete, uma moça, mas guardei o mote. Hoje, tentando encontrar uma definição para o estilo do nosso Presidente da República, ele me veio de relance. Bolsonaro não é fascista, não é neoliberal, não é fanático. Ele é do gênero:- “Tô nem aí!”. Nesta semana, sofreu revezes contundentes em várias frentes: O Supremo vetou sua decisão de acabar com os Conselhos Consultivos, tão ao gosto, sobretudo, na Era Petista; O Senado torpedeou sua tentativa de armar o cidadão; a Câmara, através do Relator da Emenda Constitucional da Reforma da Previdência, soterrou, dentre outros pontos, o otimismo do Ministro Paulo Guedes de mudar o sistema público de Previdência Social para um Sistema Privado de Garantias contra o futuro. Como se não bastasse, a pérola do seu Ministério, o ex juiz Moro, foi “vítima” de poderoso ataque às suas conversas pouco republicanas com membros da Força Tarefa da Lava Jato, denunciando conluio da Justiça com o Ministério Público com sentido político. Um verdadeiro dilúvio, portanto, contra o Governo recém empossado e que tem como Oposição apenas 150 gatos pingados na Câmara. Bolsonaro, porém, impávido, embora não propriamente sereno, pois estampa à luz do dia as alegadas noites de insônia e ranger de dentes, segue seu curso. Quem lhe toma as dores, às vezes, apesar de que, desta vez calado, é o filho Carlos – o Carlucho, ou Pitbull – que desanca nas redes supostos e ameaçadores inimigos de seu pai, geralmente sentados na sala ao lado. A tudo isso, Bolsonaro, segue em frente – ou em círculos - : - Tõ nem aí...Tô nem aí....!

Analistas, entretanto, preferem os modelos interpretativos mais sofisticados sobre o estilo do Presidente.

Para seus defensores, ele é um mito, sem se darem conta de que mito, como diz Rollo May : "é um modo de dar sentido a um mundo sem sentido”. Mostram, a propósiteo sua grande capacidade de falar não só com seu público – evangélicos, autoritários e sanitaristas da vida pública -, mas com o povão mesmo. Com efeito, ele não tem o perfil do trabalhador de macacão ou do retirante nordestino, como o Lula, mas tem o jeitão da classe média-média, que frequenta os quiosques das praias e botequns dos subúrbios, que

joga pelada aos sábados nos “Veludos” da vida, que conta e ri de piadas do papagaio e do português, que está com ficha suja no SERASA. Daí ele recolhe estas ideias esdrúxulas de que tem acabar com os pardais do trânsito, dar um fim na farra das cotas raciais e “privilégios” de quilombolas e populações indígenas.- “Somos todos brasileiros, reitera. Ninguém pode ter privilégios”. À socapa, no entanto, diz que são os empresários do agrobusiness e das cidades que devem dar as cartas sobre os rumos do país – tanto que os indica como Ministros - e não titubeia em fazer continência à bandeira americana, aquele paraíso ao qual esta pequena burguesia sonha ir viver algum dia. Contradição? Sim, mas estas contradições, em forma de “achismo”, avessas às instituições responsáveis, às pesquisas e ao bom senso povoam todo o ideário do ambiente que ele , Bolsonaro, cultua.

Já os mais críticos a Bolsonaro o identificam como expressão tropical do Presidente Trump, considerado o arauto do Faktóides News, tipo de governança bombástica, sem muita consistência interna. Alegam e contam as mentiras – ou pós-verdades – do nosso Presidente, já tendo chegado em cinco meses e meio a perto de 200... A força-tarefa de “Aos Fatos “demonstra que nas dez primeiras semanas de mandato ele teria , em média, uma “informação equivocada” por dia. Mas apontam também seu estilo altaneiro, pouco afeito à coordenação dos Ministros, que ficam à base do cada um por si , Eu por todos... Aí se soma sua relação difícil com os parlamentares, a quem sistematicamente identifica com a Velha Política, deixando-os como responsáveis pelos destinos dos projetos que para envia ao Congresso Nacional. E se regozija, pois sabe que a sua turma vai dizer: - “São os políticos corruptos que não deixam o Homem governar”. Quero dizer com tudo isso: Enganam-se os que pensam que Bolsonaro é idiota e que está isolado...

Enfim, a esquerda, insiste: Bolsonaro é fascista! Talvez seja. Na verdade, o dito nazi-fascismo foi uma expressão totalitária da direita contra o avanço da esquerda no pós I Guerra Mundial, com característica e data marcada. Parecem-se.Hoje a contenção da esquerda no mundo ocidental tem outros métodos e outras práticas, inscritas no que se tem denominado de Guerra Híbrida, na qual se extingue o espaço da guerra como continuação da Política por outros meios e se promove um novo Estado de Direito com base no alguns chamam de Lawfare, uma visão pouco garantista de direitos nesta Nova Era de artefatos eletrônicos. Vamos ter que viver ainda alguns anos para verificar com mais precisão do que se trata o momento que estamos vivendo. Até lá, é aguentar o tranco. Mas devagar, Presidente, que o santo é de barro, do mesmo barro com que o Criador fez a nossa espécie.

ESTILO BOLSONARO: “Tò nem aí!”

Horácio Luna -

Há uns 15 anos, tempo em que a INTERNET engatinhava e o FACE nem existia, eu escutava muito, aqui nas nossas rádios, uma canção com este refrão: - Tô nem aí!Tô nem aí... Confesso que não me lembro quem são autor e intérprete, uma moça, mas guardei o mote. Hoje, tentando encontrar uma definição para o estilo do nosso Presidente da República, ele me veio de relance. Bolsonaro não é fascista, não é neoliberal, não é fanático. Ele é do gênero:- “Tô nem aí!”. Nesta semana, sofreu revezes contundentes em várias frentes: O Supremo vetou sua decisão de acabar com os Conselhos Consultivos,

tão ao gosto, sobretudo, na Era Petista; O Senado torpedeou sua tentativa de armar o cidadão; a Câmara, através do Relator da Emenda Constitucional da Reforma da Previdência, soterrou, dentre outros pontos, o otimismo do Ministro Paulo Guedes de mudar o sistema público de Previdência Social para um Sistema Privado de Garantias contra o futuro. Como se não bastasse, a pérola do seu Ministério, o ex juiz Moro, foi “vítima” de poderoso ataque às suas conversas pouco republicanas com membros da Força Tarefa da Lava Jato, denunciando conluio da Justiça com o Ministério Público com sentido político. Um verdadeiro dilúvio, portanto, contra o Governo recém empossado e que tem como Oposição apenas 150 gatos pingados na Câmara. Bolsonaro, porém, impávido, embora não propriamente sereno, pois estampa à luz do dia as alegadas noites de insônia e ranger de dentes, segue seu curso. Quem lhe toma as dores, às vezes, apesar de que, desta vez calado, é o filho Carlos – o Carlucho, ou Pitbull – que desanca nas redes supostos e ameaçadores inimigos de seu pai, geralmente sentados na sala ao lado. A tudo isso, Bolsonaro, segue em frente – ou em círculos - : - Tõ nem aí...Tô nem aí....!

Analistas, entretanto, preferem os modelos interpretativos mais sofisticados sobre o estilo do Presidente.

Para seus defensores, ele é um mito, sem se darem conta de que mito, como diz Rollo May : "é um modo de dar sentido a um mundo sem sentido”. Mostram, a propósiteo sua grande capacidade de falar não só com seu público – evangélicos, autoritários e sanitaristas da vida pública -, mas com o povão mesmo. Com efeito, ele não tem o perfil do trabalhador de macacão ou do retirante nordestino, como o Lula, mas tem o jeitão da classe média-média, que frequenta os quiosques das praias e botequns dos subúrbios, que joga pelada aos sábados nos “Veludos” da vida, que conta e ri de piadas do papagaio e do português, que está com ficha suja no SERASA. Daí ele recolhe estas ideias esdrúxulas de que tem acabar com os pardais do trânsito, dar um fim na farra das cotas raciais e “privilégios” de quilombolas e populações indígenas.- “Somos todos brasileiros, reitera. Ninguém pode ter privilégios”. À socapa, no entanto, diz que são os empresários do agrobusiness e das cidades que devem dar as cartas sobre os rumos do país – tanto que os indica como Ministros - e não titubeia em fazer continência à bandeira americana, aquele paraíso ao qual esta pequena burguesia sonha ir viver algum dia. Contradição? Sim, mas estas contradições, em forma de “achismo”, avessas às instituições responsáveis, às pesquisas e ao bom senso povoam todo o ideário do ambiente que ele , Bolsonaro, cultua.

Já os mais críticos a Bolsonaro o identificam como expressão tropical do Presidente Trump, considerado o arauto do Faktóides News, tipo de governança bombástica, sem muita consistência interna. Alegam e contam as mentiras – ou pós-verdades – do nosso Presidente, já tendo chegado em cinco meses e meio a perto de 200... A força-tarefa de “Aos Fatos “demonstra que nas dez primeiras semanas de mandato ele teria , em média, uma “informação equivocada” por dia. Mas apontam também seu estilo altaneiro, pouco afeito à coordenação dos Ministros, que ficam à base do cada um por si , Eu por todos... Aí se soma sua relação difícil com os parlamentares, a quem sistematicamente identifica com a Velha Política, deixando-os como responsáveis pelos destinos dos projetos que para envia ao Congresso Nacional. E se regozija, pois sabe que a sua turma vai dizer: - “São os políticos corruptos que não deixam o Homem governar”. Quero dizer com tudo isso: Enganam-se os que pensam que Bolsonaro é idiota e que está isolado...

Enfim, a esquerda, insiste: Bolsonaro é fascista! Talvez seja. Na verdade, o dito nazi-fascismo foi uma expressão totalitária da direita contra o avanço da esquerda no pós I Guerra Mundial, com característica e data marcada. Parecem-se.Hoje a contenção da esquerda no mundo ocidental tem outros métodos e outras práticas, inscritas no que se tem denominado de Guerra Híbrida, na qual se extingue o espaço da guerra como continuação da Política por outros meios e se promove um novo Estado de Direito com base no alguns chamam de Lawfare, uma visão pouco garantista de direitos nesta Nova Era de artefatos eletrônicos. Vamos ter que viver ainda alguns anos para verificar com mais precisão do que se trata o momento que estamos vivendo. Até lá, é aguentar o tranco. Mas devagar, Presidente, que o santo é de barro, do mesmo barro com que o Criador fez a nossa espécie.

NUVENS NEGRAS SOBRE SOBRE O AMBIENTE

Paulo Timm – ex-secretário do Meio Ambiente do Distrito Federal -

 

Nesta semana, com epicantro no dia 5, considerado o Dia Mundial do Meio Ambiente pela ONU, fervilharam no país inteiro cerimônias, palestras, entrevistas e até festejos, como aqui no Passo de Torres, onde não faltou a apresentação de um grupo de dança açoriana, todas celebrando a vida no planeta. A data foi insituida pela ONU como lembrança a um dos primeiros foruns internacionais dedicado ao tema e que teria seu grande congraçamento na famosa RIO-92, realizada no Rio de Janeiro, com a presença de perto de 200 líderes mundiais. Ali demarcou-se o fim do produtivismo sem peias, calcado na falsa ideia da inesgotabilidade dos recursos naturais, apesar de suas grandes conquistas, dentre elas a expansão em um século – 1900/2000 – de uma população global de 1,2 para 7 bilhões de pessoas no mundo. Desde então, o Brasil vinha ocupando um papel protagônico na defesa do desenvolvimento com sustentabilidade, ou seja, um padrão de crescimento que cuidasse não só de elevar a produção mas o fizesse com base no tripé eficiência econômica, justiça social e cuidados ambientais. Temos uma legislação ambiental primorosa, montamos em todos os níveis da administração pública vigorosa estrutura instucional de controle, desenvolvemos consideravelmente os recursos humanos para o tratamento da matéria, vimos se organizarem no país inúmeras ONGs de defesa do meio ambiente, criamos uma consciência nova e moderna sobre o meio ambiente no país. Por isso mesmo, as celebrações da Semana do Meio Ambiente no Brasil, tenham, neste ano, ficado cercadas de preocupações. Sobre elas pairou um clima tenso de preocupações, pois o novo Governo Bolsonaro voltou aos anos da soberania do produtivismo, estigmatizando todo o avanço que havíamos conquistado em termos de sustentabilidade até agora. Nisso aliás, ele tem sido coerente, pois foi exatamente isso que prometeu durante a campanha: Enquadrar “ambientalismo” em nome do “desenvolvimento”, onde não faltam algumas pérolas no sentido de apontar a luta ambiental como uma conspiração chinesa...

A reação, entretanto, tem sido muito forte. André Trigueiro, comentarista da Rede Globo publicou o que considera como pauta do desmonte de Bolsonaro da Política Ambiental, a saber - :.

1. Enfraquecimento do Ministério do Meio Ambiente

2. Revisão de todas 334 Unidades de Conservação

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou a revisão de todas as Unidades de Conservação do país, desde o Parque Nacional de Itatiaia (criado em 1934) até o Refúgio da Vida Silvestre da Ararinha Azul (criado em 2018).

3. Fim das Reservas Legais Projeto de Lei do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) defende o fim das Reservas Legais – área protegida que não pode ser desmatada em propriedades rurais – alegando o "direito constitucional de propriedade".

4. Freio na fiscalização

De janeiro a maio, o número de multas aplicadas pelo Ibama por desmatamento ilegal foi o mais baixo em 11 anos. A queda foi de 34%.

5. Ibama anuncia onde fiscais vão reprimir os crimes ambientais

6. 'Cancún brasileira numa Estação Ecológica'

7. Afastamento do fiscal que multou Bolsonaro

Três meses depois da posse do presidente, o chefe do Centro de Operações Aéreas da Diretoria de Proteção Ambiental do Ibama, José Augusto Morelli, foi afastado do cargo.

8. Presidente do ICMBio se demite depois de ameaça do Ministro Salles

9. Salles nomeia policiais de SP em lugar de especialistas em biodiversidade

10. Desmantelamento da Política Climática

Quando o assunto é aquecimento global – a maior crise ambiental deste século com inúmeros impactos sobre o Brasil –, Salles costuma classificar o tema como "acadêmico" e "não prioritário".

11. Fundo Amazônia pode desaparecer

Ricardo Salles causou enorme constrangimento aos financiadores do Fundo Amazônia (Noruega e Alemanha contribuem com 95% dos recursos, que somam mais de R$ 3 bilhões) ao convocar uma entrevista coletiva para criticar o modelo de gestão do projeto.

12. Sinal verde para a exploração de petróleo em Abrolhos

13. Menos verde com o novo Código Florestal O governo já anunciou que vai ressuscitar a MP 867 (aprovada na Câmara e "enterrada" pelo Senado na semana passada) que muda as regras do Código Florestal. Só falta decidir se o fará mediante uma nova Medida Provisória ou Projeto de Lei

14. A indignação de 8 ex-ministros do Meio Ambiente

15. TCU enquadra Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente

O Tribunal de Contas da União abriu na semana passada um processo para investigar a política ambiental do governo https://g1.globo.com/natureza/blog/andre-trigueiro/post/2019/06/03/15-pontos-para-entender-os-rumos-da-desastrosa-politica-ambiental-no-governo-bolsonaro.ghtml

 

A indignação de 8 ex-ministros do Meio Ambiente, citada, veio através de reunião e nota de titulares da pasta nos últimos governos, igualmente preocupados com o desmantelamento da Política Ambiental. "Estamos diante de um risco real de aumento descontrolado do desmatamento na Amazônia. Os frequentes sinais contraditórios no combate ao crime ambiental podem transmitir a ideia de que o desmatamento é essencial para o sucesso da agropecuária no Brasil. A ciência e a própria historia recente do País demonstram cabalmente que isso é uma falácia e um erro que custará muito caro a todos nós", diz a nota.

Concelebremos, pois, a vida nesta Semana do Meio Ambiente , , mas reflitamos um pouco, também sobre as negras nuvens que se abatem sobre as conquistas ambientais que já dávamos, até, como se fossem cláusulas pétreas do nosso desenvovimento, sobretudo depois do anúncio de que cresceu desmesuradamente o desmatamento da Amazônia nos últimos meses

PACTO ENTRE OS TRÊS PODRES? Oressa...

 

Horacio Luna – Cronista Politico. Publicado em 30 maio

O mês de maio ficou pra trás. Deixou como rastro da conjuntura duas grantes manifestações de rua: Dias 15 e 30 , contra o Governo; dia 26, a favor - https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/05/26/manifestacoes-a-favor-de-bolsonaro-x-protestos-contra-cortes-na-educacao.ghtml. Ambas de certo vulto envolvendo centenas de milhares ao relento em cerca de 150 cidades do país. Militantes de um e outro lado medem o tamanho de cada uma delas, num campeonato meio juvenil: - O meu é maior! Bobagem. O que importa é ressaltar que há um governo legítimo, eleito por 58 milhões de votos, há cinco meses em funções, e há uma oposição, que fez 47 milhõesde votos à qual se associam outros tantos insatisfeitos com gregos e troianos. O Governo tem que governar para todos e não só para seus eleitores. E há o fato, fartamente sabido, que o Presidente eleito o fez com um discurso anti-stablishment, à margem do sistema político tradicional – Congresso Nacional, Partidos Políticos, Aparatos de Estado, Imprensa, Sociedade Civil organizada. Não obstante, com um Partido novo e pequeno, com 10% de assentos no Parlamento, sem ideologia definida e lideranças consolidas, é com este “sistema” que ele tem que trabalhar. Faz parte do jogo republicano, ao qual se adaptaram as monarquias constitucionais modernas. Soberano, neste sistema, é o povo, cidadão, eleitor. A cabeça do Poder é uma mera circunstância, condenada a ceder lugar, nas próximas eleições a outra pessoa que poderá, aliás, ter outra inspiração ideológica. O Presidente é como o Poeta, vale pelos seus versos, jamais pela sua própria pessoa.

Conta-se, sobre as origens da República , na sua instauração em 1776, nos Estados Unidos, num tempo ainda dominado por Monarcas Absolutistas no mundo, que faziam e desfaziam nos seus tronos, que os Pais da Pátria daquele país tinham duas coisas em mente: Queriam, de uma parte, uma figura central no Governo, sim, mas por tempo determinado, rotativo, afim

de que não criasse raizes que inevitavelmente o levariam ao abuso do Poder; de outro lado, cuidaram que, mesmo neste período em que detivesse o poder central, este ficasse limitado por um complexo controle de freios e contrapesos, começando pelo Legislativo, representante de todos os eleitores e culminando pelo arbítrio final do Judiciário. Disso, portanto, se trata a República Democrática: Ninguém tem Poder total e absouto. Há uma teia institucional, consubstanciada no sistema de Leis vigentes e corpos públicos e privados que lhe vertebram.

O Presidente Bolsonaro, entretanto, não deve ter no seu currículo as leituras sobre o que é o Poder ao qual ele foi guindado: República e Democracia . Continua impulsionado pelo ímpeto da reinvenção do Brasil com base no seu plano de campanha. Não compreende a intrincada matriz que o condiciona. Quer porque quer e fulmina, via redes sociais, todos aqueles que, mesmo do seu próprio Governo ou Partido, entende como obstáculos à sua soberana vontade. Isso tem uma nome: Pré-política. Daí as críticas destemperadas a Ministros, IBGE, UNIVERSIDADES, ENEM, FIOCRUZ, IBAMA etc.

Nesta semana, por exemplo, houve por bem convidar – ou convocar – o Presidente do Supremo e os Presidentes da Câmara e Senado para firmarem um Pacto pelas Reformas no Brasil. Caiu mal. Os três Poderes, na forma da Constituição – e da Doutrina – são compulsoriamente independente e harmoniosos. Pacto – ou trégua – se faz com inimigos e adversários. Ora, muitos perceberam que sequer o Vice Mourão pousou na foto do Dia do Pacto. Sinal de que só foram chamados os “mui amigos”. Ora, com amigos se faz festa, não pactos. Estes são concertações com quem pensa e age diferente da gente para a consecução de grandes tarefas como defesa contra invasão estangeira, catástrofe irrecorrível, crise aguda, nunca para consecução de programas governametais. Maior erro, entretanto, foi a presença do Presidente, sempre trapalhão, do Supremo ao feito, pois, como chege do Judiciário não lhe cabe defesa de ações executivas contra as quais poderão advir reclamações de insatisfeitos as quais deverão ser julgadas com um mínimo de netrualidade política. Presciamento por isso, até os juízes protestaram através de várias notas- . Tudo errado. Mas ainda há tempo. Vejamos o que nos reserva o mês de junho...

Área de anexos

● molhes não vão terminar? Já está chegando o verão...

 

 

Rua Beira Rio, 970 - Centro - Passo de Torres - SC, 88980000 Passo de Torres

·

O espaço cultural Quintal da Dindinha é um coletivo cultural de iniciativa privada que desenvolve atividades múltiplas na arte, na literatura, no artesanato, na dança, no patrimônio histórico, na gastronomia, em práticas em prol do meio ambiente, da valorização do ser humano, respeito com os outros animais, etc.

A ideia

Em 2018, eu, Jaime Batista, minha esposa Tanise Wandrey Cardoso e meu filho Tales Wandrey Cardoso Batista retornamos de Florianópolis, onde moramos de fevereiro de 2016 a setembro de 2018. Voltamos para Passo de Torres em nossa casa. A casa estava alugada anteriormente para um restaurante (Kazu) e em julho de 2018 o inquilino nos devolveu o imóvel. Em setembro voltamos a ocupá-la na parte de cima. A parte de baixo nós colocamos para alugar, porém queríamos algo diferente, não somente um espaço gastronômico. Quando surgiu a ideia de usar o espaço para atividades culturais. Na busca de parceiros firmamos um acordo em representar a Passo de fibra, que é um grupo de artesãs que produzem trançagem com fibra de taboa e butiazeiro. Também no artesanato convidamos os o artesão Cunha e Pezão para exporem suas peças. Logo depois fechamos parceria com os professores de violão, vocal, contrabaixo, entre outros instrumentos, os amigos Rossano Duary e Celso Jardim. E no começo de janeiro encontramos o professor Luiz Felipe Kunz, que já há muito tempo toca o projeto Elsa Engel, que tem como objetivo ensinar gratuitamente pessoas de diversos perfis. As aulas iniciaram dia 16 de janeiro de 2019 com 10 alunos e contam com dois pianos elétricos e sete teclados. Propomos também parceria com a fotógrafa Taís Abel, com Ondina e Tufony para atividades circenses, com o músico Buba, com as artistas plásticas Nil e Renata Reis, com o artista plástico Jorge Herrmann, com a Professora de mosaico Flávia Chaves e seu esposo Nirley Ribeiro, que também é músico. Além dos parceiros que já estão dentro dessas ideias, nós, do Quintal da Dindinha estamos buscando novas ideias para poder desenvolver no nosso espaço cultural.

O público alvo

O espaço Cultural Quintal da Dindinha promove aulas de música, de artes plásticas, de outros setores da arte, além de promover feiras, vernissage, saraus, recitais, atividades da literatura, xadrez, patrimônio histórico.

 

Jaime Batista – Historiador

 

CRONICA DA CIDADE – A FOLHA, Jornal Torres RS

OUTONO

Fabio Marenco

Passo de Torres tem surpreendido toda a região onde está inserida nesta estremadura do sul catarinense. De uma desdenhada vila de pescadores até a construção da ponte de concreto que a transformou num verdadeiro bairo de Torres, a cidade cresceu, se multiplicou, passando de 4.000 para cerca de 12 mil atuais e promete ir muito longe. Não lhe faltam espaço para a ampliação urbana, nem oportunidades de investimento produtivo, nem disposição de sua gente. As autoridades municipais, aqui, não correm o risco que correm Torres, cada vez menor e em vias de perder o acesso à BR 101 no dia em que a Vila São João alcançar sua autonomia. Tudo indica que o Passo, em breve, se fará ainda mais presente nestas paragens. Além disso, detém uma faixa de perto de 15 km de balneários bastante procurados e, mais recentemente vem despertando uma especial vocação como área boêmia. Os Saraus do dia 15 ,no Quintal da Dindinha continuam surpreendendo muita gente pela alegria contagiante, típica de grupos ligados à cultura e underground sempre, com momentos poéticos encantadores. Dois outros pontos divertidos da cidade são os bailes vespertinos dos sábados no Mirante das Águas, na Beira Rio, inaugurado pela Professora Ledir Bristot, há alguns anos, e os encontros dançantes da terceira idade no Centro de Convivência, reconstruído depois de um temporal que quase o leva abaixo.

Falando em Ledir Bristot, prestamos-lhe homenagem nesta fase de sua vida em que os contratempos de saúde a retiram de um convívio mais efetivo conosco. Enquanto esteve ativa desenvolveu muitas atividades entre nós, dentre as quais a iniciativa de criar a Casa do Poeta de Passo de Torres, com a edição da I Antologia de Poetas, sob o título “Vozes do Mar”.

Aledir Bristot nasceu no primaveril 20 de setembro de 1942, em São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul. Formou-se em Letras Indoeuropeias pela UNISINOS, em São Leopolodo, vindo, depois a graduar-se em História pela Faculdade Portoalegrense. Fez Mestrado em Linguística e Letras na PUCRS complementando a formação acadêmica com o Doutorado na Universidade de São Paulo. Em 1989 veio para o Passo de Torres, lecionando na Escola Estadual Ildo Meneghetti. Deu o primeiro passo, em companhia do Poeta Joaquim Moncks para a montagem da Casa do Poeta de Torres, daí resultando a citada Antologia. Dela, o oportuno poema “Outono”, que se abre, justamente neste equinócio de 20 de março, a estação dourada:

OUTONO

Aledir Bristot

Nem frio, nem calor

Apenas vontade

de encontrar um grande amor.

 

O verão agoniza

e insiste em ficar,

mas o tempo não pára,

é preciso andar, andar muito,

pois a vida continua.

 

Estação das frutas, néctar da vida,

estação do vento morno,

carinho, aconchego e paz,

marcas definitivas

do tempo que se refaz.

 

Lindos tapetes no chão

formados por folhas caídas,

colorindo a natureza

lugar definido

por onde hei de passar.

 

Parte inferior do formulário

 

 

 

CRONICA DA CIDADE

No dia dos namorados todos se comovem

Paulo Timm – Publicado em A FOLHA jun 2019

 

Cidade pequena é assim: As pequenas coisas é que importam. Viram até Poesia. O Rio Mampibuba é o mais belo rio do mundo/ Porque é o rio que passa pela minha aldeia. Quando cantamos a nossa aldeia, louvamos o mundo...Ele berra e até se mata na Síria e no Iemen, dizem até que morreiram 100 milhões nas grandes guerras do século passado; planejam para breve uma viagem tripulada à Marte, Estados Unidos e China se bicam; Bolsonaro desafia o Congresso Nacional, Movimentos massivos de rua e até uma Greve Geral, ocorrida no dia 14 com relativa paralização de serviços essenciais, mas aqui, o que nos interessa mesmo, são as fichas no Posto de Saúde, o alagamento das ruas, as vagas prometidas no CEI Mundo Feliz. Sobretudo aquela pergunta engasgada na gargante nos dias de temporal: O pessoal já voltou do mar...? Época de eleições é diferente Todo mundo diz que odeia Política mas não perde a oportunidade de votar por um vereador amigo ou um Prefeito novo. No dia-a-dia, porém, o que importa são os aniversários em casa, a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, o Dia

de Finados e, por que não dizer, dias especiais, como o 12 de junho, Dia dos Namorados. Aí todo mundo se derrete. Renovação de promessas de altar, jantarzinho romântico com um gole de vinho tinto, bilhetinhos de amor, uma rosa, um poema, sussurros. Amor não se define, sente-se...

Hoje de manhã cedo presencei uma destas cenas de amor romântico explícito. Justo na hora em que Tanise Wandrey, minha colega de bancada na Rádio Passo de Torres, colocava no ar, em homenagem aos namorados, “Eu sei que vou te amar”, do Poetinha Vinicius, seu marido, Jaime adentra o estudio acompanhando a cança na flauta. Ao final, beijos, rosas vermelhas e os dois amantes levemente corados. O amor é lindo!

Nem o Prefeito Jonas se furtou à data e cedo se fez de Poeta postando nas Redes, com uma bela foto beijando sua linda esposa, com votos de feliz dia dos namorados para ambos e o indefectível:

TE AMO DEMAIS...

 

Namorar é escolher morar no outro

Namorar é ter parceria nas loucuras.

É somar sorrisos nos dias difíceis.

É não desistir de dar o melhor para o outro.

Porque se namorar é o resultado de que é impossível

ser feliz sozinho.

Que sejam feitos os devidos arranjos no coração!

Namorar é amor sem peso.

Namorar é escolher morar no outro.

É amor e lar.

É um dia de cada vez

até o próximo dia.

 

Outros são mais cautelosos e avisam aos navegantes de primeira viagem sobre as agruras da vida a dois. Recolho, por exemplo, um desses depoimentos:

 

” A realidade, na comunhão de duas vidas, pode se apresentar, no entanto distante do ideal desejado. Eterna, mesmo, deverá ser a paciência. Mas só paciência seria insuficiente, não estivesse presente um cadinho de tolerância, uma pitada de dedicação, e um montão de valorização da criatura, todos os dias. Quem pensar o amor como um mundo de rosas sem espinhos, um rosto sem rugas e sem cabelos brancos, um corpo sadio e sem a inexorável e marcante barriguinha que a idade revela, restar-se-á frustrado, inevitavelmente. Frustrado, a procura do mito.” – (JAS-FB)

Anoitece. Amanhã será outro dia. Vida que segue.

 

RECADO DO QUINTAL DA DINDINHA NO DIA DOS NAMORADOS

MENSAGEM DAS FLORES

 

Poucos sabem o que dizem as flores. Antigamente era comum o uso das flores como mensagens de sentimentos. Hoje esta linguagem estáesquecida e quase ninguém sabe o real significado delas. Por isso é bom lembrar;

 

Amor Perfeito : “Penso apenas em Você”.

 

Azaléia-Rosa-Claro: “Estou feliz porque Você me ama”.

 

Begônia : “ Podemos ser amigos”.

 

Camélia: “Sinto-me orgulhoso com seu amor”.

 

Cravo: “Amo Você com ardor”.

 

Cravina: “Sou seu escravo”.

 

Crisântemo : “Não acredito mais em Você”.

 

Dente-de-leão: “Meu coração está cheio de alegria”.

 

Erva Cidreira: “ Tenha pena de fazer sofrer o meu amor”

 

Gardênia Branca: “Fugindo de mim Você me faz sofrer”.

 

Hortência: “Posso ter esperança?”

 

Jasmim: “ Imploro que Você me ame”.

 

Lírio: “ Meus sentimentos são puros”.

 

Madressilva: “ Apesar de tudo, amo Você.”

 

Mimosa: “Fique tranqüilo. Ninguém sabe de nosso amor”

 

Miosótis: “Não se esqueça de mim”.

 

Orquídea: “ O meu amor é puro”

 

Petúnia: “ Uma carta de amor foi interceptada”.

 

Rosa branca: “ Meu amor é triste”

 

Rosa vermelha: Meu amor é ardente.:

 

Violeta: “ Ninguém deve saber do nosso amor”.

 


QUADRIL, QUADRILHAS, QUADRINHAS

P.Timm – A FOLHA 03-10 MAIO

Eis o significado de quadril:

“A articulação do quadril é a articulação entre o fêmur e o acetábulo da pelve, e sua principal função é suportar o peso, equilibrar o corpo em posturas estáticas (de pé) e dinâmicas (caminhando ou correndo), proteger o sistema reprodutor e a parte inferior do sistema digestivo."

Interessante: Um quadril, qualquer quadril, por definição suporta um peso. Noto, aliás, que lhe falta ao Presidente Bolsonaro, com já quatro meses de exercício, este quadril que “lhe suporte o peso”, seja nas posturas majestáticas do trono, seja nos posts eletrônicos nas redes sociais. No Governo, ora briga com a PETROBRÁS, por causa do preço do diesel, ora com o IBGE, por causa da Pesquisa de Emprego, ora com o Secretário da Receita, que quer cobrar impostos das Igrejas. No ventrículo das Redes, fala em falsete o filho caçula e daí manda brasa pra todo lado, aliás, lado amigo. Haja “Mourão” para segurar a parada...Mourão de peso...

Vejamos quadrilha, que, apesar da mesma raiz, nada tem a vez com quadril, e tem até múltiplos significados, ainda segundo o Dr. Google:

Quadrilha – não confundir com quadrinhas de gosto popular ou trova - pode referir-se a: · Quadrilha (crime) - bando de ladrões, criminosos ou bandidos de uma forma geral · Quadrilha (dança) - uma dança de origem inglesa e presente nas festas juninas · Quadrilha (tauromaquia) um grupo de cavalaria · Quadrilheiros - polícia chefiada por um quadrilheiro

Será mesmo que os dois vocábulos nada têm a ver mesmo, um com outro? Coincidências?

 

E ainda poderíamos acrescentar ao vocábulo quadrilha, o título de um simpático poema do Poeta Maior (Drummond):

Quadrilha

“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história”

 

Ora, ora. Aqui, então, a evocação à conjuntura nacional é ainda mais acentuada e ficaria mais ou menos assim:

Bebbiano amava o Capitão que amava os três patetas

que amavam Olavo de Carvalho, que amava dois Ministros

que odiavam o Gilmar Mendes que namorava com Mourão

que nunca amou nenhum deles porque aguarda os acontecimentos.

Bebbiano foi pra casa

Olavo ficou nos States

Rodrigo, que nem estava na estória, teve que segurar a Previdência

Daí a Damares entrou pela porta dos fundos e tentou pôr ordem na casa

“Menino que é menino veste azul!”

Ninguém gostou. Todo mundo reclamou.

Mas em uníssono oraram:

“A Terra é Plana. Ou crê ou morre! Deus acima de todos..”.

 


IDEOLOGIA E IRRACIONALIDADE

CHEGARAM... A IDEOLOGIA OS SUSTENTA E A IRRACIONALIDADE A ALIMENTA. ENQUANTO OS ILUMINISTAS REIVINDICAM O RETORNO À RAZÃO.

O Brasil à beira de um novo tipo de ESTADO HIERÁRQUICO. Não católico. Irracional. Muito eclético, como era de se esperar,misturando Velho Testamento (fé) com Neoliberalismo (mercado) e autoritarismo militar (ordem e progresso). Intolerante e violento, alimentado por pura ideologia e avesso aos ditames da Razão, daCiência, do consenso democrático, das instituições, até das exigentes servidões do Poder com um mínimo de respeito ao decoro público, com forte acento supremacista branco e abertopreconceito contra populações mais pobres e vultneráveis. Temo. Chegaram lá. A terra é plana...O nazismo era de esquerda. A mudança climática é uma conspiração chinesa.

 


RASIL, LAICO E REPUBLICANO

Com efeito. E quem tergiversar sobre esta matéria está transgredindo a Lei. de 1990 , e a Contituição. DURA LEX SED LEX. Per tutti quanti...

 

Ministro M. Aurelio – STF – se pronuncia https://oglobo.globo.com/brasil/o-estado-laico-diz-marco-aurelio-sobre-bolsonaro-cogitar-escolher-evangelico-para-stf-23709699?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar&fbclid=IwAR0fJU3tjwH10_A8wlTFEPqNH9dTHoLKLwv4oVZj0BiRMPo2e6gWVaKOWFM

 

Para todos. Presidência da República

Casa Civil

Subchefia para Assuntos Jurídicos http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-1899/D119-A.htm

 

DECRETO Nº 119-A, DE 7 DE JANEIRO DE 1890.

 

Revogado pelo Decreto nº 11, de 1991

(Revigorado pelo Decreto nº 4.496 de 2002)

 

Prohibe a intervenção da autoridade federal e dos Estados federados em materia religiosa, consagra a plena liberdade de cultos, extingue o padroado e estabelece outras providencias.

 

O Marechal Manoel Deodoro da Fonseca, Chefe do Governo Provisorio da Republica dos Estados Unidos do Brasil, constituido pelo Exercito e Armada, em nome da Nação,

 

DECRETA:

 

Art. 1º E' prohibido á autoridade federal, assim como á dos Estados federados, expedir leis, regulamentos, ou actos administrativos, estabelecendo alguma religião, ou vedando-a, e crear differenças entre os habitantes do paiz, ou nos serviços sustentados á custa do orçamento, por motivo de crenças, ou opiniões philosophicas ou religiosas.

 

Art. 2º a todas as confissões religiosas pertence por igual a faculdade de exercerem o seu culto, regerem-se segundo a sua fé e não serem contrariadas nos actos particulares ou publicos, que interessem o exercicio deste decreto.

 

Art. 3º A liberdade aqui instituida abrange não só os individuos nos actos individuaes, sinão tabem as igrejas, associações e institutos em que se acharem agremiados; cabendo a todos o pleno direito de se constituirem e viverem collectivamente, segundo o seu credo e a sua disciplina, sem intervenção do poder publico.

 

Art. 4º Fica extincto o padroado com todas as suas instituições, recursos e prerogativas.

 

Art. 5º A todas as igrejas e confissões religiosas se reconhece a personalidade juridica, para adquirirem bens e os administrarem, sob os limites postos pelas leis concernentes á propriedade de mão-morta, mantendo-se a cada uma o dominio de seus haveres actuaes, bem como dos seus edificios de culto.

 

Art. 6º O Governo Federal continúa a prover á congrua, sustentação dos actuaes serventuarios do culto catholico e subvencionará por anno as cadeiras dos seminarios; ficando livre a cada Estado o arbitrio de manter os futuros ministros desse ou de outro culto, sem contravenção do disposto nos artigos antecedentes.

 

Art. 7º Revogam-se as disposições em contrario.

 

Sala das sessões do Governo Provisorio, 7 de janeiro de 1890, 2° da Republica.

 

Manoel Deodoro da Fonseca.

Aristides da Silveira Lobo.

Ruy Barbosa.

Benjamin Constant Botelho de Magalhães.

Eduardo Wandenkolk. - M. Ferraz de Campos Salles.

Demetrio Nunes Ribeiro.

Q. Bocayuva.

 

Este texto não substitui o original publicado no CLBR, de 1890


DEPOIS DE UM VERÃO GLORIOSO, O INVERNO DA NOSSA DESESPERANÇA

Horácio Luna, Colunista Politico – Torres RS . Publicado A FOLHA, 17/24 maio Crisostomo de Souza - FB 14 de maio às 18:09 ·

FILOSOFIA. Nossa atividade reveladora de mundo e atribuidora de significado não é a linguagem, é a prática - social, sim, histórica, mas sempre também material, sensível, corpórea, encorpada. Melhor dizendo, é nossa atividade de tomar e fazer coisas, de produzir materialmente o mundo humano - poiesis. De criá-lo. E é isso que constitui uma forma de vida.

 

Impeachment de Bolsonaro entra na pauta da velha mídia

Publicado em 17/05/2019 - https://www.esmaelmorais.com.br/2019/05/impeachment-de-bolsonaro-entra-na-pauta-da-velha-midia/

O jornalista Reinaldo Azevedo, da Folha e da Bandnews, foi mais claro ao dizer que o impeachment definitivamente entrou no radar da sociedade brasileira. “Se o presidente Jair Bolsonaro continuar a ouvir apenas a horda de malucos que o cerca, não conclui o seu mandato”, começa o texto do articulista que emenda: “O cargo lhe serve apenas para se vingar de seus inimigos ideológicos ou do fiscal do Ibama que um dia o multou.”

Editoriais do Estadão, Folha e Globo sinalizam para uma blitzkrieg (guerra-relâmpago) para derrubar o governo de Jair Bolsonaro que se isola rapidamente das ruas e do Congresso Nacional

 

O longo título acima tem raízes na literatura mundial: Shakespeare e John Steinbeck. Mas, para nós, trata-se de mera alegoria aos tempos difíceis que se anunciam depois do “despertar” das eleições presidenciais de 2018 e posse do Presidente Bolsonaro no primeiro dia deste ano. Disse despertar entre as aspas, de propósito: Despertar de que ou d´o quê? Quem acorda, enfim, estava embalado em algum tipo de sono, foi sacudido e se deparou com o mundo real. Mas o que é efetivamente o real? Será possível vê-lo sem os óculos da narrativas? Um grande poeta inglês do início do século XX, Oscar Wilde, na esteira de um conterrâneo seu de três séculos antes – F.Bacon,1561/1626 , autor de “Os ídolos da razão”– desconfiava disso e dizia que nascemos, todos, irremediavelmente “velhos”, presas de uma geografia e uma história. Acrescentava, porém, que podíamos rejuvenescer pelo exercício da cultura crítica. Freud, reconhecidamente pessimista quanto à natureza humana, não foi muito longe disso em “O mal estar da civilização”. Mais recentemente, outro autor, Y.Harari – “Sapiens” - , voltou a dizer que somos, todos, vítimas da ficção das linguagens – as narrativas. Quando abrimos os olhos, portanto, o que vemos como realidade, primitivamente, são as coisas pelos seus nomes, a normalidade

pelos seus usos e costumes, as instituições pelo seu lugar. Aí os poetas se rebelam e trocam os nomes pelas metáforas, os filósofos trocam os ideias vigentes por novos conceitos e os ideólogos os usos, costumes e instituições por novas roupagens, onde pululam sensações estéticas e pulsações éticas capazes de alimentar emoções e eternas esperanças, entre elas algumas ilusões. Ah! Ilusões. “Dura um segundo uma ilusão e dura uma eternidade uma saudade”. Delas e com elas vivemos.

Eis-nos, pois, às vésperas de um inverno, chuvoso. Lacrimal...

Ficarão saudades?

Quem sabe? A verdade é que a conjuntura nacional que se seguiu ao novo Governo pouco promete.

A economia rasteja sujeita à subsequentes previsões quanto ao PIB deste e do próximo ano. As vendas do Dia das Mães, por exemplo, foram decepcionantes. Os 13 milhões de desempregados, além de outro tanto de “desalentados”, terão que esperar nas longas filas até o ano de 2021. Consequência disso: Sem vendas, a cobrança de impostos que alimentam os cofres da União, Estados e Municípois desaba cada vez mais, agravando a dita crise fiscal. O Governo Bolsonaro culpa os governos passados, sempre na ladainha que todos conhecemos da “herança maldita”. Seu avatar Paulo Guedes, o Tchutchuca, vai ao Congresso e diz, em tom de ameaça com o fim de aprovar a Reforma da Previdência, que o Brasil está no fundo do poço. Pior é que está mesmo. Com ou sem a tal Reforma. Eis os números que assustam os “despertos” para a desesperança: O rombo do Tesouro da União é de cerca de R$ 200 bilhões anuais, sem contar o pagamento dos juros (8% ao ano) sobre uma Dívida Pública de R$ 6 trilhões, o que dá, em média, um “gasto” de R$ 480 bilhões – embolsado por cerca de 200 mil famílias milionárias deste imenso país. Rombo: R$ 680 bi. Pergunta: De que adiantará a “economia” de apenas R$ 100 bi diante desse desastre, que eleva em 1 trilhão de reais nossa dívida a cada dois anos? Nada. Mas o Governo tem a “ilusão” -e a vende ao distinto público eleitor - de que, magicamente, isso despertará investimentos em cascata que nos redimirão da recessão e abrirão um Paraíso de onde jorrarão lei e mel para todos...

Em meio a isso tudo, duas fraturas: Uma, política, com dois lados a que ficou reduzida: No Governo, uma frágil base parlamentar, na qual os aliados do Governo vivem batendo cabeça um com o outro expondo a incapacidade de Governo, como já vimos outrora, com Jânio Quadros, em 1961, com Collor, em 1992 e com Dilma Roussef , em 2016, apontando para inevitável crise; na Oposição, minoritária no Congresso, as ruas retomam a iniciativa, colocando 1 milhão de manifestantes no dia 15 passado e prometendo novas mobilizações e greves ainda neste mês http://g1.globo.com/globo-news/jornal-globo-news/videos/v/numero-de-manifestantes-na-avenida-paulista-chega-a-1-milhao-afirma-pm/4036683/?fbclid=IwAR3pMuiq90-KOgpeIypbo22qi9EON162e1dzxSB7jRKICHnhSPGqqtWBev8 . Balbúrdia...? Ou crise?

Como se não bastasse, advêm uma crise moral no coração do Governo, sua família: O filho, Senador Flavio Bolsonaro, junto com mais 80 suspeitos, caem

nas malhas da implacável Procuradoria do Rio de Janeiro, que já colocou nas grades dois Governadores, diversos deputados, inúmeros membros do Tribunal de Contas do Estado e outras altas autoridades. Acusação: Lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito- https://epoca.globo.com/guilherme-amado/mp-do-rio-de-janeiro-mira-cheques-de-queiroz-para-michelle-bolsonaro-23668794?fbclid=IwAR1Dt2jizNIlmodIEJTBlpXp-v1s5l8CvdH56t11JB9_AhkkwPSFIqu5wSA .

Enfim: O inverno se anuncia. De ilusões desfeitas e graves desesperanças quanto ao futuro do Brasil.

Tempo de se pensar seriamente em “Pasárgada”..


PACTO ENTRE OS TRÊS PODERES? Oressa...

Íntegra de artigo publicado em A FOLHA, Torres – 31 maio 2019

Horácio Luna

 

 

 

“Para início de conversa “pacto” é sinônimo de: acordo, combinação, contrato, convenção, convénio, negócio, tratado. A sua origem está no latim: “pactum, pacisci”, “fazer um trato, um acordo.”

Josias de Souza

Horacio Luna – Cronista Politico.

O mês de maio ficou pra trás. Deixou como rastro da conjuntura duas grantes manifestações de rua: Dias 15 e 30 , contra o Governo; dia 26, a favor - https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/05/26/manifestacoes-a-favor-de-bolsonaro-x-protestos-contra-cortes-na-educacao.ghtml. Ambas de certo vulto envolvendo centenas de milhares ao relento em cerca de 150 cidades do país. Militantes de um e outro lado medem o tamanho de cada uma delas, num campeonato meio juvenil: - O meu é maior! Bobagem. O que importa é ressaltar que há

um governo legítimo, eleito por 58 milhões de votos, há cinco meses em funções, e há uma oposição, que fez 47 milhõesde votos à qual se associam outros tantos insatisfeitos com gregos e troianos. O Governo tem que governar para todos e não só para seus eleitores. E há o fato, fartamente sabido, que o Presidente eleito o fez com um discurso anti-stablishment, à margem do sistema político tradicional – Congresso Nacional, Partidos Políticos, Aparatos de Estado, Imprensa, Sociedade Civil organizada. Não obstante, com um Partido novo e pequeno, com 10% de assentos no Parlamento, sem ideologia definida e lideranças consolidas, é com este “sistema” que ele tem que trabalhar. Faz parte do jogo republicano, ao qual se adaptaram as monarquias constitucionais modernas. Soberano, neste sistema, é o povo, cidadão, eleitor. A cabeça do Poder é uma mera circunstância, condenada a ceder lugar, nas próximas eleições a outra pessoa que poderá, aliás, ter outra inspiração ideológica. O Presidente é como o Poeta, vale pelos seus versos, jamais pela sua própria pessoa.

Conta-se, sobre as origens da República , na sua instauração em 1776, nos Estados Unidos, num tempo ainda dominado por Monarcas Absolutistas no mundo, que faziam e desfaziam nos seus tronos, que os Pais da Pátria daquele país tinham duas coisas em mente: Queriam, de uma parte, uma figura central no Governo, sim, mas por tempo determinado, rotativo, afim de que não criasse raizes que inevitavelmente o levariam ao abuso do Poder; de outro lado, cuidaram que, mesmo neste período em que detivesse o poder central, este ficasse limitado por um complexo controle de freios e contrapesos, começando pelo Legislativo, representante de todos os eleitores e culminando pelo arbítrio final do Judiciário. Disso, portanto, se trata a República Democrática: Ninguém tem Poder total e absouto. Há uma teia institucional, consubstanciada no sistema de Leis vigentes e corpos públicos e privados que lhe vertebram.

O Presidente Bolsonaro, entretanto, não deve ter no seu currículo as leituras sobre o que é o Poder ao qual ele foi guindado: República e Democracia . Continua impulsionado pelo ímpeto da reinvenção do Brasil com base no seu plano de campanha. Não compreende a intrincada matriz que o condiciona. Quer porque quer e fulmina, via redes sociais, todos aqueles que, mesmo do seu próprio Governo ou Partido, entende como obstáculos à sua soberana vontade. Isso tem uma nome: Pré-política. Daí as críticas destemperadas a Ministros, IBGE, UNIVERSIDADES, ENEM, FIOCRUZ, IBAMA etc.- https://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/261969/tentativa-de-desqualificar-fiocruz-e-algo-assustad.htm?fbclid=IwAR0GaXBscJBDdH15k96cPfLmY98CFhZdYu1IZKMtU99P271RtGPb_XDHDfs

Agora consta que proibiu órgãos federais a terem seus próprios sites, sinal de que vê ameaças por todos os lados - https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/395065/Bolsonaro-pro%C3%ADbe-institui%C3%A7%C3%B5es-federais-de-terem-seus-pr%C3%B3prios-sites.htm?fbclid=IwAR21MK-Su-4xybfNdzHuTCLujsbpjD0U1k_y3BBwWlmqV4-DSZ5V2ukYSVQ#.XPAb0XqUCs8.facebook

Nesta semana, por exemplo, houve por bem convidar – ou convocar – o Presidente do Supremo e os Presidentes da Câmara e Senado para firmarem um Pacto pelas Reformas no Brasil. Caiu mal. Os três Poderes, na forma da Constituição – e da Doutrina – são compulsoriamente independente e harmoniosos. Pacto – ou trégua – se faz com inimigos e adversários. Ora, muitos perceberam que sequer o Vice Mourão pousou na foto do Dia do Pacto. Sinal de que só foram chamados os “mui amigos”. Ora, com amigos se faz festa, não pactos. Estes são concertações com quem pensa e age diferente da gente para a consecução de grandes tarefas como defesa contra invasão estangeira, catástrofe irrecorrível, crise aguda, nunca para consecução de programas governametais. Maior erro, entretanto, foi a presença do Presidente, sempre trapalhão, do Supremo ao feito, pois, como chege do Judiciário não lhe cabe defesa de ações executivas contra as quais poderão advir reclamações de insatisfeitos as quais deverão ser julgadas com um mínimo de netrualidade política. Presciamento por isso, até os juízes protestaram através de várias notas- https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2019/05/29/juizes-federais-reagem-a-toffoli-e-dizem-que-pacto-e-para-atores-politicos.htm?fbclid=IwAR2XR6A-hu7xtD_BPGL_JasLvS6pFF3PYxVNhP7WgiCvG_7rTXtGvS5KsSI . Tudo errado. Mas ainda há tempo. Vejamos o que nos reserva o mês de junho...


EDUCAÇÃO EM NÚMEROS

Paulo Timm – Especial A FOLHA, Torres RS 10 maio

 

Dentre os recentes anúncios surpreendentes do novo Governo Bolsonaro, dentre os quais a mudança da Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, introduzindo-nos gratuitamente no mais agudo e persistente conflito mundial, sobrevém, agora, o corte de 30% no Orçamento das Universidades e Institutos Federais, que no caso da Bahia chegou a 58%. Uma temeridade. Justificado, à luz do “Doutor” A.Weintraub, Ministro da Educação, em nome dos mais pobres que precisam de ensino básico e não de faculdades. Com efeito, há no pais 42 milhões de jovens no ensino fundamental, com o agravante da grande evasão escolar quando estes chegam à adolescência e vão engrossar o contingente dos ném-néns – nem escola, nem trabalho - contra cerca de 1,2 milhão nas Universidades e 600 mil nos Institutos Federais. O Brasil precisa mesmo fortalecer a base da pirâmide educacional, não só com mais vagas desde a educação infantil, como nas camadas imediatamente superiores, sobretudo no ensino médio, onde está, atualmente, o nó górdio de nosso sistema. Simultaneamente, necessita, urgentemente, melhorar a qualidade do ensino fundamental, promovendo maior capacidade de nossos meninos e meninas para ler, expressar-se, entender que a Terra não é plana (!) e fazer contas. Lamentavelmente, porém, o corte do Orçamento do MEC não produzirá o efeito prometido e, ainda por cima, comprometerá a finalidade última das Universidades Públicas como instrumento de inserção social e pesquisa científica. Por último, mas não menos importante, o dito corte já expôs as deficiências do atual Ministro, que se diz Doutor sem sê-lo, com o agravante de péssimo currículo escolar quando estudante, colocando-se no centro de um levante estudantil de proporções inimagináveis. Lembremo-nos de 1968...

Vejamos:

O Governo alega que não está fazendo cortes, apenas contingenciamento. Mente. Volnei Piccolotto compartilhou um link no grupo Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito.

1 h ·

Bolsonaro e o ministro da Educação Weintraub tentam enganar.

CONTINGENCIAMENTO também inclui os cortes orçamentários. Veja a definição de contingenciamento usada pelo próprio Governo Federal:

“O contingenciamento consiste no RETARDAMENTO ou, ainda, na INEXECUÇÃO de parte da programação de despesa prevista na Lei Orçamentária em função da insuficiência de receitas.” Inexecução é deixar de realizar o gasto ou o investimento, é cortar o orçamento.

O que é contingenciamento?

22/05/2015 20h35, última modificação: 22/05/2015 20h35

O contingenciamento consiste no retardamento ou, ainda, na inexecução de parte da programação de despesa prevista na Lei Orçamentária em função da insuficiência de receitas. Normalmente, no início de cada ano, o Governo Federal emite um Decreto limitando os valores autorizados na LOA, relativos às despesas discricionárias ou não legalmente obrigatórias (investimentos e custeio em geral). O Decreto de Contingenciamento apresenta como anexos limites orçamentários para a movimentação e o empenho de despesas, bem como limites financeiros que impedem pagamento de despesas empenhadas e inscritas em restos a pagar, inclusive de anos anteriores. O poder regulamentar do Decreto de Contingenciamento obedece ao disposto nos artigos 8º e 9º da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

PLANEJAMENTO.GOV.BR

 

A educação infra-universitária, a propósito, é de responsabilidade dos municípios e não da União, que aporta a elas apenas 15% dos gastos finais através de Programas como o repasse automático do FUNDEB e transferências negociadas para transporte e merenda escolares, oferta de livros didáticos e cursos para professores. Este percentual, aliás, sofreu um corte ainda maior do que o das Universidades: 40%. Não é verdade, portanto, que o MEC tirará das Universidades e dará “aos mais pobres que mais precisam”. Conversa.

De outra parte, 60% das matrículas em Universidades Federais e Institutos já são ocupadas por alunos das classes mais pobres da população – classes D e E - https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/05/17/maioria-dos-alunos-das-federais-e-negra-e-de-baixa-renda-dizem-reitores.htm?fbclid=IwAR1CbQ4ddt8tFuz-NpWpfJYNX1HNr5MMWhszmrKROoG0YToD6V4UWIr_v_E - , graças aos programas de cotas raciais inaugurado na Era FHC, no ano 2000, e ampliado na Era petista.

Cotas raciais https://brasilescola.uol.com.br/educacao/sistema-cotas-racial.htm

O sistema de cotas raciais no Brasil não beneficia apenas os negros. Nas instituições públicas da Região Norte, por exemplo, é comum a reserva de vagas ou empregos para indígenas e seus descendentes.

As cotas raciais são um modelo de ação afirmativa implantado em alguns países para amenizar desigualdades sociais, econômicas e educacionais entre raças. A primeira vez que essa medida foi tomada data de 1960, nos Estados Unidos, para diminuir a desigualdade socioeconômica entre brancos e negros.

No Brasil, as cotas raciais ganharam visibilidade a partir dos anos 2000, quando universidades e órgãos públicos começaram a adotar tal medida em vestibulares e concursos. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) foi a primeira instituição de ensino no Brasil a adotar o sistema de cotas raciais, em 2003, por meio de uma lei estadual aprovada em 2001. Já a Universidade de Brasília (UnB) foi a primeira federal a adotar as cotas, em junho de 2004.

De lá para cá o número de universidades que possuem ação afirmativa baseada em raças só aumentou e hoje já representa a maioria das universidades federais.

O sistema de cotas raciais no Brasil não beneficia apenas os negros. Nas instituições públicas da Região Norte, por exemplo, é comum a reserva de vagas ou empregos para indígenas e seus descendentes. Algumas universidades também destinam parte de suas vagas para candidatos pardos.

Independente do tipo de cota racial, para ser beneficiada a pessoa precisa assinar um termo autodeclarando sua raça e, às vezes, passar por uma entrevista. A subjetividade dessa entrevista é um dos pontos que mais geram discussão em relação às cotas raciais. Em 2007, gêmeos idênticos foram considerados de raças diferentes ao passarem por uma entrevista na UnB. Um pôde concorrer pelo sistema de cotas raciais, o outro não. Após repercussão do caso na mídia, a UnB voltou atrás e considerou os dois irmãos como sendo negros.

O assunto é bastante polêmico e nada indica que um dia deixará de ser. O Brasil tem atualmente a segunda maior população negra do mundo (atrás apenas da Nigéria) e é inegável que o país tem uma dívida histórica com negros e indígenas. Por outro lado, as cotas raciais já prejudicaram várias pessoas que perderam vagas ou empregos para concorrentes com menor pontuação ou qualificação.

Veja abaixo alguns textos que aprofundam mais esse assunto:

Cotas em vestibulares https://vestibular.brasilescola.uol.com.br/cotas/ Argumentos a favor das cotas raciais https://vestibular.brasilescola.uol.com.br/cotas/pros.htm Argumentos contra as cotas raciais https://vestibular.brasilescola.uol.com.br/cotas/contras.htm

Por Adriano Lesme - Equipe Brasil Escola

LESME, Adriano. "Cotas raciais"; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/educacao/sistema-cotas-racial.htm>. Acesso em 17 de maio de 2019.

 

A Universidade pública e gratuita já cumpre, portanto, um papel na inserção dos mais pobres, de caráter enormemente redistributivo. De resto, grande parte das pesquisas acadêmicas ocorrem em áreas de grande interesse social como o desenvolvimento de vacinas contra grandes endemias, tais como dengue-zica, HIV e doença de chagas e outros reagentes para verificação de inúmeras enfermidades, para não falar dos Institutos de Matemárica, Química e Física que colocam o Brasil ao lado de grandes países desenvolvidos – https://www.sul21.com.br/ultimas-noticias/geral/2019/05/estudantes-da-ufrgs-criam-pagina-para-divulgar-producao-cientifica-o-que-se-faz-na-federal/?fbclid=IwAR1wJ--VXA6RSMP4MMETEjWG10eevNrfxTDbVKYuxTJ9JY2bKYWoyk5EVbQ

 

Um dado, finalmente, sobre o Orçamento das Universidades, que parece ser desconhecido do Ministro do MEC é que mais de 80% dos gastos correspondem a salários de professores e funcionários, ativos e inativos, sobre os quais os Reitores não detém qualquer controle. São definidos na Lei Orçamentária da União de acordo com negociações travadas com as categorias respectivas. Como a folha salarial é inflexível, o corte recairá sobre Investimentos, já quase zerados, e outras atividades fins como Extensão e Pesquisa


 

BRASIL: CORDIAL OU VIOLENTO?

Paulo Timm – A FOLHA, 15/22 janeiro

 

“Com professores armados tragédia (Suzano)seria minimizada” Sen. Maj Olimpio – PSL - https://exame.abril.com.br/brasil/com-professores-armados-tragedia-seria-minimizada-diz-major-olimpio/?fbclid=IwAR0iXJqmXy_ZIlOpWWVxtg6vCJS5MSmQXEmvWO1SKDJ8U54GySFrRMF2nk4

“Os dois atiradores do massacre de hoje fazem parte de toda uma cultura submersa da internet, que esbarra na superfície em páginas de memes, mas que sobrevive mesmo nos imageboards conhecidos como "chans". No mar de lama e esgoto destes fóruns, garotos e homens que se autointitulam machistas e direitistas assumidos fazem postagens bizarras sobre racismo, homofobia e principalmente sobre ódio contra as mulheres, a quem culpam por não lhes darem chance de perder a virgindade. Daí o título de "incels" –involuntary celibatarian (celibatários involuntários).”

Guilherme Peace in Atiradores eram INCELS DE CHAN – FB – 16 MARÇO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por muitos anos, nos acostumamos com a ideia de que os brasileiros são cordiais e que os estrangeiros nos adoram quando aqui chegam . Tudo isso teria se consolidado na década de 30 do século passado quando dois autores , já clássicos, teriam “adoçado” a cruel vivência nos trópicos: Gilberto Freire, com “Casa Grande & Senzala”, e Sergio Buarque de Hollanda, com “Raízes do Brasil”. Foi um período de ruptura com as ideias racistas, com epicentro na Europa, que tendiam a nos desqualificar enquanto povo e quanto às perspectivas de desenvolvimento e estes autores nos requalificavam aos olhos do mundo. Ultimamente, porém, o aprofundamento da democracia-

entre-nós, como a ela sempre se referia o Professor Florestan Fernandes, guru da sociologia da Universidade de São Paulo, os olhares sobre nossa realidade ficaram mais agudos e levaram à uma percepção de que a cordialidade não passa de um mito. Isso porque a democratização levou não apenas a uma grande extensão do voto, sobretudo depois de 1988, levando a confrontos ideológicos , como pela emergência à cidadania de segmentos sociais vulneráveis, como negros, mulheres, índios e trabalhadores rurais, em suas novas representações. Os embates, adormecidos no Império e contidos como “questão de polícia” na República Velha, foram se acentuando ao longo do século XX e explodiram no início deste século Acresça-se a isso, aliás, o grande crescimento da população brasileira, de pouco mais de 30 milhões em 1930, data da virada varguista, hoje superior a 200 bilhões, concentrada em 80% nas Regiões Metropolitanas em volta das capitais. Adensamento urbano, grandes contingentes à margem do mercado, destacando-se o fato de que 50 milhões ganham até meio salário mínimo, amadurecimento político das grandes massas sobre seus direitos, tudo isso contribui sociologicamente para a criação de um ambiente distindo do pacato Brasil das grandes fazendas de cana e café. O Brasil mudou para uma realidade mais competitiva, incapaz de incorporar os novos contingentes urbanos e acabou cevando no seu interior janelas de sobrevivência na contravenção. Desta ao crime, intensificado com o crescimento do narco-tráfico das 3 últimas décadas, cujas ramificações guerreiam pelo controle dos pontos de venda da droga, com a qual dão origem ao enriquecimento de quadrilhas, com capacidade cada vez maior de corromper as frágeis malhas do Estado. Na base, o controle destas quadrilhas sobre as populações mais pobres dos subúrbios metropolitanos. Violência.

Este o diagnóstica das mudanças que nos retiraram de uma sociedade agrária para uma sociedade urbano industrial nos últimos 90 anos, com inevitáveis rupturas da vida e seguranças sociais. Mas daí, como explicar o assassinato de Marielle Franco, intercalada por um corolário de 60 mil homicídios ao ano, com mortes de agentes policiais e bandidos em sucessivos confrontos, e outro tanto de mortes no tránsito, além do assassinato de centenas de lideranças camponeses e indígenas e mulheres, até chegar ao massacre de ontem, perpetrado por dois jovens, em Suzano, São Paulo, levando à mais de dez óbitos? Difícil explicar. De um lado, emergem as ações do novo governo, afirmando a necessidade de apertar a legislação anti-crime, paralela `a flexibilização da posse e porte de arma como mecanismo de defesa pessoal. Ontem mesmo, um Senador, Líder do Partido do Governo sentenciou: - Se os professores estivessem armados o resultado seria outro. Contra esta visão levantou-se o Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, dizendo que isso seria uma barbárie e que temos que enfrentar o problema da violência em suas raízes. Este é a posição, também, da maioria das Igrejas, dos nucleos de defesa dos direitos humanos e várias lideranças tanto de direita quanto de esquerda. Mas fica a pergunta: - Como? Outros há, enfim, como o Vice Presidente Mourão, que apontam as novas tecnologias e o acesso indiscriminados aos jogos virtuais, extremamente violentes, como um estímulo à estes acessos de ira e assalto armado à inocentes. O assunto é, como todos os demais ligados à sociedade, amplo, complexo e controvertido. Por isso mesmo o diálogo talvez seja o melhor caminho. Em todo o caso, é bom lembrar que se parecíamos cordiais, isso sempre foi apenas uma máscara da violência brutal da sociedade escravocrata que aninhamos por quase quatro séculos, como assinalou, neste depoimento Charles Darwin em sua passagem pelo Brasil no século XIX:

“ – Perto do Rio de Janeiro, minha vizinha da frente era uma velha senhora que tinha umas tarraxas com as quais esmagava os dedos de suas escravas. Em uma casa onde estiva antes, um jovem criado mulato era, todos os dias e a todo momento, insultado, golpeado e perseguido com um furor capaz de desencorajar o mais feroz dos animais. (...) E essas coisas são feitas por homens que afirmam amar ao próximo como a si mesmos, que acreditam em Deus, e que rezam para que sua vontade seja feita na terra. O sangue ferve em nossas veias e nosso coração bate mais forte e pensar que nós, ingleses, e nossos descendentes americanos, com seu jactancioso grito em favor da liberdade, fomos e somos culpados por esse hediondo crime.”

 


 

TORRES E SUA HISTÓRIA

Paulo Timm – Especial A FOLHA, Torres fev-mar 2019

 

“Todos os anos são milhares as pessoas que visitam as Furnas. Pode-se afirmar que hoje, juntamente com a Guarita, aqueles paredões de rocha representam a paisagem mais famosa do Sul do Brasil.”

Ruy Ruben Ruschel in “Na torres das furnas há 90 anos” – Torres tem Historia, EST Ed. POA_2004 pg. 48

“Em 1930 (Balbino Luiz de Freitas) montou um museu arqueológico em casa.(...) O antropólogo argentino Antonio Serrano, diretor do Museu de Entre-Rios, visitou-o em 1936 e dedicou um livro ao assunto. Em outubro de 1937, o acervo foi adquirido pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro (que incendiou no início de 2018), onde a “Coleção Balbino Freitas ainda é conservada (?), com mais de mil peças”.

Ruy Ruben Ruschel in “Balbino Luiz de Freitas” – Torres tem Historia, EST Ed. POA_2004 pg. 682

 

 

Torres tem sido pródiga em registros, crônicas, poemas e análises históricas. Fruto, primordialmente, de dois acidentes geográficos: a foz de um rio e as inusitadas projeções basálticas, ambas juntas, num costão de mar aberto sem qualquer reentrância. Não tinha como passar despercebidas por exploradores da banda do Atlântico sul do Novo Continente. Na verdade, não apenas Torres foi digna de registro, como também Passo de Torres, as quais só apareceriam como aglomerações colonizadoras mais tarde, mas a própria foz do Mampituba foi notada por estes navegadores que lhe deram diversos nomes, desde “El Farolon”, em , 1527, dado por Sebastião Caboto. Ambas cidades, Torres e Passo, aliás, no passado, já pertenceram ao Rio Grande do Sul, como este de Santa Catarina. Coisas da Política...Um istmo, a propósito, apertado entre o mar e o braço morto criado pela mudança da foz do Rio ,na construção dos molhes mais ao sul da saída original, antes pertencente ao Rio Grande, agora está incorporado ao município catarinense com o nome de Pasárgada. Seus moradores são legítimos “cataúchos”.

Ruy Ruschel (1926-1999) foi, contudo, o grande historiador de Torres. Filho adotivo da terra, neto do famoso José Antonio Picoral, o da Pousada, iniciou sua vida universitária como Professor de Geografia e História em Porto Alegre vindo, posteriormente, a formar-se em Direto e a ocupar um cargo na Magistratura estadual, com posto em Torres. Aqui participou de uma era dourada da cidade quando, no sopro dos veraneios aristocráticos que deixariam marca indelével na paisagem urbana da cidade, além de raízes na cultura e na vida institucional da cidade com a forte presença na SAPT, fluiam amores e pretenciosos rumores.

Desta época, entre os anos 1960 e 1980, era possível vê-lo, apesar de sua preferência pelo recolhimento, em animados colóquios, com José Paulo Bisol, Senador pelo Rio Grande e candidato a Vice Presidente na Chapa de Lula em 1989, hoje residindo em Osório, Francisco Raupp e outros personagens de proa que por aqui passavam. Deixou-nos a obra mater “Torres tem História” – EST Ed./POA_2004 -, um alentado volume, com 671 artigos reunidos por Nilza Huyer Ely , publicados basicamente no Jornal A Gazeta, de Torres, mas também no Jornal de Torres, Revista Torres News e Correio do Povo. Hoje, a tradição dos estudos históricos prossegue com outros pesquisadores e escritores, como Jaime Batista, catarinense, Bento Barcelos, auto-didata notável que converteu em dois livros os “causos” interessantes aqui vividos por personagens populares e que teriam se perdido tivessem permanecido na oralidade e, por último, mas não menos importante, Nelson Adams, jornalista, editor de A GAZETA por mais de 20 anos, onde publicou as crônicas de Ruy Ruschel, hoje convertido em historiador regional , com vários livros escritos nos quais corrige alguns equívocos consagrados. Autores bissextos, ainda entre nós, como Maria Helena M. Lima e Silva, autora de obra ímpar – “Moradores da Rua Julio de Castilhos” -, com quem ontem tive enorme prazer de rememorar passagens memoráveis da cidade e Roberto Venturella, autor de “A História do Farol de Torres”, também devem ser lembrados. De passagem, fala-nos Ruschel (pg 841) de Guido Muri, com suas “Remembranças de Torres”.

O próprio Ruschel cuidou de pesquisar os escritores de Torres ao longo de sua História, sem descuidar de falar sobre os povos indígenas que aqui viviam antes da chegada dos europeus.

Tirando os registros topográficos ancestrais, Ruschel assinala como primeira obra digna de atenção um livro de Theodor Bishoff na Alemanha, em 1927, sobre os sambaquis, tema objeto de livros posteriores do argentino Antonio Serrano e Arno Kern e um trabalho denominado “Sitios arqueológicos de Torres”, de 1966, seguida por dois relatórios de Edgar Roquette Pinto (1884-1954) médico legista, professor, escritor, antropólogo, etnólogo e ensaísta brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras e considerado o pai da radiodifusão no Brasil pela criação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, com o intuito de difundir a educação por este meio, por volta de 1923. Digno de nota é o “Compêndio Noticioso do Continente do Rio Grande” de Francisco João Roscio, publicado em 1781 em Lisboa.

 

Isso posto, evidencia Ruschel como pioneiros: Dante de Laytano, com várias monografias, primeira delas “Geografia do Município de Torres”, de 1935, sua própria obra “As torres do litoral gaúcho”, Alfredo Gomes de Jacques, com “Mar perdido”, destacando o primeiro conto relacionado à Torres, e Jovita Esquina, ainda entre nós com seu magistral “Torres Minha Paixão”, de 1979. Na sequência seguiram-se “São Domingos das Torres”, dele próprio em coautoria com sua mãe Dalila, de 1984, “Torres eu te amo”, de Garcia Rosa e “Do alto da Torres”, de Francisco Raupp, todas com crônicas de até 30 anos antes. Outras

crônicas, espalhadas ao longo daquele tempo, em jornais como “Jornal do Dia” e “A Nação”, além do “Correio do Povo”, cuja página de Cidades foi muito preenchida com temas torrenses, as quais a CASA DO POETA DE TORRES hoje procura juntar em nova antologia: Dante de Laytano, em 1931, Mário Kras Borges, Mário Luiz de Freitas e Francisco Raupp, nas décadas seguintes, bem como Renato Costa, Patrícia Bins e Heloísa Dias de Mello, na década de 60, Fernando Sampaio, em 1970, José Andraes Chaieb, 1971, Coelho de Souza, 1972 e Martha Dreher, 1976. Lembra, ainda, Ruy Rushel, em sua crônica “Torres na Imprensa da Capital”, de 29 de março de 1986, incluída na coletânea citada (pg51) as reportagens de Arquimedes Fortini, Valter Galvani e Mário Gardelin na “Folha da Tarde”, de Porto Alegre, na década de 60. Vale lembrar um feito histórico de grande importância cultural: Em 1927 José (Zequinha Picoral, afeito ao cinema, rodou um documentário, perdido num incêndio – “Torres” – de grande impacto nos Cines Guarany e Carlos Gomes, em Porto Alegre e que projetado em Berlim inspirou uma crônica, até hoje não recuperada, e um tango, composto por Richard Schonian intitulado “Serenata Torrense”, transmitido pela Rádio Gaúcha em 1933.

A CASA DO POETA DE TORRES, situada na mesma casa e livraria do saudoso João Barcelos, outra incansável pesquisador das origens da cidade, encabeçada por seu irmão Bento Barcelos, Eduardo Jacques, José Nilton Teixeira, Maria de Lourdes Cardoso, Solange Borges, Joaquim Moncks e este modesto escrevinhador da Província, está empenhada em juntar todas estas peças em seu acervo, aberto ao público, de forma a preservar e valorizar autores e obras sobre Torres e sua região. Roga aos que dispõem de alguma delas - ou bem outros livros para eventual intercâmbio - que visitem sua sede, que está aberta diariamente, à tarde, à Rua Francisco Teixeira, n. 15, perto do Nacional.

Dobram, assim, os sinos roucos da aldeia em memória aos que se dedicaram a evocá-la em suas obras.

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